Giovanna Ghersel

Giovanna Ghersel tem 23 anos, é estudante de direito e comunicação. Viciada em séries, viagens e desventuras amorosas. Considera ler e escrever terapêutico além de claro: desabafos em mesas de bar, cantar evidências no karaokê ou fazer uma maratona de netflix e pipoca. Atualmente está tentando escrever um livro e descobrir o que fazer da vida. Enquanto isso vai recolhendo experiências e usando-as de inspiração para os textos, afinal não existe nada mais extraordinário do que a vida.

Alívio Feminino

Alguns podem falar que é o meio da noite, mas para este grupo talvez seja só o início. Depois de algumas horas ingerindo bebidas o desconforto começa. As pernas balançam inquietamente, pequenos pulos são feitos, enquanto observam-se todos que estão à sua frente, a quantidade praticamente imensurável de corpos que almejam o alívio imediato.

Quando a vontade bate, não tem para onde fugir. É o momento que muitos evitam, se seguram de forma inútil, numa tentativa de evitar o inevitável: perder minutos preciosos da noite. Unidas pelo desconforto doído que se localiza na bexiga, as mulheres formam uma imensa fila, em comparação com a dos indivíduos do sexo masculino, que exibe poucos seres, em nada desesperados com a agonizante espera sem fim.

Os homens que me perdoem, mas pela sorte que vocês tem, acabam perdendo um momento singular da balada. A amizade de banheiro. A fila, esse lugar que reúne as mulheres no ápice do seu desconforto e aflição, também cria laços da mais sincera amizade. No lado de dentro do toalete as pessoas se livram da hidratação em excesso, enquanto do lado de fora livram-se da timidez, da ansiedade, pedem conselhos a completas desconhecidas e o vínculo é formado.

É neste momento, de alto nível de vulnerabilidade, que as mulheres se expõem umas às outras. Não queremos saber se a roupa da fulaninha é bonita, também não queremos discutir a crise política. Na fila, queremos apenas que o tempo passe mais rápido e, numa espécie de cooperação mútua, formamos amizades com tempo de expiração, que nos ajudam a superar essa fase desagradável da noite.

Observamos quando uma companheira sai do ambiente com cara de nojo, reunimos dicas importantes sobre qual box está sem papel, até fazemos cabaninha para as novas amigas, quando o banheiro não tem porta. Ali pode sair tanto uma pequena reclamação sobre as filas absurdas nas festas, quanto um convite para viajar no final de semana.

Enquanto isso, os homens entram e saem com um nível de socialização mínima. Aliviados com certeza. Amigos? Nem tanto. Conforme a fila anda, observamos a amizade chegar a um fim.

Cada uma cumpre o seu objetivo e segue em frente. Se nos encontrarmos em outros lugares, talvez expressaremos um pequeno sorriso, ao lembrar que estivemos juntas em um momento único, mas fingiremos que nada aconteceu. Ou talvez a gente não lembre mesmo uma da outra, mas pelo menos nos ajudamos a superar um momento enfadonho.

Na realidade, a espera é um saco, e é muito mais fácil ser homem nessa sociedade. Mas podemos tirar umas risadas da situação, e sonhar em um mundo em que as amizades sejam tão puras como as da fila do banheiro.

Eu não escrevo sobre amor

Eu não escrevo sobre amor. Sobre noites mal dormidas, expectativas criadas sem querer ou como é necessário um ato de coragem para poder se entregar a alguém. Também não escrevo sobre o pós-amor. O que se faz quando o fim fúnebre chega e resta aos sobreviventes passar pelo funeral daquela pessoa que morreu na sua vida, mas segue viva na de outros.

Me recuso veementemente: a fazer um texto fofo, falar de coisas melosas, discorrer sobre a dor do fim ou de como superar com auto-estima e amigos. Não vou discursar sobre bater os olhos naquela pessoa e pensar “esse (a) é o futuro pai dos meus filhos/ mãe dos meus filhos”. Muito menos sobre os pequenos atos do dia-a-dia. Credo, jamais sobre os pequenos atos do dia-a-dia.

Nem pense que gastarei meu tempo escrevendo sobre passar o dia inteiro na cama com aquela pessoa, jogar videogame, assistir Netflix juntos, cozinhar risoto com vinho na cozinha pequena, sentir e desejar que esses ínfimos momentos durem para sempre.

