Eu não preciso falar sobre o amor

Semana passada muitos questionaram o amor. Discutiram o texto do Gregório Duvivier.

E aí? Amor ou marketing?

Eu não sei nada sobre o amor.

Não sei se amor de verdade é ter o coração palpitando pela primeira vez ao ver a garota bonitinha na aula de jazz, ou se é estar casado com alguém por 20 anos. Não sei nem como é estar com alguém por mais de oito meses.

Sei muito, muito pouco sobre amor.

Agora sei bem como é olhar para aquela pessoa na festa e sentir uma vontade doida de beijar. Pensar “é hoje que eu pego ele”, passar a festa inteira olhando pro sujeito, ele não perceber e você não pegar.

Stalkear no facebook e instagram. Pensar se adiciona ou não adiciona. Quando adiciona: será que curto essa foto do cachorro dele de 2005 ou fico só nas fotos recentes?

– Curte as recentes só pra começar. Depois decide ser mais ousada e curtir as antigas mesmo.

Rola uma troca de likes e o coração já salta, já começa a pensar que próxima balada vai rolar sim, ta muito afinzão, ta na minha…

Vocês trocam likes e nada acontece. Um dia a paciência acaba e você resolve mandar uma mensagem. Sua melhor amiga te incentiva e fala “manda logo, morrer não vai amiga”. Você fica tão nervosa que tem que colocar o seu celular na mão dela e pedir pra ela mandar por você.

Sei do nervosismo, do medo da rejeição.

Quando você está com a pessoa, mas ao mesmo tempo não é nada sério então você não sabe se podem ou não ficar com outras pessoas. Cada festa que você encontra o sujeito é um nó no coração do medo de ver ele ficando com outra menina e de saber que talvez você nem possa reclamar disso.

Sei somente como é gostar de alguém.

Gostar a ponto de querer sair sempre com a pessoa, mas não chamar toda hora para não parecer que está grude demais.

Seus amigos se dividem em grupos: aqueles que botam fé que dessa vez vai dar certo e aqueles que acham que é só mais um cara que vai ficar ai por um ou dois meses e, ou ele vaza, ou você enjoa dele.

Você apenas espera a hora que tudo vai dar errado. Espera com o coração apertado porque no fundo você quer mesmo é que dê certo. Fica o tempo todo tentando se convencer de que não gosta, que não é nada demais, só pegação. Mas ai no meio da aula pensa nele. E na academia, na festa, no bar, no shopping…

Gostar de alguém é querer falar para a pessoa logo “Hey eu gosto de você”.

Você fica lá nervosa. Respira uma vez. Duas vezes. Abre a boca pra falar e fecha logo em seguida. Nossa não vou falar agora. Mas se bem que eu preciso. Pior é que já está tão na cara que você gosta…

É ter medo de que após falar essa frase a pessoa saia correndo para as montanhas do Himalaia.

É voltar de uma festa no carro do seu melhor amigo, escutar um sertanejo brega com ele e lembrar do crush. Olhar pro seu amigo e falar que você ta ferrada. Ta apaixonada. E ele ficar rindo da sua cara porque todo mundo já tinha percebido menos você.

O amor? Não conheço muito bem não. Ele parece é ser muito sussa…

Difícil é gostar de alguém.

Como sensualizar mais na vida

Talvez esse não seja um passo-a-passo para o sensual seduction, até porque eu jamais me consideraria especialista nisso, né zênti. Também não acredito que existe uma fórmula pra ser mais sexy e de repente quanto mais você tentar ser, menos será.

Porém, sempre tenho algumas percepções avulsas nessa vida que podem ser úteis e fazer sentido em algum momento, seja pra mim, pra você ou praquela irmã da amiga da sua vizinha. Então se eu fosse você não fecharia essa janela. Pelo menos não agora.

Esses dias eu me sujeitei a novas experiências e fui fazer uma aula de pole-dance. Se foi por vontadinha de achar minha sensualidade interior, pra pesquisar conteúdo pro blog, ou se foi apenas por mera curiosidade – HÁ, você nunca saberá. Entrei na sala, fiquei semi-pelada e observei as coleguinhas. Aparentemente, por mais esforço físico e dor que elas pareciam estar passando, existia sim uma atmosfera de sexapiu por metro quadrado alí. Ninguém pode negar.

A professora começou me passando uns exercícios mais leves que fiz com dedicação. Depois aumentou a dificuldade – junto com a minhatensão. Tentava me pendurar naquele pau – se é que posso me referir dessa forma – da maneira mais correta possível, queria fazer tudo bonitinho e não errar nenhum movimento.

