Clara Baccarin

Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida. www.clarabaccarin.com

E assim eu sou, vibração e descompasso

Já não me importo que não gosta de mim. Não me afeta saber que repete isso em frente ao espelho ‘Já não gosto de ti’, e cola como lembrete na geladeira e escreve como nota de rodapé em todas as páginas de sua agenda ‘Já não gosto de ti’.

Já não me importo que não gosta de mim, assim como decisão contratual, com firma reconhecida em cartório e com mandato judicial impondo ordem de restrição ao seu coração ‘Fique longe’.

Já não me importo que não gosta de mim só porque existem outros olhos em sua janela e gosta de olhar pra eles também e por lei, então, teve que fechar as cortinas de nossos encontros de alma.

Já não me importo que não gosta de mim por ter gostado de uma de minhas faces e desgostado das outras tantas. Por não saber como conviver com territórios desconhecidos, por não querer que eu seja imprevisível, mesmo que eu te diga que sim, eu sou assim como as batidas do coração, que seguem ritmos, mas às vezes perdem o fôlego. E assim eu sou, vibração e descompasso. Mas me parece que você gosta só do que a vista alcança.

Já não me importo que não gosta de mim por ter encontrado em mim um cais e atrás dele uma floresta densa e hermética. Já não me importo se não pude te mostrar apenas o que em mim é cais e escondido o que é floresta. Já não me importo de ver que seu acampamento não ousa sair da praia. Que você tenha cercado todas as suas florestas e mulheres desbravadoras agora são animais em extinção em suas terras.

Já não me importa ver seus olhos brilharem por tantas outras praias que sabem esconder bem florestas, nunca me importei com isso de toda forma. Porque continuo achando que quem tem olhos de encontrar praias, ainda tem coração de desbravar florestas, mesmo que o coração tenha sido catequizado e civilizadamente tenha aprendido o monoteísmo de ver apenas uma praia por vez.

Já não me importa se já nem ousa perder os olhos em mim, mesmo que descuidados. Porque sei que o medo não é apenas o de desbravar matas, mas é acima de tudo o de criar incêndios incontroláveis que poderiam exterminar todas as outras praias. Mal sabe você o respeito que eu mesma nutro por praias, eu que com olhos binoculares, sempre encontro as minhas próprias.

Já não me importo que tenha aprendido a afunilar os brilhos dos olhares e na sua seleção natural de coisas miúdas e inteligíveis, eu não passei. Já não me importo com olhares curtos.

Já não me importo porque a sua falta de conhecimento te limitou a perceber que o que cresce e transborda em mim não é o medo e nem a dor, mas a paixão.

 

 

Não guarde o amor pra depois

Não guarde o amor pra depois!

Não queira escolher o momento propício, a hora sensata.

Não racionalize e divida em pequenas porções e distribua pelos dias esse amor tão recortado, diluído como homeopatia.

Placebo não aquieta minha fome, minha ânsia.

Há um vazio mais baixo que o buraco do estômago e ele quer devorar antes de ser decifrado.

Comamos para queimar a boca, enquanto ferve, enquanto está cru e sangra e pulsa e dá pra sentir o gosto espesso de vida.

Sejamos ao mesmo tempo presa e predador um do outro até que nossas dilaceradas peles caiam felizes num sono profundo, sono de fadiga, não de tédio.

Não deixe o amor pra depois!

Que quanto mais se requenta, mais outra gororoba vira e é melhor ter um jantar de rico do que muitos de pobre. Mais vale uma noite profunda do que quinhentas rasas. Nos deleitemos hoje, amanhã cultivamos memórias que podem se tornar sementes de outros amores amplos. E, de toda forma, eu prefiro morrer de fome amanhã e viver de vida hoje.

Não guarde o amor pra depois.

Te digo, ele passa da data de validade!

Pode ser que expire, que azede, que seja roubado por outros olhos famintos.

Não guarde por medo ou por cuidado.

Amor assim é para ser deleitado até o lamber dos dedos.