Jamais usarei experiências próprias em qualquer texto meu: citar o momento em que fomos ver o filme do Wolverine e, naquela cena que o herói se vinga de um caçador que, a sangue frio, matou um pobre urso, você havia dito que o Wolverine era uma espécie de Curupira canadense. Que eu ri tanto que o cinema inteiro se incomodou conosco.

Jamais colocarei isso em texto algum. Se me virem falando que se apaixonar é bom, é algo que só os fortes conseguem, que é preciso abrir o coração e se jogar, podem me internar. Não, sério! Sou totalmente anti-romântica.

Acredito no pega, mas não se apega. Na curtição infinita. Pra que apenas um quando se pode ter vários? Eu sou o símbolo do desapego, minha gente. Não tenho fossas, supero tudo muito rápido. Não choro em filmes românticos, não sinto falta de ninguém. É isso. Fim. Não escrevo sobre amor. E é só sobre amor que escrevo.

Tudo que te desejo

Eu poderia te desejar tudo de pior não é? Te bloquear em todas as redes sociais e fingir que te odeio. É até o que os meu amigos querem, que nunca mais fale com você, que vire um completo desconhecido para mim, mas comigo não é assim. Jamais vou te odiar. Em nenhum momento vou te desejar mal.

No seu aniversário te darei parabéns, natal e ano novo vou desejar a você a sua família o melhor. Se sofri? Nossa, demais! Já cheguei de baladas e chorei sozinha por mais de hora em casa. Me perguntei tanto por que não demos certo, por que depois de tanto esforço deu tudo errado. Será mesmo que deu errado?

Quando olho para trás vejo tanto carinho, tanta alegria. Como poderia algum dia não querer te ver feliz? Quero que você encontre alguém que entenda o tanto que você valoriza os seus amigos e precisa da sua reunião semanal na casa deles, e que confie em você. Que saiba que você é meio confuso, mas que tem um coração de ouro. Do tanto que você me fez bem não tem como eu te desejar mal.

Quero que você alcance o seu potencial, que viaje, conheça mil pessoas e seja incrível. Eu sei da sua capacidade, talvez mais até do que você mesmo. Sabe qual o problema?

A maioria das pessoas olha pros ex’s romances e sente algo ruim, mas quando penso em você só lembro de coisas boas. Não porque não superei, ou porque não sei que não somos um pro outro. Não somos. Não sou a pessoa certa para você, nem você para mim. Mas te conheço e sei que você é alguém que merece ser amado, alguém que tem todo o meu respeito e quero para sempre o seu melhor. Que você encontre coisas incríveis nesse mundo, e melhor ainda, que nesse caminho encontre a si mesmo.

Porque todos esperam que eu queira o seu pior, mas sabe o que? Só posso te desejar felicidade e esperar que quando você pense em mim se lembre de alguém que sempre vai te olhar com todo o carinho possível.

Pra você que está entrando na minha vida agora

Para você que está entrando na minha vida agora… Hey, chegue mais!

Me deixa abrir a porta do meu coração pra você. Sinta-se em casa e não repare na bagunça!

O inquilino antigo não cuidou direito e aí as coisas ficaram meio desarrumadas por aqui, umas pilhas de roupa suja pra lavar ali no canto do quarto, mas tudo tranquilo, sem ressentimentos. A casa está em processo de reforma, mas ao que me parece tudo caminha pra uma considerável melhora.

Sim, tem umas rachaduras na parede. Me disseram que certas rupturas nunca se consertam por completo, mas dá um ar diferenciado para o local não? As paredes aqui viram muitas coisas, são cheias de experiências, porém estão ansiosas por novas. A estrutura até mudou, mas a essência continua a mesma. Ah não te disse?

Casa de solteiro é assim mesmo, muita loucura, uma reforma atrás da outra, mas nunca se cansa, de mudar, de tentar, de desistir e tentar de novo. É que a vontade de ser feliz supera as decepções. Para ser sincero às vezes até minto pra mim mesmo. Digo que dessa vez vou fechar as portas e não receber ninguém, afinal o processo de trocar pinturas, pisos, procurar uma nova decoração dói.