Tinha um espelhão na minha frente, então resolvi dar uma olhadinha enquanto reproduzia os passos, assim de canto de olho, sem compromisso. Poderia estar ali uma nova mulher habitando o meu eu, talvez uma Demi Moore da geração Y? Vamos ver.

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Só que o que eu vi, na verdade foi um pouco diferente da foto acima e um pouco mais parecido com isso aqui:

R O B O T  – Sim, eu achei foto de um robô dançando no queijo e não me pergunte como.

O que eu vi no espelho não era nada sexy. Eu tava tensa, inexpressiva, dura & frustrada. A professora que dançava ao meu lado e as outras alunas pareciam muito mais encantadoras – em seus diversos físicos. Comecei a me questionar: o que eu tô fazendo de errado?

Confesso que a aula de pole-dance me trouxe muitos hematomas, mas também alguns insights e o primeiro foi: a sensualidade é uma arte. E assim como qualquer outra arte, além de técnica para executá-la é também de extrema importância uma dose cavalar de feeling. Se não, tudo fica mecânico e robótico mesmo.

Junto com ele, uma pitada de segurança naquilo que se está fazendo é bem-vinda, independente de certos e errados. Percebi que confiar no próprio taco e no próprio corpo é a chave pra começarmos a falar de sensualidade. Quanto mais a gente se soltava e dava impulso pra girar na barra, mais leve nosso corpo ficava e conseguíamos subir mais alto. É preciso se soltar e agir com o coração sem pensar tanto em cada passo dado. Acreditar no que você é e no que faz.

“Se joga”, “vai mesmo”, “sem medo” – foram frases que a professora usou e que funcionaram mais que terapia pra mim. Coragem, por que não? Do que a gente têm tanto medo? Por que as vezes bate tanta insegurança? A gente cai sim: eu caí, outras alunas caíram e até a professora caiu, mas foram poucas as que se incomodaram: a maioria levantou e continuou o que estava fazendo – e isso, melben, é muito sexy.

Depois dessas percepções em fração de segundos, olhei no espelho de novo. Eu ainda tentava fazer os movimentos corretamente, mas dessa vez eu estava me divertindo, confiando em mim e nos meus passos e sem me cobrar tanto pra que saíssem perfeitos. Eu não precisava de um salto 15cm, ou de um bocão vermelho, eu estava descalça, feliz e de boa. Acreditando em mim mesma e sem me levar tão a sério. Difícil? Pode ser. Mas te garanto: nunca me senti tão sensual na vida.

Este texto foi publicado originalmente no site Vamos pra Vênus, nosso parceiro de conteúdo. Isso quer dizer que você vai encontrar alguns textos do De Repente dá Certo lá e outros textos do Vamos pra Vênus aqui!

Por que o conselho “apenas faça o que você ama” pode ser tão ingrato?

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É insensível e talvez até ignorante (no sentido de ignorar) afirmar que nossa geração é mimada, perdida e vive no mundo da ilusão. A verdade é que tem muita gente fazendo e criando muita coisa foda por aí. E digo mais, aqui no Brasil mesmo. Hoje, como eu já falei mil vezes em outros textos, temos a Internet, essa maravilhosa rede que nos conecta com qualquer pessoa do mundo. E hoje tudo que a gente precisa pra começar qualquer coisa é de uma rede wifi e uma ideia.

Vou dar alguns exemplos próximos de mim, de pessoas que eu conheço e abriram seus negócios não para apenas ganhar dinheiro, mas por acreditarem em uma ideia. Nem sempre esse seu negócio vai trazer dinheiro de imediato ou sucesso instantâneo, mas vai trazer motivação pra continuar criando e existindo e não sofrendo para chegar logo o fim de semana. Minha melhor amiga é urbanista e criou junto com outras amigas um coletivo chamado MOB, Movimente e Ocupe seu Bairro, e a ideia é deixar os espaços mais agradáveis para se habitar.

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O triste fim do romantismo

Foto por Roman Filippov
Foto por Roman Filippov

Não sei bem quando, como ou por que ele foi exterminado. Ex-ter-mi-na-do, palavra que por si só tem o poder da sua ação. Não poderia escolher outra, menos forte, para anunciar o iminente fim desse estado de espírito capaz de produzir as mais belas frases de amor, paixão, loucura e tristeza: o romantismo.

Exterminado do jornalismo, das escolas, das amizades e, principalmente, dos relacionamentos amorosos.

Isso mesmo, não somente dos amorosos. Passei a adolescência escrevendo e recebendo cartas das minhas amigas, com declarações de amizade e elogios. Eram muito bem decoradas, com letras em várias cores, adesivos e beijos de batom – tão afetivas! Vocês, que viveram isso, se lembram da sensação? Às vezes chorávamos de emoção.