Alma errante

Foto por Irina Gache
Foto por Irina Gache

Ela sempre tinha ideias mirabolantes e planos infalíveis. Entrava em todos os convites que pareciam significar vida à flor da pele, ou um resgate do que realmente vale a pena. Queria morar numa Kombi, passa um ano meditando em silêncio, fazer música na praia, plantar num pedaço de terra, andar o mundo, escrever um livro de poemas…

Feito caracol, ela andava com seu próprio ninho nas costas, sem querer, havia se tornado mestre em destruir castelos, em abandonar redutos com energia estagnada e prisões encantadas. Por mais canseira nos pés que sentisse, sua alma selvagem não aceitava ser controlada pelo comodismo, pelos medos, pelos apegos. Ela saia andando, deixando, despindo, levando tudo o que fica em nós nos processos de decantação de sentimentos, e isso sempre cabe em alguma célula do corpo.

Tinha um coração como uma cartola mágica, de onde pessoas poderiam sacar, dependendo do peso das mãos, borboletas ou elefantes.

Ela andava pela vida se encantando e se desencantando, entrando em sonhos, rompendo realidades, quebrando a cara, rindo de si mesma, esfolando os joelhos, chorando muito e dando muita risada. Deixando pedaços de si na poeira da estrada e vendo sempre novos horizontes. Achava por aí pessoas, lugares, sentimentos que nunca foram parar em nenhum mapa do tesouro, mas deviam.

Ela tinha uma alma errante que nunca achava o bastante caber em uma única versão de si.

Virávamos crianças. As crianças que nunca fomos.

"Over the Moon" por Rob Gonsalves
“Over the Moon” por Rob Gonsalves

Olho para você e vejo uma beleza. Uma história linda que não foi contada. Às vezes penso em você e sinto saudades do que a gente não viveu. As manhãs de sábado em que acordávamos famintos e íamos descabelados até o café da esquina comer um english breakfast e um suco de maçã com gengibre. Ficávamos mergulhados em nossos silêncios vendo o movimento crescendo nas ruas, em mais um dia quente. E eu nem precisava te olhar para saber que você estava ali, imerso também em uma certa doçura. E a house music que tocava no café, nunca foi muito o meu estilo, mas compunha perfeitamente essa história de um verão com ventos do pacífico.
Esses silêncios que nunca existiram, essas manhãs que nunca se deram. Afogadas na pressa de entrar num ônibus antes mesmo do sol nascer. E eu entrava sozinha em um café longe de sua casa e ficava imaginando a vida.

Sinto falta da nossa caminhada na orla, em que parávamos para ver o surf ou conversar com um amigo em comum que nunca tivemos. E deitávamos na areia só para tomar um sol no rosto e respirar o cheiro um do outro um pouco mais. E de quando éramos surpreendidos com um cachorrinho nos jogando areia e pulando a nossa volta, nos convidando para brincadeiras e nos desvendando as gargalhadas que já estavam prontas e só procurando um pretexto para irromperem. Envoltos numa dose certa de serotonina e adrenalina. Entorpecidos e vibrantes. Virávamos crianças. As crianças que nunca fomos.

Às vezes penso em você e sinto saudades do que a gente não foi. Nosso amor teve o peso dos adultos, já nasceu grande demais, nasceu perigoso, estressado, cansado. Uma bonita vontade no campo dos medos e das obrigações, uma bonita energia no campo dos orgulhos. Nasceu em meio a uma guerra, lindo mas cancerígeno. Nosso amor escondido nas madrugadas, nas garrafas de cerveja, na tristeza de saber que nunca conhecerá essas manhãs encantadoras de sábado.

Minha alma não tem CPF

Arte por Jen Mann
Arte por Jen Mann

Me pedem o nome completo, CPF, endereço, salário, estado civil, gênero, nacionalidade, senha do cartão de crédito…

Eu falo, eu completo, eu sigo as instruções de acesso, mas não é isso que sou. Sou o indefinível, o ‘não sei’, o sentido do momento, o amor, o choro, o nervo. A dúvida, o silêncio e a falas soltas ao vento.

