Alívio Feminino

Alguns podem falar que é o meio da noite, mas para este grupo talvez seja só o início. Depois de algumas horas ingerindo bebidas o desconforto começa. As pernas balançam inquietamente, pequenos pulos são feitos, enquanto observam-se todos que estão à sua frente, a quantidade praticamente imensurável de corpos que almejam o alívio imediato.

Quando a vontade bate, não tem para onde fugir. É o momento que muitos evitam, se seguram de forma inútil, numa tentativa de evitar o inevitável: perder minutos preciosos da noite. Unidas pelo desconforto doído que se localiza na bexiga, as mulheres formam uma imensa fila, em comparação com a dos indivíduos do sexo masculino, que exibe poucos seres, em nada desesperados com a agonizante espera sem fim.

Os homens que me perdoem, mas pela sorte que vocês tem, acabam perdendo um momento singular da balada. A amizade de banheiro. A fila, esse lugar que reúne as mulheres no ápice do seu desconforto e aflição, também cria laços da mais sincera amizade. No lado de dentro do toalete as pessoas se livram da hidratação em excesso, enquanto do lado de fora livram-se da timidez, da ansiedade, pedem conselhos a completas desconhecidas e o vínculo é formado.

É neste momento, de alto nível de vulnerabilidade, que as mulheres se expõem umas às outras. Não queremos saber se a roupa da fulaninha é bonita, também não queremos discutir a crise política. Na fila, queremos apenas que o tempo passe mais rápido e, numa espécie de cooperação mútua, formamos amizades com tempo de expiração, que nos ajudam a superar essa fase desagradável da noite.

Observamos quando uma companheira sai do ambiente com cara de nojo, reunimos dicas importantes sobre qual box está sem papel, até fazemos cabaninha para as novas amigas, quando o banheiro não tem porta. Ali pode sair tanto uma pequena reclamação sobre as filas absurdas nas festas, quanto um convite para viajar no final de semana.

Enquanto isso, os homens entram e saem com um nível de socialização mínima. Aliviados com certeza. Amigos? Nem tanto. Conforme a fila anda, observamos a amizade chegar a um fim.

Cada uma cumpre o seu objetivo e segue em frente. Se nos encontrarmos em outros lugares, talvez expressaremos um pequeno sorriso, ao lembrar que estivemos juntas em um momento único, mas fingiremos que nada aconteceu. Ou talvez a gente não lembre mesmo uma da outra, mas pelo menos nos ajudamos a superar um momento enfadonho.

Na realidade, a espera é um saco, e é muito mais fácil ser homem nessa sociedade. Mas podemos tirar umas risadas da situação, e sonhar em um mundo em que as amizades sejam tão puras como as da fila do banheiro.

Giovanna Ghersel

Giovanna Ghersel tem 23 anos, é estudante de direito e comunicação. Viciada em séries, viagens e desventuras amorosas. Considera ler e escrever terapêutico além de claro: desabafos em mesas de bar, cantar evidências no karaokê ou fazer uma maratona de netflix e pipoca. Atualmente está tentando escrever um livro e descobrir o que fazer da vida. Enquanto isso vai recolhendo experiências e usando-as de inspiração para os textos, afinal não existe nada mais extraordinário do que a vida.

Deixe uma resposta