O jornalismo literário era puro romantismo, até nas tragédias. Bons tempos de Nelson Rodrigues, que não foi meu tempo, mas eu li muito. Certa vez, ele teve que escrever sobre um incêndio. Ninguém se feriu, nada muito relevante aconteceu, seria uma nota qualquer. Porém, estamos falando de um jornalista romântico. Nelson inventou um passarinho, que havia ficado preso e teve um resgate emocionante. Depois, vários leitores escreveram ao jornal para saber mais detalhes do tal passarinho, todos comovidos pela história e apaixonados pelo seu personagem. “Danem-se os fatos.”, às vezes ele dizia e levava a sério – Obrigada!

Quanto ao romantismo nas relações amorosas, também preciso citar Nelson Rodrigues. Ele é o principal responsável pelo meu romantismo. Li suas crônicas durante toda a minha adolescência, além do livro “Não Se Pode Amar E Ser Feliz Ao Mesmo Tempo”, assinado pelo seu heterônimo, a conselheira sentimental Myrna. “Sofrer pela criatura amada – não é um mal, é quase um bem. Você conhece tristezas mais lindas, mais inspiradoras, do que as tristezas do amor?” – é uma das minhas frases preferidas do livro. Pois é, agora calculem o quanto eu sou romântica.

Sobre o romantismo na escola, na minha época o dia dos namorados era um evento. Os meninos, anônimos, deixavam presentes para as suas paqueras (hoje crushs). Eles chegavam mais cedo na sala de aula pra isso, vocês têm noção? Os dias que antecediam eram tensos, as meninas confabulavam nas aulas e no recreio sobre os possíveis admiradores secretos. Chegado o dia, o burburinho era ainda maior. O coração acelerava quando víamos um embrulho em cima da nossa mesa. Depois, todas reunidas, cada uma se gabava do seu presente e palpitava sobre os alheios. Quando me lembrei dessa tradição romântica, fui perguntar à uma amiga da época se as suas irmãs, ambas com 14 anos e que estudam em escolas diferentes, vivenciaram o mesmo. As respostas:

“Não, só se for de fato namoro.”

“Não, eu acho o dia dos namorados uma data ridícula, para a indústria lucrar com o amor. E os meninos que eu conheço pensam isso também.”

Nããããão… Nããããão moçada! Aonde vamos parar sendo assim tão racionais?!!

Com o imediatismo da Internet, acabamos trocando muitas palavras… vazias. Valorizamos mais as nossas próprias cobranças e inseguranças do que o amor que damos e recebemos – como deve ser – gratuitamente. Estamos mais preocupados com o status online do que com o relacionamento propriamente dito.

A ausência dá espaço ao imaginário. Antes da Internet, nós tínhamos tempo de romantizar mentalmente, por dias, meses e anos. Uma troca de olhar e poucas palavras, na padaria ou na locadora de filmes, eram suficientes para semear um romance imaginário de meses. Hoje, não tem locadora de filmes e tem Tinder. Não trocamos olhares, apenas pelo reflexo de nós mesmos na tela do celular, ou na selfie.

Passamos tempo de mais no feed.

Antes da Internet, tinha saudade. Hoje tem Skype, FaceTime, What’s App… Antes tinha carta, a gente escrevia e escolhia as palavras com carinho. Hoje não conseguimos nem enviar um parágrafo por mensagem, cada pequena frase é separada por um send. A saudade alimentava o nosso imaginário, nosso romantismo.

Ah, se essa juventude soubesse do prazer em escolher belas palavras e presenteá-las a quem se ama… E se não forem palavras, que sejam olhares, flores, desenhos…

“Viver é desenhar sem borracha.”, disse Millôr Fernandes. Podemos ficar desenhando cubos ou nos arriscar em traços mais belos, que nem sempre sairão firmes ou corretos. Mas o que é correto tratando-se de algo tão abstrato como a vida? Arrisquemos mais em desenhar com alma.

O que é isso senão o romantismo?

