Clara Baccarin

Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida. www.clarabaccarin.com

Você é meu Reveillon

Por Oleg Oprisco
Por Oleg Oprisco

Eu nunca quis que você entrasse na minha vida.
Nunca sonhei com você aqui do meu lado todos os dias.
Não quero conhecer o seu mau humor matinal, as suas neuroses, o seu lado cotidiano.
Não quero saber qual é o nome da sua mãe, não quero ver as suas fotos da infância.
Não quero provar sua comida – não todos os dias.
Não imagino a cara dos nossos filhos, não quero segurar sua mão nas ruas, não te quero de corpo tão presente, fazendo papel de marido, opinando na fatura do cartão de crédito e comendo o último iogurte da geladeira.

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De onde foi que você surgiu que eu não vi?

De onde foi que você surgiu que eu não vi, não notei?
Não vi quando chegou, nem quando me achou, nem quando se fez existir. Quando foi que eu te coloquei um significado nesse meu caminhar acelerado?
Em que momento foi que você puxou a barra da velha saia que eu não uso mais? E inventou sentimentos que já não se usam mais? E criou um cenário bonito para a nossa encenação tomar corpo? Um corpo que não me pertencia.
Quando foi que seus dedos aprenderam a desenhar eternidades em minha pele?
E eu comecei a me apegar a esses momentos passageiros que ficam marcados feito brasa no couro?
E todas as vezes que eu olho agora para os caminhos de suas mãos em meu corpo, sinto o seu rastro.
Quando foi que você olhou nos meus olhos, de volta aos 14 anos, doce como a rosa roubada, caída no quintal da adolescência? E como foi que encontrou o antigo baú em que ficaram esquecidos, por eu tê-los julgado inúteis e antiquados, aqueles velhos sonhos e os recolocou na vitrine dos meus pensamentos?
Nunca te vi antes na vida, mas você me conhece desde criança.
Fazendo-me platônica de novo: amando ideias, amando amar, me inflando de essências que só cabem no universo do imaginar.

Mulher Lua

Ela é tão forte que se assume sensível.
Mulher lua, ora cheia, ora vazia. Segue seus próprios ritmos. Aceita os ritos de início e de morte de seu coração. Enxerga o mundo pela emoção. Pertence a si mesma, vezes se resguarda, vezes oferta amor de graça por onde passa.

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Ela tem um coração que bate baixinho

Ela tem um coração que bate baixinho, descompassado, porém insistente.
No ritmo de um samba triste.
Cheio de lirismo e cuidados.
Em tudo na vida ela é devagar, porém intensa
Nos aprendizados, nos passos, nos sentimentos.
Ela toca o mundo com a ponta dos pés mas vai até submergir por inteiro.
Olhos fechados, cabeça, alma e coração.
Ela nunca chegou em primeiro lugar em nada na vida, nunca alcançou o topo.
Nunca foi rápida para resolver um problema, encontrar uma saída, entender os jogos.
É que ela sabe que é necessário um silêncio para compreender a fundo. É preciso aprender a ouvir as vozes mudas do mundo. É preciso se desconstruir para se misturar com outros átomos e assim perceber uma flor, uma pedra, um cheiro.
É preciso deixar o coração seguir assim baixinho, mesmo que às vezes solitário.
E enquanto todos correm, ela perdeu o impulso da correnteza ao parar nas margens para contemplar a dança da última folha que caia da árvore.
Ela tem um ritmo vagaroso, do tipo que nunca vai alcançar o topo, mas que vai penetrar todos os profundos.
E foi nesse vagar titubeante que ela, sem querer, aprendeu a voar nos universos ocultos.

Começo, meio e fim. Quem foi que disse que a vida é assim?

Arte por alex stoddard
Arte por alex stoddard

Acho estranho quem nunca desiste, nunca muda, nunca erra. Quem nunca se permite dar voltas na vida. Não volta atrás em uma decisão. Quem não rebobina um filme ou não dá um passo maior que a perna e assim aprende a voar. Estranho é quem acha que a vida é sempre em frente e em linha reta.
Começo, meio e fim. Quem foi que disse que a vida é assim?

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