Se o amor da minha vida não chegar

Se o amor da minha vida não chegar, vou publicar todos os meus casos de amor. Em de-ta-lhes. E vão ser vários. Vou chorar pitangas com as amigas, fazer brigadeiro, depois vou pra academia e pintar o cabelo de loiro. Vou odiar tanto a cagada que o cabeleireiro fez que nem vai dar tempo de lembrar quem era esse otário que me fez chorar. Vou fazer hidratação e vou voltar a ter meu cabelo castanho de sempre, só que com um pouco menos de brilho porque não há cabelo que sustente uma água oxigenada. Vou comprar batons de várias cores chamativas e misturar com roupas de cores diferentes. Até azul eu vou comprar. Vai que eu resolvo me fantasiar de alguma coisa…

Vou alugar um apartamento só meu. E vou pintar uma das paredes de vermelho. Vou começar a decorar pelos quadros. Vão ser fotos do Oprisco por todos os lados. E fotos das minhas diversões ao longo da vida. Eu vou ter uma cama de casal pra poder levar quem eu quiser. E o lençol tem que ser branco. Não vou precisar decidir se vou casar ou comprar uma bicicleta. Eu vou comprar uma bicicleta e pronto.  Minha casa sempre vai ter gente, mas alguns dias eu vou preferir ficar sozinha lendo um livro e tomando um bom vinho. Em outras noites vou tomar leite com nescau vestida com meu casaco de lã. Vou ver “Como perder um homem em 10 dias” pela décima vez e dormir antes de chegar o final, que é a parte mais previsível.  Outras noites eu vou ficar no redbull porque vou ter alguns textos para entregar e outros para decorar. Vou chegar sempre por volta das 23h, porque eu vou estar envolvida em vários projetos artísticos e sempre envolvida com várias pessoas. A noite é feita para aqueles que ainda não encontraram o amor da vida, então eles vão distribuir esse amor com um monte de gente por aí. Vou continuar tendo meus inúmeros casinhos, mas sempre vai ter um que tira minha noite de sono, seja rolando na cama ou porque estou desabafando sobre ele com uma amiga ou com o Word. Depois vai passar e eu vou me apaixonar de novo e de novo. E eu não vou ter problema em conhecer outro cara incrível em uma viagem que eu fizer sozinha, porque meu coração vai ser só meu.

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Te trago, amor

Te trago. A fumaça me envolve a alma, o cheiro do Marlboro invade o apartamento e esqueço de abrir as janelas. Na realidade não quero que a fumaça saia, ela é minha única companhia. Mais que isso: ela é minha, mesmo que de segundo em segundo se esvaia pelo vento lento que ali respiro.

Te trago, cigarro. Um. Depois outro. E outro. Repetidamente e sem parada. Meu pulmão há muito reclama desse vício que – como defino – faz bem pro espírito e pessimamente mal para a balança (meus 50 quilos distribuídos em 1,68 m não me deixam mentir). Trago pelo vício, e trago vício pro corpo cansado das situações mal-resolvidas e amores deixados de lado, das mensagens não respondidas, ligações não atendidas, e-mails não visualizados. Das notificações que desde sempre me incomodaram e agora fazem números gritantes na tela inicial do celular.

Te trago. Te trago, cigarro, olhando praquela foto velha, meio amarelada, do amor que tive e perdi pra mim mesma por não acreditar que devia/podia/queria; por não acreditar nele e viver, hoje, trazendo apenas cigarros pra dentro de casa. Nem mais amor, nem um único perfume masculino, nem uma única cueca. Não trago amor, mas trago cigarros.

Eles, com as garrafas de vinho, as músicas lentas da vitrola de agulha torta e as caixas de pizza me acompanham pelas leituras dos romances que não vivi porque nãos quis, porque fechei portas (e janelas, pelo que parece), porque não deixei fumaças dos fogos antigos apagarem e não permiti novos fogos acenderem; por não ter vivido o que falei que viveria, por não ter trazido nada mais que migalhas desonestas pra mim.

Te trago, amor. Te trago olhando a foto amarelada de 2001 e soltando as fumaças entre tosses tímidas. Te trago, amor, queimando os pulmões e não acolchoando mais a alma, que escorre junto às lágrimas nada sutis. Te trago agora, amor, pois naquele tempo não trazia nada mais que muitos nãos acompanhados de dúvidas e sins a tantos outros que não mereciam minhas certezas.