Sobre visões nada a ver e ser solteira

Esses dias li uma frase que achei bem legal e me fez pensar em algumas coisas. Ela dizia: “Você chega em casa, faz um café, senta na sua poltrona favorita e não tem ninguém…Você decide se isso é solidão ou liberdade”. Esse texto podia ser sobre perspectivas e formas de se encarar determinadas coisas, mas não é. Esse texto é sobre relacionamentos, ou melhor, a falta de relacionamentos (amorosos, no caso). Eu não sei se é errado falar isso e, sinceramente, eu não sei nem se me sinto confortável em dizer, principalmente porque geralmente quando uma pessoa fica reafirmando uma coisa demais, na verdade ela acaba falando o contrário. Mas, para fins, digamos, de consistência textual, acho que vale a pena arriscar — Eu sempre achei que ser solteira tinha lá suas grandes vantagens. E sempre achei que não ter ninguém atrelado à você te abre um leque bem legal de possibilidades. Resumindo, ser sozinha tem um quê libertador que acho necessário pra qualquer pessoa, pelo menos em algum momento da vida. Só que no meu caso não é só um momento, ou pelo menos é um momento que busco prolongar muitas vezes. Não, eu não to desiludida com a vida ou com ninguém pra tá escrevendo esse texto e não, eu não sou revoltada-contra-casais-e-relacionamentos-só-porque-não-tenho-um. E também isso não quer dizer que quero morrer solteira e não quero me relacionar com ninguém nunca mais. Calma. Vamos por partes.

Conversando com uma amiga um dia desses sobre relacionamentos — e acho que vale a pena dizer que essa minha amiga pensa que nem eu e, sim, é solteira também, nós acabamos comentando sobre um conhecido que praticamente emendava um relacionamento no outro (quem não tem um(a) conhecido(a) assim que atire a primeira pedra). Mas o que mais encucava a gente é que esse conhecido pratica o que considero o fenômeno-da-pessoa-que-namora-pelo-simples-ato-de-namorar. As pessoas que aderem a esse fenômeno não namoram porque encontraram uma pessoa bacana e têm vontade de partilhar a vida com ela, mas sim porque simplesmente: 1. “chegou a hora” ou 2.“não aguentam ser solteiros” (tem também o 3. “estamos ficando há muito tempo e acho que temos que começar a namorar”, mas esse eu prefiro não comentar. Regras de etiqueta relacionamentais nunca foram muito o meu forte). Não vou me estender muito no motivo número 1 porque eu não tenho muito o que argumentar sobre isso além de não entender como se dá essa epifania da hora exata que se deve namorar, mesmo que seja com a primeira pessoa que surgir pela frente. Será que temos um timing biológico embutido tipo o do mito da idade certa pra engravidar só que pra relacionamentos? Que meio que nos avisa qual a hora certa pra largar as baladas hétero que tocam Oração? Ou será que o valor do saldo da conta corrente é diretamente proporcional à tomada dessa decisão? Fica o questionamento.

Mas é o motivo 2 que acho que me intriga mais. É que eu nunca entendi muito bem esse negócio de não aguentar ou sustentar uma vida de solteiro(a). E eu já ouvi isso de muita gente. Eu e minha amiga chegamos à conclusão que na verdade o que exatamente não se consegue sustentar é apenas uma pequena parte que as pessoas encaram como um todo. Ir pra balada todo final de semana, pegar todo mundo, despirocar geral e acordar de ressaca todo domingo podem fazer sim parte da sua vida de solteiro, mas ela não precisa se resumir a isso. Nós não somos uma seita que só aceita gente baladeira e despirocada e que caso você queira ficar em casa de boa vai levar advertência. E eu acho que é isso que muita gente não entende. E acha que pra poder ficar em casa, ir no cinema, comer umas coisas gostosas, fazer “coisas de casal”, você, necessariamente, tem que ser, bom… um casal. Porque se você é solteiro você não pode fazer essas coisas. Você tem que ir na balada que todo mundo tá indo. Você tem que postar a música Oração no snapchat (parei). Você tem que bombar seu insta. Você tem que dar pt quase todo mês. E você, principalmente, tem que pegar uma ou várias pessoas nesse meio tempo. E, realmente, se for pra ser assim, acho que ninguém sustenta. E eu digo ninguém mesmo.

Parece que recebemos um manual de instruções sociais que restringe o que você pode ou não fazer quando solteiro ou namorando. Só que não é assim. Ser solteiro também pode ser ficar em casa sozinha(o) vendo besteira na internet, vendo um filme/série debaixo do cobertor. Ser solteiro também é ir no cinema, é comer pizza no domingo, é ficar de boa. Você não precisa namorar pra fazer essas coisas. Assim como você também não precisa ser solteiro pra ir pra balada e beber todas.

