Eu sou os anos 90

Eu sou os anos 90. Sou uma geração inteira de privilégios. Os anos 60 e 70 trabalharam muito, desde os 18 anos, ganharam dinheiro e em mim viram um investimento. Eu era o futuro. Gastaram com cursinho de inglês, aulas de balé e judô, colégio particular.

Aliás o que é bem irônico, gastar rios de dinheiro com colégio particular para eu conseguir entrar numa universidade federal.

Fui mimado, as gerações anteriores me disseram que poderia ter tudo que quisesse. Cresci e sempre acreditei nesse mar de oportunidades, afinal com 12 anos já possuía um currículo impressionante com o tanto de atividades extracurriculares que fazia. Tive uma criação conservadora, julgava as garotas que faziam sexo no colégio, fui machista durante um bom tempo.

Acreditei tanto que idealizei muito e fiz pouco, achei que ia ter emprego de sobra, como na épocas passadas e que conseguiria tudo que sonhei simplesmente porque mereço. O problema é que o país entrou em crise: política, econômica, social. Me formei na faculdade. Todos os coleguinhas se formaram também. Quase ninguém conseguiu emprego.

Aliás nem todos que fazem parte de mim estão nessa fase, o que é até pior. Tem gente que achou o amor da vida, conseguiu emprego, tem filho já. Mas a maioria dos meus participantes fica em casa vendo netflix e mandando currículo na internet. Ficamos invejando essa minoria que, nas redes sociais, parece viver o sonho enquanto estou aqui me sentindo meio lixo. Problema é que assim como no meu perfil do facebook, o deles também deve estar bem maquiado.

Me sinto mal de ter sido um investimento ruim.

Quero um amor pra vida toda, mas não acredito nele de verdade. Tem muito homem e mulher por ai… Aliás, esqueci de avisar, entrei na faculdade e comecei a ser menos machista e conservador. Pelo menos uma coisa que estou melhorando! Experimentei muita coisa. Não quero mais definir gênero ou sexualidade, sou mais aberto hoje em dia. Me revolto com o país, reclamo horrores, falo de corrupção, mas furo fila para entrar mais rápido na balada.

Digo que todo mundo é superficial e ninguém se relaciona bem, mas sou inseguro e sempre espero os outros correram atrás de mim. Sou especial, incrível, qualquer um teria sorte de me ter. Não é engraçado que sendo tão bom assim, continuo sem ninguém?

Sou nervoso, tenho ansiedade, mas escuto todos os dias os anos 60, 70 e 80 falando que isso é frescura da minha geração. Que sou muito sensível, que pra mim tudo é “ismo”, machismo, racismo… recebo perguntas diárias sobre o que faço, se tenho um(a) namoradinho (a), se arranjei emprego, porque na época deles eles já eram casados e bem sucedidos. Porém acho que amo mais, aceito mais, acredito que todos deveriam ter os mesmos direitos. Sou bem mais inclusivo que as gerações anteriores.

Me junto com os amigos na mesa do bar e reclamamos juntos das nossas desgraças. Compartilhamos memes sobre como a gente só se ferra e seguimos a noite, nos sentimos invencíveis e pequenos ao mesmo tempo.

Descobri recentemente que não sou imortal, as pessoas morrem o tempo todo, até as que fazem parte de mim, os anos 90. A vida é curta, reclamo, mas gosto tanto dela, meu maior medo é o de não viver.

Um dia me falaram “o que é um ano da sua vida fazendo o que você não gosta, comparado aos 80 que você provavelmente vai ter?”, respondi que até onde sei posso morrer amanhã. Foi a única coisa que realmente aprendi dessa vida, que preciso ir atrás do que amo, dos meus sonhos, viver o hoje.

Me fizeram um investimento, viram mais em mim do do que realmente era. Mas sou uma voz, uma geração.

Somos todos anos 90 e queremos ser muito mais do que o agora.

Giovanna Ghersel

Giovanna Ghersel tem 23 anos, é estudante de direito e comunicação. Viciada em séries, viagens e desventuras amorosas. Considera ler e escrever terapêutico além de claro: desabafos em mesas de bar, cantar evidências no karaokê ou fazer uma maratona de netflix e pipoca. Atualmente está tentando escrever um livro e descobrir o que fazer da vida. Enquanto isso vai recolhendo experiências e usando-as de inspiração para os textos, afinal não existe nada mais extraordinário do que a vida.

  • Você me viu esperando pelo ônibus, impaciente arrancando os esmaltes da unha, depois de um dia inútil de trabalho não é mesmo? Porque essa é a minha vida. Ou todas as nossas. E viva os 90!(?)