Me perguntam minha profissão, posição política, religião, opinião, planos de vida, minha comida preferida…

E eu sou a paixão pela doçura agora e amanhã o mergulho de cabeça no apimentado. Longe da prisão dos números e dos nomes que me dão, eu sou a liberdade e a imperfeição. Eu sou a que fica em cima do muro, sentada na encruzilhada, observando as setas dos caminhos e me possibilitando estar um pouco no ‘ainda não vou fazer escolha alguma’. Às vezes eu sou a inação porque nenhum sentido me interessa. Eu fico no limbo, eu fico sem pressa.

Perguntam das minhas verdades e eu sou o medo estampado. Perguntam dos meus grandes saltos e eu sou o sonho desenraizado.

Por dentro eu sinto esse espaço indefinido, um sem juízo, uma alma sem filtro. Mas a vida de fora é uma coisa que se organiza de tal forma que para dar um passo eu preciso muito mais do que simplesmente existir no espaço. As burocracias me enlaçam.

Engraçado…

Minha alma não tem CPF, meu abraço não tem gênero, meu sentimento não tem idioma, por vezes nem verbete. Minha motivação de vida não se ampara numa posição, numa profissão. Meu endereço não é meu lar, meu cartão de crédito furado diz muito menos do que o meu olhar.

E para me conhecer um pouco é melhor tirar os sapatos, acender um cigarro e dizer alto ‘imagina se…’

Leia também: Pra me entender tire os sapatos

 

 

“Instruções para lavar a alma”

Kyle Thompson Photography
Kyle Thompson Photography

Estes são três poemas exclusivos do novo livro da Clara Baccarin, colunista maravilhosa do De Repente dá Certo.

Flor e Ser

Desculpa eu não poder te oferecer muito
Mas é que este ano eu já floresci.
E não me resta mais nem uma pétala,
Uma cor, um cheiro, um encanto.
É madrugada de inverno e eu não tenho calor para dois.

Mas olha, se quiser ficar,
Pode segurar uma de minhas folhas verdes
Com a ponta dos dedos
E ir brincando com a esperança.

Quem sabe
Você ainda esteja por perto
Quando eu vier a florescer novamente.

Só peço:
Não desperdice adubo no vento.

Ilha

Um lado meu sempre é seu,
Mas o outro não é nunca.
Parte de mim sempre fica,
Outra parte está sempre de partida.
Seu peito para mim é terra à vista,
Mas meu coração é oceânico.
Mesmo longe estou perto,
Mesmo perto estou longe.
Entre os polos do meu coração
Passa um Atlântico.
Serei eternamente sua,
Mas só enquanto eu for ilha.

Sapos

Meu coração aprendeu a fazer magia
Sabe transformar ratinhos em elefantes
Príncipes em sapos
Histórias chatas em contos de fadas
Também já transformou um pavão numa pluma
Que voou com o tempo
Num toque de mágica desfaz feitiços
Quando os olhares de meia noite
Convertem sentimentos em abóboras
Meu coração é um ilusionista
Aprendeu truques para enganar a vista
Pensa que é um palco, coitado
Dança, cai, levanta, prega peças
Vira palhaço
Tira sarro das próprias tragédias
Meu coração é uma comédia

O que chamam errar, eu chamo de experimentar a vida

Arte por Witchoria
Arte por Witchoria

O que chamam errar, eu chamo de experimentar a vida. O que chamam de decisões ruins, eu chamo de capítulos interessantes de uma história. O que avaliam como quedas, eu sinto como incansáveis tentativas de voos. O que punem como irresponsabilidades, equívocos, imaturidades, eu me absolvo com a impunidade do verbo amar.
Defendo o descontrole natural do caminho.

