Até mais, Umberto Eco

Caro Umberto Eco,

Hoje você morreu. Eu estava trabalhando e, no meio do pandemônio de telefonemas, whatsapps, calabresas sem cebolas, bordas de catupiry e lepadans boa noite, recebo a notícia da minha mãe.

Ela começa a conversa despretensiosamente: – Você tá lendo “O Nome da Rosa”, né?

“Não, esse aí eu já li faz tempo”

Ela ignora minha resposta e sentencia: – O Umberto Eco morreu…

“É sério??”

“Sim…”

“Puta que pariu!!”, soltei, esquecendo que minha tia tava com um cliente no telefone do lado.

“Vi no site da UOL”, citou a fonte como um atestado do óbito.

Mesmo assim, duvidei. Afinal de contas, quantas vezes o Jô Soares morreu e ressuscitou nos últimos anos? Parte de mim queria acreditar que você poderia ser o Jô italiano. Então, cético, resolvi seguir seu conselho e pesquisar outros canais que confirmassem a notícia.

Sinto dizer, amigo, que é real: você morreu. E não é só a minha mãe e a UOL que dizem não, mas o El País e o G1 também.

Fiquei triste. Triste. Por um segundo não teve cliente, gritaria dos motoqueiros, Seu Val imitando o Raul Gil, nem trocos pra 50. Só o vazio de uma respirada funda acompanhada de um pensamento: – Foda…

No momento seguinte me pergunto o porquê desse “Foda…”. Sabe, já morreu gente que eu respeito e admiro e não rolou esse “Foda…”, então por que agora?

Não me entenda mal, não estou dizendo que você não é digno do meu pesar. Mas é que, com todo o respeito, eu nem te conheço. Fiquei intrigado por me abalar com o fato de um cara que eu nunca vi na vida ter empacotado.

Lembrei, então, de um trecho de “O Pêndulo de Foucault”, em que o Belbo, numa conversa com Causabom sobre o poder que as imagens exercem na consciência das pessoas religiosas, defende que o mesmo efeito é causado pelas personagens literárias na cabeça dos leitores.Gostaria, com sua permissão, de destacar essa parte do diálogo:

“Estava me perguntando quem somos nós. Nós que consideramos Hamlet mais real que o nosso porteiro. Terei o direito de julgar estes aqui, eu que ando à cata de Madame Bovary para convidá-la a cear?”

Então entendi: Baudolino,Causabom, Guilherme de Baskerville, Simone Simonini, Roberto de la Grive, a brasileira Amparo, o Poeta, a Ipásia, o velho cego Jorge e todos os outros são reais e bem vivos no meu imaginário. E, pela mesma razão, senti o pesar da sua morte como a de um velho mentor e amigo, apesar de não ter te conhecido.

Escrevo essa carta para agradecer pela oportunidade de partilhar das suas loucuras, rir com suas piadas e aprender um pouco com suas obras. Você, meu amigo, faz como poucos a ponte entre o hermetismo pomposo da academia e a arte voltada para o grande público. Seus livros foram, por isso, um marco na minha vida como leitor, porque a partir deles senti que podia enfrentar, mesmo que fosse aos trancos e barrancos, desafios intelectuais sem medo, de cabeça erguida.

Peço perdão por não escrever em italiano. Não sou muito bom com línguas, confesso. Arranho um inglês e comecei o espanhol no Duolingo, mas de italiano eu só sei o que aprendi vendo Terra Nostra, então julguei mais prudente escrever no meu idioma. De qualquer forma, imagino que o português não seja um grande desafio pra você.

Espero que receba essa mensagem onde quer que esteja: na Terra do Preste João, na Ilha do Dia Anterior, em Atlantis, em Agarttha, na Jerusalém Divina ou no Paraíso Terrestre.

Adeus, meu amigo.

Um forte abraço,

Paulo

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