Às vezes é preciso derrubar paredes. Então, em vez de derrubar paredes, vou e construo mais, para tentar me proteger. Pelo menos fica com mais lugar para pintar. Sou simpático demais, gosto de receber gente aqui… de casa cheia sabe? O vazio é bom por um tempo, mas ter o coração repleto é essencial. Claro que tenho visitantes recorrentes: amigos, família, sonhos, mas ultimamente anseio por alguém que queira habitar aqui com ânimo definitivo.

E ai, está a fim de quebrar umas paredes?

Para o meu amigo: as demandas do amor

São onze horas da noite de uma segunda-feira.

Recebo vários prints da sua conversa com ela no whatsapp. Assim como aquela música você fica nessa de “Should I stay or should I go?”.

Você me diz que está com medo de sofrer, mas percebe que o medo já é um sofrimento em si? O amor, querido amigo, demanda coragem. É ver o fim do precipício e se jogar mesmo assim. É não somente correr o risco de se magoar, mas escolher quem vai ter o poder de fazer isso contigo.

Amar é ter alguém que você possa mandar mensagem a qualquer hora. É ter, de maneira romântica, um melhor amigo. É beijar alguém e sentir arrepios, mas em um abraço se sentir seguro. É ter, em uma hora de não pensar em ninguém, alguém que você pensa toda hora.

Amar também demanda um pouco de burrice… É colocar o outro antes de você. É escolher uma única pessoa dentro das 7 bilhões que existem no mundo. É ter trabalho e discussão chata de relação. É ter que se expor, ser vulnerável. Ter que dar satisfação. É não ter nada novo porque está com a mesma pessoa e, ao mesmo tempo, ter que descobrir o novo nela todos os dias.

Não sei te dizer se você deve ir ou ficar, mas se existe um último ponto para te dizer é isso: o amor é aquilo que aquele cara, que você acha idiota, não sentiu por mim. É o que ela sente por você.

Eu sou os anos 90

Eu sou os anos 90. Sou uma geração inteira de privilégios. Os anos 60 e 70 trabalharam muito, desde os 18 anos, ganharam dinheiro e em mim viram um investimento. Eu era o futuro. Gastaram com cursinho de inglês, aulas de balé e judô, colégio particular.

Aliás o que é bem irônico, gastar rios de dinheiro com colégio particular para eu conseguir entrar numa universidade federal.

Fui mimado, as gerações anteriores me disseram que poderia ter tudo que quisesse. Cresci e sempre acreditei nesse mar de oportunidades, afinal com 12 anos já possuía um currículo impressionante com o tanto de atividades extracurriculares que fazia. Tive uma criação conservadora, julgava as garotas que faziam sexo no colégio, fui machista durante um bom tempo.

Acreditei tanto que idealizei muito e fiz pouco, achei que ia ter emprego de sobra, como na épocas passadas e que conseguiria tudo que sonhei simplesmente porque mereço. O problema é que o país entrou em crise: política, econômica, social. Me formei na faculdade. Todos os coleguinhas se formaram também. Quase ninguém conseguiu emprego.

Aliás nem todos que fazem parte de mim estão nessa fase, o que é até pior. Tem gente que achou o amor da vida, conseguiu emprego, tem filho já. Mas a maioria dos meus participantes fica em casa vendo netflix e mandando currículo na internet. Ficamos invejando essa minoria que, nas redes sociais, parece viver o sonho enquanto estou aqui me sentindo meio lixo. Problema é que assim como no meu perfil do facebook, o deles também deve estar bem maquiado.

Me sinto mal de ter sido um investimento ruim.

Quero um amor pra vida toda, mas não acredito nele de verdade. Tem muito homem e mulher por ai… Aliás, esqueci de avisar, entrei na faculdade e comecei a ser menos machista e conservador. Pelo menos uma coisa que estou melhorando! Experimentei muita coisa. Não quero mais definir gênero ou sexualidade, sou mais aberto hoje em dia. Me revolto com o país, reclamo horrores, falo de corrupção, mas furo fila para entrar mais rápido na balada.

Digo que todo mundo é superficial e ninguém se relaciona bem, mas sou inseguro e sempre espero os outros correram atrás de mim. Sou especial, incrível, qualquer um teria sorte de me ter. Não é engraçado que sendo tão bom assim, continuo sem ninguém?