Eu tenho uma amiga que namora há muitos anos e tem um relacionamento ótimo, e ela diz pra mim que ela precisa ter um me time pra fazer as coisas dela, ver Kardashians sozinha sem ninguém julgar etc. E eu acho que ser solteiro é ter me time 24h. Seja na balada ou em casa. Seja maquiada de salto 15 ou de pijama com a meia furada. É maravilhoso ser solteiro quando você entende que não é nada além de simplesmente ser você e fazer o que você quer. É maravilhoso namorar quando você entende a mesma coisa. Os dois podem ser ótimos, desde que aconteçam naturalmente, sem planejamento nem data e hora marcada pra fazer x ou y. Sem regras implícitas que você inventou na sua cabeça e acha que é o normal. E parar de deixar isso reger sua vida, como se seu estado civil determinasse todas as decisões e experiências que você deve ter. Calma, é só um rótulo pra organizar a galera. Você quem decide se é solidão ou se é liberdade.

10 coisas pra fazer em setembro

Setembro começou e com isso vem aquela sensação de que mais da metade do ano já foi. Em setembro eu sempre acordo meio atordoada sem saber se vou conseguir terminar tudo que eu tinha planejado pro meu ano, começo a me questionar sobre a vida, sobre o que eu quero. Acho que setembro sempre foi um mês fechado para balanço. Por isso, separei uma listinhas de coisas pra fazer durante o mês e não deixar ele passar morbidamente.

  • Happiness Jar

O Happiness Jar é um projeto criado pela Elizabeth Gilbert, autora do Comer, Rezar e Amar pra mostrar que sempre existe felicidade, até mesmo nos piores dias. A ideia é anotar em um papelzinho coisas que te fizeram feliz no dia, desde o detalhe mais bobo até algo grandioso, e colocar dentro de uma jarra de vidro. Assim, você passa a se lembrar mais das partes boas do seu dia e quando estiver triste pode abrir o pode e mergulhar na sua própria felicidade. Parece que não funciona, mas se você fizer como um exercício diário, você vai ver como faz diferença. Você vai pensar mais em coisas boas, vai se forçar a fazer mais do que te faz feliz e começar a ser grato pelo que tem. A mágica acontece em poucos dias quando você fica em paz com sua rotina.

  • Teste do arroz

Esse teste do arroz já é famoso pela Internet, mas eu passei a olhar a vida de outra forma depois que eu vi que deu certo. Não sei se existe alguma explicação científica, mas já que não faz mal a ninguém lidar com a vida de uma forma mais positiva, acho que não é um problema. O teste é o seguinte: você separa uma porção de arroz pronto em dois potes: um do amor e outro do ódio. Pode usar o restinho do arroz que ficou na panela. Todos os dias você deve falar palavras de amor para o pote do amor e palavras de ódio para o pote do ódio. Pode xingar, descarregar sua raiva toda no do ódio e no do amor pode despejar toda sua vibe do bem. No final de algumas semanas você vai ver que o pote do ódio estará todo cheio de fungos, preto e estragado, já o do amor estará limpinho.

  • Comprar uma planta para cuidar

Eu sei, essa lista de setembro parece papo de hippie, mas a gente se enrola em tanta bobagem no dia a dia que às vezes é bom parar pra se observar e se ouvir.

Ter um ser vivo que dependa de você pra existir é um dos maiores aprendizados da vida. Se você, assim como eu, não pode ter um bichinho de estimação, compre uma planta. Converse com ela, regue, entenda o tempo dela para crescer,  murchar e viver. Um dos maiores ensinamentos de uma planta é sobre o tempo. A gente não compreende o tempo das coisas, dos processos. Todos os seres vivos têm seus ciclos que demandam tempo e tudo na vida é assim. Você já viu o tempo de demora pra uma semente crescer? Você vai se lembrar disso quando olhar pra sua plantinha crescendo calmamente enquanto estiver afobado, pulando etapas dos processos naturais da vida.

  • Fazer as pazes com alguém e tirar aquele ressentimento ruim

Essa é uma das mais difíceis de fazer, mas vale a pena. É claro que alguns ressentimentos ficaram tão pra trás que nem machucam mais, mas outros pedem compreensão ou quem sabe só um esclarecimento. Todo mundo já se desentendeu com alguém e deixou pra lá, mas não perdoou, não esqueceu. A dica é escrever uma carta dando um ponto final nessa história, sem esperar que o outro te responda no mesmo tom. Perdoar é um gesto egoísta que causa um bem danado ao outro. É que, no fundo, perdoar causa um efeito muito melhor em quem perdoa do que quem é perdoado.

  • Transformar um dia de semana em um dia especial

Como terça-feira pode ser um dia tão cretino? Segunda-feira ainda tem aquele ar de recomeço, mas terça-feira é cruel. Cada um tem seu dia cretino da semana e por isso a ideia é transformá-lo em um dia especial. Vale pedir pizza, comprar vinho, ir ao cinema sozinho, ir a uma exposição, marcar alguma coisa com os amigos….Qualquer coisa que faça esse dia parecer mais legal do que ele é!