Te trago, cigarro, pois a ti não me resta nada a não ser te acabar em curtas e rápidas tragadas, assim como a mim é o que me faz. Me acaba, derrete, esfumaça… E apaga.

Como parecer 100% descolada na internet sendo 0% descolada na vida real

Conheci uma menina, que assim como eu é dessas que acorda, toma um café preto e pensa que “até sexta eu tenho que ficar rica e encontrar o amor da minha vida pra já marcar de ter filhos até o fim do mês, porque essa pelinha aqui no meu queixo já está mais flácida do que na última semana.”

Ps.: Também faz parte desse processo concluir que na próxima segunda-feira tudo vai se encaixar melhor e jogar a culpa nos astros, que estão sempre atrapalhando.

Mas nas redes sociais essa moça não parecia tão paranóica, ansiosa e ridículamente normal quanto eu. No instagram ela era tão cool. No facebook tão tranquila. No snapchat tão divertida. Ela era a típica pessoa descolada e blasé que não deixa esse mundo podre intervir em seus devaneios. Que vive pra se divertir. Uma criatura que nos intriga.

Após uma profunda pesquisa de campo, descobri pequenos elementos que trazem essa aura descolada às redes sociais de uma pessoa, fazendo com que a vida dela pareça ótima, quando na realidade continua sendo tão sem graça como a de todos nós. São eles:

Foto de gatos + algum livro aberto: essa combinação é incrivelmente cool. Se ainda for sexta-feira e você estiver pra maldade, adicione uma taça de vinho em algum canto da foto e ganhe mais pontos ainda para o seu nível de descolamento. Se for uma terça ou quarta-feira então, é só salientar sobre esse dia da semana na legenda e triplicar a pontuação.

Não vou abrir um tópico sobre fotos poéticas dentro de supermercados, mas fica subentendido.

Festas caseiras com cliques profissionalmente espontâneos: geralmente com algum copo na mão, numa posição meio-torta-quase-caindo e olhando pra baixo, com pouco ou muito cabelo jogado na cara e óculos escuros ainda que seja 22h da noite. Abraçar as migas e sorrir? JAMÉ!

Yoga no parque: não sei você, mas eu tenho reparado que as pessoas que mais postam fotos sustentando o corpo inteiro em cima do dedo mindinho num lindo gramado ao pôr-do-sol são as primeiras a dar piti no restaurante quando a comida vem errada. Não julgo! Até porque a foto da comida errada também estará nas redes com a legenda “almocinho delícia com os queridos” + a marcação de duas ou três pessoas muito famosas, que não estão presentes e não vão reparar que a foto foi postada.

Inaugurações, festas fechadas, exposições ft. lançamentos: trate de descobrir onde será a próxima loja da gringa que virá pro Brasil, ou o próximo autor que ninguém conhece e que vai lançar um livro que ninguém vai ler, e VÁ até o local mesmo sem ser convidada. Poste uma foto na entrada (torta e olhando pra baixo, claro) e vá pra casa – a rua é de todos.

De novo sobre sorrir: evite. Cara de cansada, que está fazendo um favor pra sociedade ao se deixar fotografar: continue assim.

Coisas muito velhas: sempre inclua nas suas fotos vinis, câmeras dos anos 40, roupas compradas em brechós ou os seus sogros. Se eles forem corcundinhas melhor ainda, isso vai te inspirar a envergar um pouquinho também, o que vai qualificar muito a sua imagem, porque postura reta realmente não combina com gente que sabe o que quer e não se incomoda com a opinião alheia.

Por enquanto é isso. Se você chegar nesse nível de indiferença com a vida, continuamos essa conversa. Ou nem precisaremos continuar, né?

Esse texto é do site “Vamos pra Vênus“, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Vamos pra Vênus aqui! <3 

O botão das desculpas esfarrapadas

Se você vive reclamando que coloca muita força nas coisas e recebe pouco em troca, chegou a hora de refletir um pouquinho.
Chegou a hora de parar de reclamar do outro e de olhar para dentro de você. A hora de desativar esse botãozinho automático que vive dando desculpa, justificando erros alheios e passando a mão no seu coração repetindo “calma, que vai melhorar”. Não vai, não.