Sou nervoso, tenho ansiedade, mas escuto todos os dias os anos 60, 70 e 80 falando que isso é frescura da minha geração. Que sou muito sensível, que pra mim tudo é “ismo”, machismo, racismo… recebo perguntas diárias sobre o que faço, se tenho um(a) namoradinho (a), se arranjei emprego, porque na época deles eles já eram casados e bem sucedidos. Porém acho que amo mais, aceito mais, acredito que todos deveriam ter os mesmos direitos. Sou bem mais inclusivo que as gerações anteriores.

Me junto com os amigos na mesa do bar e reclamamos juntos das nossas desgraças. Compartilhamos memes sobre como a gente só se ferra e seguimos a noite, nos sentimos invencíveis e pequenos ao mesmo tempo.

Descobri recentemente que não sou imortal, as pessoas morrem o tempo todo, até as que fazem parte de mim, os anos 90. A vida é curta, reclamo, mas gosto tanto dela, meu maior medo é o de não viver.

Um dia me falaram “o que é um ano da sua vida fazendo o que você não gosta, comparado aos 80 que você provavelmente vai ter?”, respondi que até onde sei posso morrer amanhã. Foi a única coisa que realmente aprendi dessa vida, que preciso ir atrás do que amo, dos meus sonhos, viver o hoje.

Me fizeram um investimento, viram mais em mim do do que realmente era. Mas sou uma voz, uma geração.

Somos todos anos 90 e queremos ser muito mais do que o agora.

Eu não preciso falar sobre o amor

Semana passada muitos questionaram o amor. Discutiram o texto do Gregório Duvivier.

E aí? Amor ou marketing?

Eu não sei nada sobre o amor.

Não sei se amor de verdade é ter o coração palpitando pela primeira vez ao ver a garota bonitinha na aula de jazz, ou se é estar casado com alguém por 20 anos. Não sei nem como é estar com alguém por mais de oito meses.

Sei muito, muito pouco sobre amor.

Agora sei bem como é olhar para aquela pessoa na festa e sentir uma vontade doida de beijar. Pensar “é hoje que eu pego ele”, passar a festa inteira olhando pro sujeito, ele não perceber e você não pegar.

Stalkear no facebook e instagram. Pensar se adiciona ou não adiciona. Quando adiciona: será que curto essa foto do cachorro dele de 2005 ou fico só nas fotos recentes?

– Curte as recentes só pra começar. Depois decide ser mais ousada e curtir as antigas mesmo.

Rola uma troca de likes e o coração já salta, já começa a pensar que próxima balada vai rolar sim, ta muito afinzão, ta na minha…

Vocês trocam likes e nada acontece. Um dia a paciência acaba e você resolve mandar uma mensagem. Sua melhor amiga te incentiva e fala “manda logo, morrer não vai amiga”. Você fica tão nervosa que tem que colocar o seu celular na mão dela e pedir pra ela mandar por você.

Sei do nervosismo, do medo da rejeição.

Quando você está com a pessoa, mas ao mesmo tempo não é nada sério então você não sabe se podem ou não ficar com outras pessoas. Cada festa que você encontra o sujeito é um nó no coração do medo de ver ele ficando com outra menina e de saber que talvez você nem possa reclamar disso.

Sei somente como é gostar de alguém.

Gostar a ponto de querer sair sempre com a pessoa, mas não chamar toda hora para não parecer que está grude demais.

Seus amigos se dividem em grupos: aqueles que botam fé que dessa vez vai dar certo e aqueles que acham que é só mais um cara que vai ficar ai por um ou dois meses e, ou ele vaza, ou você enjoa dele.

Você apenas espera a hora que tudo vai dar errado. Espera com o coração apertado porque no fundo você quer mesmo é que dê certo. Fica o tempo todo tentando se convencer de que não gosta, que não é nada demais, só pegação. Mas ai no meio da aula pensa nele. E na academia, na festa, no bar, no shopping…

Gostar de alguém é querer falar para a pessoa logo “Hey eu gosto de você”.

Você fica lá nervosa. Respira uma vez. Duas vezes. Abre a boca pra falar e fecha logo em seguida. Nossa não vou falar agora. Mas se bem que eu preciso. Pior é que já está tão na cara que você gosta…

É ter medo de que após falar essa frase a pessoa saia correndo para as montanhas do Himalaia.

É voltar de uma festa no carro do seu melhor amigo, escutar um sertanejo brega com ele e lembrar do crush. Olhar pro seu amigo e falar que você ta ferrada. Ta apaixonada. E ele ficar rindo da sua cara porque todo mundo já tinha percebido menos você.