  • Andar na rua sem rumo

Todo mundo já leu essa dica em algum lugar, mas eu fiz isso em um dia de folga e o resultado foi incrível. Não aconteceu nada de especial, mas senti que o dia foi produtivo. Fui entrando em todos os lugares que eu nunca tinha entrado, passei a observar as pessoas e detalhes dos lugares. Quanto mais eu me deixo livre, mas conectada eu me sinto com o mundo e percebo que a nossa forma de olhar o mundo é o que determina o mundo.

  • Rever as resoluções de ano novo (ainda dá tempo!)

Minha resolução deste ano é escrever um livro e mais algumas outras coisas que estão na metade do caminho. O livro ainda nem comecei e cada dia que passa eu fico mais desesperada. A famosa procrastinação é a única coisa que mata os nossos sonhos. Sério, vamos começar e terminar as resoluções de ano novo neste mês? A gente se ajuda.

  • Sair pra dançar sem se preocupar com nada

Quem não gosta de dançar pode sair pra praticar um esporte. O importante é se movimentar e gerar endorfina sem se preocupar com mais nada. Deixa o seu corpo te guiar.

  • Finalmente dar check na sua lista de coisas chatas pra fazer

Chato, chato, chato, maaaas, todo mundo tem uma lista de coisas insuportáveis e burocráticas pra fazer. Dê check em toda essa lista neste mês sem reclamar. Você vai ver que a pior parte é pensar na lista, fazer nem é tão mal. Leve um livro ou uma história em quadrinhos se tiver que encarar filas. Vai lá e faz, vai lá e começa, vai lá e termina.

  • Turistar na sua própria cidade e ir a algum lugar que você nunca foi

Nem precisa se angustiar porque eu tenho certeza que existem vários lugares que você nunca conheceu. Procure em dicas de blogs, sites de viagens ou pergunte para pessoas diferentes. Quem sabe você não descobre um lugar novo por si só e acaba fazendo um guia da cidade? Taí, gostei.

Com todas essas metas divertidas e fáceis de fazer, setembro vai deixar de ser um mês de questionamentos e vai passar a ser um mês motivação e reencontro com as nossas vontades.

A pequenez dos dramas humanos

Observo enquanto ela tenta, frustradamente, fazer a impressora funcionar. Os longos cabelos cacheados estão emaranhados em um ninho de rato. Resultado de frustrações de uma noite anterior. Lambo minhas patas e relaxo no sofá, olho esta cena tragicômica.

Humana boba…

Não sabe ela que, assim como os animais que sentem o nervosismo das pessoas, as impressoras sentem quando você está com pressa?

Me impressiona o quanto Carolina se estressa por tudo. Pelo trânsito que pegou no dia. Pela mãe que, novamente, lhe criticava a aparência. Comigo porque deixei um passarinho morto em frente a porta do quarto.

Era apenas um presente…

Começo a tomar o meu banho. Lambo lentamente os meus longos pêlos brancos, enquanto Carolina digladia com a impressora. Batalha sangrenta. Ouso dizer que não houve vencedores.

Ela senta no chão e começa a chorar.

Lágrimas se misturam com a tinta dos ferimentos da impressora. No fim, os líquidos saem de ferimentos comuns. De Carolina na impressora. Da impressora no emocional de Carolina.

Agora pare. Eu sei o que você pensa. Sim, você! Que sou apenas um gato egoísta. Que me divirto com a pequenez dos dramas humanos, enquanto tomo um banho no sofá.

Pois saiba que sou, sim, egoísta. Talvez ela tivesse que aprender um pouco mais comigo, a seguir a vida com leveza felina.

Mas a minha humana é tão boba… Passa tanto tempo dando importância ao que os outros pensam dela.

Interrompo o meu banho e sento no colo de Carolina, frio e úmido em decorrência das lágrimas. Ela para de chorar. Sente o meu calor e começa a me fazer carinho.

Ainda não posso afirmar que Carolina aprendeu a viver como um gato, mas por ora a deixo pegar emprestado um pouco da minha despreocupação.