Será que você não está DESPERDIÇANDO a sua força? Botando fé em pessoas e situações que são mais FRACAS ou que lá no fundo não têm tanta FORÇA DE VONTADE? Não seria melhor se você MUDASSE O FOCO dessa força para algo que pode te dar mais resultado?
Você também pode estar exagerando na força, é claro, mas é provável que NÃO. Porque quando a gente quer algo muito, e é do bem, o esforço é visto com bons olhos. Ele é RECONHECIDO. Coloco tudo em CAIXA ALTA para entrar na sua (na nossa) cabecinha. E eu não estou falando de algo específico, serve para quase tudo na vida. Trabalho, família, relacionamento e coisa e tal. A lei da reciprocidade é geral.

Não tenho a fórmula certa. Raramente a gente tem. O mais comum é insistir até não saber mais se aquilo é legal ou saudável. Pode parecer terrível dizer isso, mas sim, nos acostumamos até com o que é ruim. Daí, perdemos a noção de quanto o bom pode ser incrível. Já pode ter acontecido com você uma situação mais ou menos assim: depois de se acomodar tanto com algo, quando finalmente desistiu e vivenciou outra coisa muito melhor, pensou: “como que eu não quis sentir essa sensação maravilhosa antes?” ou “nossa, se eu soubesse que era tão bom assim”. Lembrou?

Nos falta coragem. Quando se usa o coração, dar adeus para momentos e pessoas é difícil demais. A cabeça já está no futuro, pensando em coisas melhores, fazendo novos planos. O coração, coitado, se apega ao passado, ao que foi bom e que nem é mais. Ele repete “mas foi bom, mas foi bom, mas foi bom” e o cérebro acredita e responde “tá bom, vou esperar amanhã, vai que melhora”.

A minha dica é que você se arrisque, mesmo com muito medo. Pode dar errado, pode dar arrependimento, choro, mágoa e sensação ruim. Você provavelmente vai se sentir um lixo até experimentar aquela maravilhosa sensação do “nossa, é muito melhor agora”, por isso tem que segurar firme e ser forte.
Afinal, setenta vezes zero, não é setenta. É zero. O primeiro passo é entender isso.

Esse texto é do site Sem Clichê, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Sem Clichê aqui! <3 

De dentro pra fora

Foto por Jordan Hammond

Quando você está dentro você fica entediado, tudo costuma a ser igual e rotineiro. Estando fora tudo é tudo uma grande aventura, tudo é diferente.

Dentro é fácil se ver sem sentido, sem saber o que fazer da vida. Fora nem se pensa sobre o futuro, o que importa é o presente, um mês já parece muito distante.

Estando dentro você fica louco para estar fora, vê fotos de pessoas viajando e se imagina distante de onde está. Fora você se sente completo, submerso na sua liberdade e apreciando cada segundo que se ganha com esse presente da sua ausência do mundo real.

Dentro está a sua carreira, família, amigos de longa data. Fora estão todas as pessoas diferentes de outras culturas que você nem pensava em conhecer.

Dentro você acha que nada nunca muda, mas quando você volta vê que está tudo diferente: grupo de amigos que não andam mais juntos, pessoas que você esperava encontrar e não se importam com você mais, amigos que já estão andando com a carreira e você meio perdidão. Fora tudo acontece rápido demais, você muda anos em alguns meses, compreende mais sobre a vida e volta questionando tudo, volta inclusive sem saber o que tá rolando.

Dentro você tem o conforto da sua casa, o abraço da sua mãe, os conselhos do seu pai e brincadeiras do irmão. Fora as vezes você consegue se sentir mais sozinha do que nunca e isso ser maravilhoso e assustador ao mesmo tempo.

Dentro é fácil de perceber o choque da realidade, você vê que a sua volta não é nada com o que você pensou que seria e que as pessoas mudaram pra caramba separadamente de você. Fora não se percebe o quanto que a vida prossegue com a sua ausência, pois de repente a realidade rotineira é apenas um submundo do qual você escolheu fugir.

Dentro você tem que aprender o que é liberdade numa vida com regras. Fora você precisa aprender o que são as regras numa vida cheia de liberdade.

Dentro você precisa desapegar das coisas que você nunca vai ter. Fora você precisa desapegar das coisas que você tinha.

Dentro você necessita se encontrar. Fora é o mundo que encontra você.

No espelho, meu cacos

Foto por Melnikov Vitalik
Foto por Melnikov Vitalik

Olhando no espelho, aquela lágrima que escorria pelo rosto até chegar perto da boca e se perder na saliva seca caía como tantas outras desde a semana passada. Os olhos inchados, o cabelo preso em coque, a cama desarrumada, a garrafa de vinho, vazia, ao lado do criado-mudo, jogada. Eu estava, de fato, me desintoxicando de alguém que há muito me fez mal e eu permiti isso. Como fui eu quem permitiu, eu quem deveria deixar sair.

