O passado bateu em mina porta e eu a-bri

Senhoras e senhores, ponham a mão no chão e se segurem porque quando o passado visita é pior que terremoto, furacão e tsunami. E foi por esse turbilhão violento vindo por terra, ar e mar que duas amigas queridas foram pegas de surpresa e estão tendo que remexer nos escombros do que já foi destruído para resgatar uma parte de suas vidas. Mas cá entre nós, quem nunca abriu a porta pro passado e descobriu que ele não sabe a hora de ir embora? Quem nunca se distraiu e caiu no buraco negro do mal resolvido? “Quem tem, tem medo”e quem tem passado, tem pânico.
​Uma amiga terminou um namoro longo ano passado. Desde então está se relacionando com uma pessoa nova e tem sido, como diz Chico Buarque, “tipo festa sem fim”. Tudo muito bom, tudo muito bem até que, olhando o facebook para matar o tempo, dá de cara com uma foto do ex namorado abraçando uma garota com uma legenda bem melosinha. Tudo para por um segundo. Ela não respira, o coração acelera, os olhos se arregalam, a boca fica seca e começa um leve tremor nas mãos. Me contando sobre isso, ela diz que quis até chorar de tristeza e raiva. Veja bem, ela que decidiu terminar o namoro com ele, pois não o amava mais. Ela foi a primeira a superar e começar a namorar outra pessoa. Mas foi ela quem quase morreu quando viu o ex namorado e a partir daí houve um desabamento de estruturas emocionais. Ela não quer voltar atrás, nem deixou de amar sua nova companhia, mas o passado não estava tão bem passado assim.
A outra amiga teve um irmão por parte de pai quando já era bem mais velha. Hoje ela tem 30 anos e o irmão tem 5 anos, uma fofura. No entanto, ela vê o pai deles agindo com o irmão como agia com ela e cometendo os mesmos erros que a levaram para a sala de um terapeuta durante anos. Ela carrega feridas que foram abertas no momento em que ela viu seu pai terceirizando a educação do seu irmão ou gritando com ele de forma injusta. O passado estava cochilando dentro dela e despertou com tudo, trazendo uma angústia e nostalgia que a fizeram voltar pra sala do psicólogo para tentar enterrar de vez esse passado dorminhoco.
Às vezes é mais fácil calar o passado do que deixar ele falar. Não dá tempo de pensar e dá preguiça, dá desgaste, dá sono, dá negação, dá fuga e hoje, dá confusão. Quando a gente não fecha as portas direito, elas se abrem com um vento mais forte. Quando a gente não mastiga a comida, fica difícil digerir. A falta do luto ou do período de amadurecimento faz a gente ter pendências que serão cobradas com juros. Ter que tomar chá com o passado na casa do futuro é muito difícil. É a dificuldade de ter ciúmes do ex com o namorado atual do seu lado ou de querer tirar seu irmão dos braços do seu pai e levar pra sua casa. Resolver os problemas do passado é esvaziar uma mochila pesada que não deixa a gente andar direito. A mochila pesada nos atrasa e nos cansa, fazendo com que tenhamos que parar para respirar de tempos em tempos. É necessário que a gente abra a mochila e investigue todo o seu interior para podermos decidir o que vai e o que fica, nos libertando assim de mágoas antigas, frases nunca ditas, choros engolidos ou até mesmo daquela pesquisa insistente no facebook de alguém só pra manter a raiva em dia.
​A vida pode ser muito mais suave quando a gente zera o jogo. Você pode não ter feito isso na época certa, mas sempre é tempo de se libertar. É preciso parar, encarar o passado, discutir com ele, sangrar, chorar, mas mandar ele ficar do lado de fora. Você nunca vai esquecer que ele existe, claro, mas não precisa leva-lo nas costas. Deixa ele aí e anda pra encher sua mochila com coisas novas. O passado vai bater na sua porta, mas não abre não. Abre a janela que a vista é linda.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.