Talvez ela até me perdoe pelo lance do passarinho…

Relacionamento Fast-Food

Nos conhecemos numa festa aleatória num lugar apertado que mal dava pra andar sem esbarrar nas pessoas. Ele era conhecido de uma amiga minha. Achei bonitinho. Me interessei. Conversamos amenidades num lugar onde não dava para conversar amenidades. A caixa de som gigantesca atrás da gente pulsava uma música irreconhecível por causa do grave que latejava na minha cabeça. Vamos sair daqui, não tô escutando nada. Fomos para um canto que não era canto e tinha espaço de sobra. Conversamos sobre coisas que nem me lembro mais. Aliás, não me lembro de várias coisas. Dali a duas horas eu já tava pensando em como ele era a pessoa mais interessante que eu conheci nos últimos tempos. Uma da manhã eu já tava planejando o nosso primeiro encontro num lugar bem diferente fazendo um programa que nunca fiz com ninguém. Ele ia me achar muito interessante e imprevisível e ia falar sobre como eu pensava diferente e como isso era surpreendente. Duas da manhã eu já tava pensando como seria apresentar ele pros meus amigos e todos nós sairmos pra uma balada juntos, pra depois eles me contarem sobre como a gente combina e como eles o amaram. Três da manhã, enquanto a gente dançava desajeitado ao som de um música brasileira dessas que todo mundo conhece, eu já tava prevendo a nossa primeira briga depois de meses enrolando sem decidir nada sobre o nosso “relacionamento”. Ia ser uma briguinha boba, dessas que no meio a gente já nem lembra porque começou e ia servir pra gente perceber o quanto a gente se gosta. Até nas minhas fantasias os relacionamentos são complicados. Quatro da manhã e eu já tava pensando nos próximos aniversários de amigas que tenho marcados na agenda e de como eu ia poder levar ele e apresentá-lo pros namorados delas pra eles conversarem amenidades enquanto a gente fofoca sobre alguma coisa nova que as Kardashians fizeram. Cinco da manhã e eu já tô achando tudo incrível. Ele é a pessoa mais interessante do mundo. Como que eu não conheci ele antes? Vou fazer o mapa astral dele quando chegar em casa. Era sagitário com o que mesmo? Ele tem uma lua, ascendente, planeta ou satélite em comum comigo. A gente tem tudo a ver. Eu não quero ir embora. Quero ficar mais. Seis da manhã e não tem mais ninguém na festa. Tá na hora da gente ir embora. Seis e quarenta e cinco a gente já tá no Uber e eu já tô em êxtase pensando em como fomos felizes nesses meses de relacionamento que eu já vivi na minha cabeça. A gente se despede, eu entro em casa e durmo abraçando o travesseiro imaginando que é ele. No outro dia acordo e o êxtase passou. Tá mais com cara de ressaca. O travesseiro era só o travesseiro, sem personificações. Ele nem era tão interessante assim. Acho que ele tem cara de quem faria aquela coisa que me irrita. A gente não ia dar certo, ele demora pra responder mensagem de propósito. Eu não lembro muito bem se ele era tão bonito assim. A camisa dele tava ao contrário.

Levanto, faço um suco verde e vou perguntar pras minhas amigas o que eu perdi enquanto namorava por todos esses meses numa única noite. A gente terminou. Vida que segue.

Minha irmã vai casar

Minha irmã decidiu casar. Minha irmã, quatro anos mais nova que eu, decidiu casar. Ela já namora há milênios e eventualmente isso iria acontecer, mas eu não imaginava que seria tão cedo. Ter minha irmã em casa é ter uma parte de mim ali, no quarto ao lado, querendo me mostrar um vídeo engraçado no youtube, me contando uma fofoca ou rindo de quando eu imito meus pais. Mas ela vai sair de casa, ter a casa dela, a família dela e mais: em outro país.

É razoável eu ter saudades antecipadas e já começar a pensar em tudo o que vai faltar na minha vida daqui pra frente, mas o que me surpreende diariamente é a reação das outras pessoas quando eu falo sobre isso. Elas não pensam em como eu vou sentir falta da minha irmã ou em detalhes do casamento. O primeiro e principal comentário é “sua irmã passou sua frente, hein.” É sério. As pessoas realmente pensam isso e se assustam quando eu não entendo a brincadeira.

Veja bem, minha irmã sempre seguiu mais a cartilha da vida, coisa que, aparentemente, eu nem li. Aos 18 anos eu decidi que queria morar fora, arrumei um emprego e caí no mundo. Aos 18 anos minha irmã estava no pré-vestibular para ingressar no curso de odontologia, no qual ela se formou no tempo esperado e hoje trabalha com isso de segunda a sábado. Curso superior? Comecei três. Mudei de ideia várias vezes, me formei em um, trabalhei em dois empregos diferentes e joguei tudo pro alto pra estudar medicina. Minha irmã namora a mesma pessoa desde que o outono é sempre igual e as folhas caem no quintal. Eu namorei, desnamorei, namorei um tempão, terminei, vivi solteiríssima por um tempão e conheci meu atual namorado há seis meses e estou naquela fase incrível que a gente quer que dure para sempre.