Recusei todos os convites quando souberam que minha história de 10 anos havia se esvaído pelas mãos, como cabelos jogados pelo ralo. Quis ficar comigo, minha melhor companhia, e me redescobrir por inteira, nos meus detalhes e no meu tempo. Melhor remédio não há. A ruptura é feita de fases e a minha primeira sempre foi esta (digo “sempre” porque esta foi a cartada final, mas antes dela muitas outras vírgulas foram colocadas na história que eu acreditava ser o meu final feliz).

Eu amei, amei muito. Me doei, entreguei a mim mesma a uma pessoa que, naquele tempo, mereceu. Me cuidou, me amou, me teve e lutou por mim. Nos primeiros momentos era esse mesmo o enredo e eu acreditei – presa às amarras dos contos de infância – que aquilo era pra sempre. Permiti erros, cometi tantos outros, me apaguei e anulei tantas características minhas que, passados os anos, me tornei outra pessoa. Primeira lição: não se permita isso.

Eu errei, errei muito. Chorei, briguei por pouco, fui orgulhosa por algo que já estava enterrado há anos e, acomodada, permiti considerar aquilo minha verdade. Convenhamos: que bela mentira. A culpa foi minha, inteiramente minha por ter permitido anulações constantes, bocas caladas, lágrimas internas e coração doído. Com o pé em cima da privada, a mão na cabeça, cabelo desarrumado e olhos ardentes, me decidi: desarrumar para arrumar, a tal fase 2.

Posso aceitar convites, beber com mais gente, beijar outras bocas. Agora sim. Me encontrei, me recompus, aprendi e revivi. Que os novos erros comecem e eu consiga, como sempre,  juntar meus pedaços. Os meus pedaços que me tornam inteira.

Por que as blogueiras fitness não nos motivam a malhar?

Todos os dias que eu procuro fotos novas pro De Repente dá Certo naquele Explore do Instagram,  sou surpreendida pela quantidade de fotos de mulheres gostosas e gatas que aparecem ali nas caixinhas. Na maioria das vezes, são blogueiras que se intitulam blogueiras fitness. Outras vezes nem são blogueiras, são só as conhecidas como “famosinhas de instagram”.

Eu me incomodo um pouco com o fato de darmos tanto poder de influência para pessoas que não tem muito o que dizer ou dizem coisas que eu considero meio destrutivas da auto estima. Quando eu digo isso, não estou falando de pessoas que simplesmente postam fotos de si mesmas. Instagram taí pra todo mundo postar o que quiser e se exibir sem medo. Eu to falando de gente que realmente tem o poder de influenciar seus seguidores dando conselhos estéticos bizarros ou propondo um modo de existir completamente banal. E tem muita gente com o selo fitness que quer causar mais inveja do que inspiração nas pessoas.

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Alma errante

Foto por Irina Gache
Foto por Irina Gache

Ela sempre tinha ideias mirabolantes e planos infalíveis. Entrava em todos os convites que pareciam significar vida à flor da pele, ou um resgate do que realmente vale a pena. Queria morar numa Kombi, passa um ano meditando em silêncio, fazer música na praia, plantar num pedaço de terra, andar o mundo, escrever um livro de poemas…

Feito caracol, ela andava com seu próprio ninho nas costas, sem querer, havia se tornado mestre em destruir castelos, em abandonar redutos com energia estagnada e prisões encantadas. Por mais canseira nos pés que sentisse, sua alma selvagem não aceitava ser controlada pelo comodismo, pelos medos, pelos apegos. Ela saia andando, deixando, despindo, levando tudo o que fica em nós nos processos de decantação de sentimentos, e isso sempre cabe em alguma célula do corpo.

Tinha um coração como uma cartola mágica, de onde pessoas poderiam sacar, dependendo do peso das mãos, borboletas ou elefantes.

Ela andava pela vida se encantando e se desencantando, entrando em sonhos, rompendo realidades, quebrando a cara, rindo de si mesma, esfolando os joelhos, chorando muito e dando muita risada. Deixando pedaços de si na poeira da estrada e vendo sempre novos horizontes. Achava por aí pessoas, lugares, sentimentos que nunca foram parar em nenhum mapa do tesouro, mas deviam.