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Para me entender tire os sapatos

Para me entender tire os sapatos, puxe um livro, acenda um cigarro, e diga alto “imagina se…”.
Respire fundo, dispa-se, relaxe, esqueça tudo o que já sabe desta vida, esqueça as intenções, esqueça a sua inteligência, padronizada, esqueça as suas experiências, a diferença de idade, as verdades.
Para me entender seja a tentativa de ser intensa, inteira, a tentativa de empatia, a vontade de não se perder, mesmo que a vida seja só perda, mesmo que te façam palhaça, mesmo com essa cara de boba. Seja uma mulher. Que aprendeu a rir de si mesma, e a defender seu lado feio, que não tem vergonha do que nela é tão pequeno.
Para me entender se esqueça de me ver com os seus olhos, com as suas intenções, preocupações ou ideias.
Se esqueça de resgatar os seus mundos para compreender os meus.
Venha de alma nua. Porque tenho um lado primaveril tão forte quanto o iceberg.
E é provável se enganar à primeira vista.
Sim, estou sempre no caminho do amor, mas esse mesmo caminho que é luz tem longas estiagens.
Por isso não me julgue por uma fotografia, uma esquina, um lado, uma tarde de aniversário.
Para entender uma mulher tenha a coragem de despi-la com os olhos dela.

De que lado da cama você dorme?

Arte por Frank Moth
Arte por Frank Moth

De que lado da cama você dorme? Quando você chora? O que te faz sorrir? Onde mora sua paz? Qual é a parte do seu corpo que mais sente cócegas? Qual é o sonho que mais te visita? Você prefere a noite ou o dia? Areia ou terra? Café ou chá? Cerveja ou vinho? O que você faz num domingo à tarde? Qual é o seu medo que de tão grande fica num cantinho esquecido do seu pensamento? O que te orgulha nesta vida? O que te dá sentido? O que te faz vibrar? O que te faz bocejar? O que te causa revolta? O que você já aprendeu vivendo? O que o sofrimento te trouxe? e a ternura? e a alegria? Quem é a pessoa que te habita quando fica sozinho? E a pessoa social? Você é sociável? Gosta de crianças? E de bichos? Gosta de cachoeira? e de mar? Gosta de cidade grande? E de viajar? Gosta do silêncio? E de falar? Tem um amuleto? Tem um orixá? Tem o corpo fechado? Tem o coração pronto para amar? Nasceu há quantos anos? Em que dia? Qual é o seu signo? E o ascendente? Acredita em vidente? E em Deus? É ateu? Agnóstico? Budista? Filósofo? Humanista? Tem fé em que? O que te faz sentir? O que te faz partir? E querer ficar? Em que se pautam as suas escolhas na vida? Você luta? Ou deixar estar? Como você dorme? se esparrama na cama ou se comprime? Nu ou vestido? Acompanhado ou sozinho? O que faz seus olhos brilharem? Qual é o caminho do seu coração? É pelo estômago? É pelo sorriso? É pela magia de uma história sem sentido? Qual é o seu tipo de sangue? Com qual mão você escreve? Prefere papel e caneta ou teclado? Gosta de tecnologia? De bicicleta? Qual música te desperta? E que te faz cantar? Você canta? Você fala? Você sorri? Você existe mesmo? Não foi uma alucinação? Você acredita em destino? E em acasos? E em milagres? Confia na vida? Ou no livre arbítrio? Você é real? Ou foi inventado?

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Alma solta

Pintura maravilhosa do Frank Morrison
Pintura maravilhosa do Frank Morrison

Ela estranha seu corpo farto, seu rosto exagerado, os traços brasileiros, tudo grande e misturado. Ela acha engraçado a dança despertando olhares. Ela dá risada na frente do espelho, cabelo bagunçado, sorriso largo, lei da gravidade. Quem é essa mulher impetuosa, desconhecida? Nela que ainda acha que o mundo é um quintal de pular corda, acredita nos gestos de amizade, na gratuidade. Ela ainda tropeça e gagueja, não sabe falar em público, olhar nos olhos. Ela ainda se espanta com o mundo. Ela é uma alma estabanada, criança levada de joelhos ralados. Sabe que é muito pouco quem só vê nela um corpo. Sabe que há tantos desperdícios no mundo, as pessoas olhando e cuidando muito do couro. Quantas brincadeiras não acontecem porque as pessoas se esquecem de abrir a roda e o peito. Quem gosta de brincar não quer saber que mão vai segurar porque para entrar na roda basta dizer sim e o mundo gira. E ela não sabia, mas parece que dançar de alma solta é mais erótico do que tirar a roupa.