Acho que já dá pra entender que a vida da minha irmã seguiu um rumo totalmente diferente da minha. As pessoas realmente esperam que, como irmã mais velha, eu tenha a vida mais estruturada antes dela, mas quem disse que minha vida é desestruturada? Quem disse que a gente precisa seguir os dez passos do sucesso para ser feliz? Quem disse que você precisar acertar de primeira? Quem disse que você precisa casar, ser bela, recatada e do lar? Quem disse que você não pode ser feliz de outro jeito?

Dizem que a gente nasce, cresce e morre. Eu acredito que a gente nasce, cresce, tem expectativas, absorve expectativas dos outros, tenta corresponder a todas essas expectativas e morre tentando fazer isso. Por anos eu achava que a minha vida deveria seguir a cartilha oficial e se isso não acontecesse, seria o fim do mundo. Tentei criar metas, planos muito objetivos e seguir por eles. Só que não deu. A vida não é uma planilha do Excel, felizmente. Muita coisa mudou meu rumo, conheci muito mais gente que eu imaginava, refiz minhas metas de ano novo umas mil vezes ao longo do mesmo ano, viajei mais que o esperado, tenho histórias de uma vida pra contar, aprendi a tocar violoncelo, dei aula em curso de inglês, recebi mais de duzentos intercambistas por semestre e consegui casas de família para todos eles morarem, voei de Alaska Airlines, lutei jiu jitsu, ouvi sobre a vida de muita gente interessante, descobri  que contos de fadas não existem, me apaixonei por um amigo de um amigo,  ausculto pulmão muito bem, trabalhei na Disney, morei no Queens, entre tantas outras coisas que eu não teria feito se seguisse as regras que só existem na nossa cabeça.

Não vou entrar no clichê de dizer que todas as coisas acontecem por uma razão, mas todas as coisas acontecem por uma razão. A gente pode não entender na hora, mas há lucro em tudo o que a gente faz. Conheci meus melhores amigos em um estágio que não tem relação nenhuma com o que eu faço hoje, por exemplo. Há aprendizado e aquisições em tudo o que a gente faz, mesmo seja a certeza de que nunca mais faremos alguma coisa novamente. Já experimentamos e podemos dizer com certeza que algo não cabe na nossa vida. Obviamente eu não estou falando em ganhos financeiros, isso tem muito pouco e um minuto de silêncio por esse fato, mas tem tanta coisa mais valiosa que dinheiro. E te digo mais: isso é uma descoberta que você só faz quando não vive a cartilha, ou pior, quando vive a cartilha e se arrepende profundamente ao perceber que não pode voltar atrás e fazer tudo o que você gostaria de ter feito.

Não tenho ideia de quando vou casar ou se eu vou casar. Estou muito feliz pela minha irmã que vai casar. Estou muito feliz com a vida que eu levo. Estou muito feliz com todas as reviravoltas da minha vida. Estou muito feliz por ter conhecido todos os meus amigos. Estou muito feliz por entender hoje que a vida pode ser leve e eu não preciso planejar cada passo. Estou muito feliz por demorar a entender a frase “sua irmã passou a sua frente”. Estou muito feliz por saber que as pessoas vivem vidas diferentes e que isso é encantador. Estou muito feliz por nada nessa vida ser de fato uma competição. Estou feliz. Simplesmente feliz.

Nos tempos de crise

me demito.

nesses tempos de crise, o dólar subindo, o quilo do feijão mais caro que esmaltar minhas unhas: me demito.

não me permito mais olhar sempre a mesma indecisão, a bolsa instável, o coração palpitante a sair pela boca, a vontade louca de comer qualquer coisa sem fome. me demito, não permito.

me demito do meu posto de louca, possessiva e garçonete das suas cervejas. me demito das noites mal-dormidas, do sexo sem surpresa e dos bilhetes que nunca mais me mostraram “eu te amo”.

“-não! não há ninguém ocupando seu posto, nunca houve, não é questão de substituir”, eu disse.

mas parece que sempre deve haver um motivo – senão nossos próprios erros – pra algo acabar. te quis, um dia, e fui fiel aos meus compromissos por anos, mas hoje – e há um bom tempo – não faz mais sentido lutar por algo e alguém que não mais me fazem brilhar os olhos.

me demito, não permito, renuncio do nosso amor. me permito amar, mas a mim mesma, como deve ser e esqueci. me lembrei, anotei no coração e carimbei na mala de rodinhas que, antes emperradas, agora empurram meus sonhos que deixei pra trás ao entrar por esta porta.