Ela tinha uma alma errante que nunca achava o bastante caber em uma única versão de si.

Na fila do pão, a alma vazia

Photo via kafkalog

Parado em frente à bancada, não me lembro mais quantos pães tenho que pedir.

– “Senhor?”

– “Apenas dois”.

Por mais que seja só para mim, sempre multiplico por dois para não ter perigo de faltar, sou meio guloso. Se sobrar, faço torrada.

Depois que perdi minha companheira há um ano, meu rumo se foi com ela e, em seu túmulo, nem o “dedicada esposa” foi escrito; não fui seu marido. Também lá não estava “amável mãe”, pois não lhe proporcionei filhos. Por que ela estava comigo não sei, talvez pelas notas não atingidas da voz do cantor que não fui, ou das letras perdidas do compositor que não me tornei, como havia lhe prometido em 89. Aquele roqueiro amor e a droga do amor suicida me alucinavam e eu disse tanta coisa que, passados os anos não cumpri, que não sei mais o que foi verdade e o que foi overdose.

Pelas pessoas prometidas que não fui, não entendo por que Beth permaneceu. O motivo de sua doença ainda é desconhecido; disseram ser depressão, mas ninguém morre disso. Acho que ela morreu porque em 89 eu matei os seus sonhos, ela só sobreviveu até o ano passado para mostrar que eu era nada daquilo que parecia ser.

– “Pensando bem, me vê apenas um pão” – sempre pensei só em mim mesmo.

Saí dali sem nada, apenas com um saco de um pão… E a alma vazia.

O Elemento – O encontro de quem você é com o que você ama fazer

Ilustração por Kozy and Dan.

“Nós não saberemos quem podemos ser até que saibamos o que somos capazes de fazer.”

Você já se sentiu como se não possuísse nenhum talento? Como se não soubesse fazer nada muito bem? Ou como se todas as coisas boas sobre você não fossem aplicáveis à alguma carreira? Você já se sentiu assim, desse jeito que a youtuber Jout Jout explica tão bem? Como consequência, ao se ver sem talentos, você já se sentiu sem um caminho a seguir?

Ken Robinson descreve no seu livro ‘The Element: How Finding Your Passion Changes Everthing‘ o que todos nós procuramos e às vezes passamos anos tentando encontrar. Ele consegue decifrar e conceituar o que já conheciamos: o sentimento único de fazer o que se gosta. Não em termos de carreira ou trabalho remunerado, mas aquilo que faz parte de nós numa dimensão muito maior. Aquilo que enquanto executamos nos dá energia, e não tira. Algo que enquanto realizamos, deixamos de ver o tempo passar, sabemos que foi um tempo que valeu a pena. E não é isso um certo tipo de felicidade?


Sobre o Elemento

Robinson define esse sentimento como sendo, na verdade, um estado, um momento, com hora e lugar e instrumento. Uma vida inteira desses momentos seria o nosso Elemento “o encontro entre a aptidão natural e o forte entusiasmo” por certa atividade, em outras palavras, a paixão pelo que se faz somado ao talento que se tem. Apesar de todos os conceitos serem apresentados claramente, ele usa outra técnica ainda mais eficiente para nos fazer entender e que seria o Elemento: narrativas. Pessoas reais e as incríveis histórias de suas vidas são usadas para exemplificar e ilustrar o conceito.

“O que existe em comum [na vida dessas pessoas] é que elas estão fazendo o que amam, e ao fazer isso elas sentem-se como a versão mais autêntica de si mesmas. Elas sentem o tempo passar em um ritmo diferente, e sentem-se mais vivas, mais centradas e mais vibrantes do que em qualquer outro momento.

Estar no seu Elemento as leva a experienciar o tempo para além das sensações ordinárias de satisfação e felicidade. […] Quando as pessoas estão nos seus Elementos, elas se conectam com algo fundamental ao seu senso de identidade, propósito, e bem-estar. Estar lá provém um senso de auto-revelação, de definir quem elas são de verdade e o que elas realmente deveriam estar fazendo com sua vida. É por isso que muitas pessoas nesse livro descrevem encontrar seu Elemento como uma epifania.”

Como um sonho dormente que encontramos parece que sem querer.

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Quando a lembrança dá os ares da graça

Eu estava lá, onde exatamente não me recordo, mas me lembro do carro em movimento. Da risada de minhas amigas no banco da frente. O vidro meio aberto, o vento batendo em meu rosto, os cabelos, fio por fio, voando em diferentes posições, ora batendo em meu rosto. Mas a lembrança, a que desejo rememorar, está dentro desta outra. A verdadeira lembrança foi aquela da qual recordei olhando para a cidade iluminada pelas luzes da noite, as pessoas nos bares passando como borrões, a cidade em movimento, uma agitação que, por algum momento, me fez recordar da selva de pedra, e enquanto as amigas riam no banco da frente, eu me lembrava no banco de trás.

Eu tinha olhado pela janela. O gelado sol americano, como haviam me dito, emanava sua luz por entre os galhos da árvore que ficava em frente a grande janela de vidro do meu quarto. Eu sabia que não estava quente, apesar do sol brilhar intensamente, lá fora não seria possível sentir o calor. Coloquei os tênis e peguei meu moletom branco da faculdade para colocar por cima da blusa de manga comprida que já havia vestido. Olhei-me no pequeno espelho do quarto, peguei as chaves de casa, o iPod e sai para a rua. A brisa gélida veio de encontro ao meu rosto, cortando as bochechas sensíveis ao frio que ainda me era desconhecido.

Sai sem rumo, queria apenas aquele momento, aqueles instantes na qual eu poderia carregar na memória para sempre. Queria decorar a cor do restaurante chinês que ficava de esquina e as placas dos carros estacionados. Lembro-me daquelas placas, para cada Estado diferente existia um lema próprio. O lema da cidade na qual perteci por aqueles poucos meses era The Empire State.

Subi a rua enquanto colocava os fones no ouvido. Queria sentir a dureza do chão de concreto por onde passava, me lembrar das raças dos cachorros que passavam por mim com seus donos e suas vidas naquela cidade.

Segui em linha reta a avenida por onde passavam tantos carros, e ônibus, e motos, e pessoas atravessando as ruas, e a fumaça saindo de bueiros, e máquinas consertando ruas e prédios, era o som daquela cidade e mesmo assim, mesmo com carros buzinando e máquinas funcionando, como em qualquer outro lugar, lá o som era diferente, a cidade era única.

Afastando-me da turbulenta avenida e pegando um caminho por entre as casas mais afastadas, as árvores começavam a tomar conta da paisagem. Não queria esquecer as infinitas tonalidades de cores que as folhas conseguiam atingir em um espaço tão curto de tempo. Ao som de Matthew Barber, “it´s one little part of my love you can’t take” (esta pequena parte do meu amor você não pode tomar), eu observo toda a composição da paisagem a minha frente enquanto dou passo por passo. As árvores, os carros, os restaurantes, as folhas, as casas, os cachorros, as pessoas, a cidade.

Meus pés me levam até uma antiga faculdade, onde os bosques parecem mágicos, daqueles retirados de contos infantis, onde fadas podem ser encontradas. Fico ali até ver as últimas folhas caírem de uma árvore e se juntarem as outras no chão, formando um lago de folhas em volta da árvore seca, com várias tonalidades de marrom, vermelho e laranja.

Volto pelo mesmo caminho. Decoro as casas, as ruas, os carros, os cachorros, os restaurantes, as árvores, os bosques e as finas gotas de chuva. Enquanto caminho por entre as folhas caídas no chão, enquanto passo por gramas que antes eram tão verdinhas, enquanto sinto o vento frio cortar minhas bochechas e as gotas de chuva respingarem em meu rosto.

Decoro o gosto do ar, as cores do concreto e a textura das árvores. Decoro as sensações que eu sentia enquanto vivenciava aquela cidade, a liberdade de caminhar sem rumo, os fones no ouvido e as mãos nos bolsos do moletom.

Desci a rua. Entrei em casa. Fechei a porta do quarto. Olhei o céu mais uma vez por entre os galhos daquela árvore. O gelado sol americano ainda estava lá, assim como as malas já feitas encostadas em uma das paredes do quarto. Era meu último dia naquela cidade, eu iria voltar para casa, mas deixaria meu lar ali na cidade que nunca dorme.

Um vento forte de brisa quente bateu em meu rosto conforme o carro pegava velocidade novamente e voltei a estar presente naquele momento. Aquele vento não cortava minhas bochechas, nem a lembrança doía. E enquanto pensava em uma lembrança, talvez tivesse pensado nesta não para recordá-la, mas sim para que eu soubesse que ainda não a esqueci.