O amor? Não conheço muito bem não. Ele parece é ser muito sussa…

Difícil é gostar de alguém.

A pequenez dos dramas humanos

Observo enquanto ela tenta, frustradamente, fazer a impressora funcionar. Os longos cabelos cacheados estão emaranhados em um ninho de rato. Resultado de frustrações de uma noite anterior. Lambo minhas patas e relaxo no sofá, olho esta cena tragicômica.

Humana boba…

Não sabe ela que, assim como os animais que sentem o nervosismo das pessoas, as impressoras sentem quando você está com pressa?

Me impressiona o quanto Carolina se estressa por tudo. Pelo trânsito que pegou no dia. Pela mãe que, novamente, lhe criticava a aparência. Comigo porque deixei um passarinho morto em frente a porta do quarto.

Era apenas um presente…

Começo a tomar o meu banho. Lambo lentamente os meus longos pêlos brancos, enquanto Carolina digladia com a impressora. Batalha sangrenta. Ouso dizer que não houve vencedores.

Ela senta no chão e começa a chorar.

Lágrimas se misturam com a tinta dos ferimentos da impressora. No fim, os líquidos saem de ferimentos comuns. De Carolina na impressora. Da impressora no emocional de Carolina.

Agora pare. Eu sei o que você pensa. Sim, você! Que sou apenas um gato egoísta. Que me divirto com a pequenez dos dramas humanos, enquanto tomo um banho no sofá.

Pois saiba que sou, sim, egoísta. Talvez ela tivesse que aprender um pouco mais comigo, a seguir a vida com leveza felina.

Mas a minha humana é tão boba… Passa tanto tempo dando importância ao que os outros pensam dela.

Interrompo o meu banho e sento no colo de Carolina, frio e úmido em decorrência das lágrimas. Ela para de chorar. Sente o meu calor e começa a me fazer carinho.

Ainda não posso afirmar que Carolina aprendeu a viver como um gato, mas por ora a deixo pegar emprestado um pouco da minha despreocupação.

Talvez ela até me perdoe pelo lance do passarinho…

Temos 20 e poucos anos

Acordamos mais cedo do que queríamos. Nos abastecemos com café. Líquido sagrado dos deuses. Tão necessário que existe até café de R$15,00. O café gourmet é muito caro para o orçamento universitário. Quando finalmente conseguimos comprar um, tiramos fotos para colocar no nosso Instagram e fingir que somos hipsters. Não sabemos se ser hipster ainda está na moda.

Temos 20 e poucos anos.

Entramos na faculdade. Vamos para todos os happy hours. Competição de beer pong. O drink está caro. Vamos comprar catuaba. Bumbum granada. Tá tranquilo. Tá favorável. A idade chega. Começamos a ter ressacas homéricas. Trocamos o happy hour da faculdade, a festinha que dá pra entrar de graça até a meia-noite por um vinho com os amigos em casa ou um jantarzinho tranquilo. Temos que fazer programas mais adultos, afinal. Não aguentamos mais o jantarzinho. Balada no dia seguinte. Ressaca homérica. Nunca mais vamos beber na vida. Semana seguinte tem jantarzinho. Tem a balada pós jantarzinho também.

Temos 20 e poucos anos.

Passamos a faculdade toda na pressa. É correria no dia a dia. Faculdade. Estágio. Academia. Queremos nos parecer com a Gabriela Pugliesi. Vamos ao nutricionista. Fazemos dieta por um mês. Esse mês a gente bebe menos. Ficamos de saco cheio da dieta. A gente não vive pra estudar e além disso ser gostoso de qualquer forma. Vamos ao barzinho depois, afinal malhamos tanto que merecemos uma cervejinha. Ficamos com vergonha porque saímos da dieta. Nunca mais voltamos ao nutricionista.

Temos 20 e poucos anos.

Chega a semana de provas na faculdade. Insônia. Nervosismo. Refluxo. Gastrite. Toma café. Mais gastrite. Omeprazol. Pega prova do semestre passado. Meu Deus essa prova não faz sentido nenhum. Passamos a madrugada estudando o que deveríamos ter estudado o semestre todo. Hora de fazer uma amizade sincera com a menina que anota tudo da aula. Posso pegar seu caderno emprestado? Obrigada. Qual a resposta da questão 1? Não queremos colar na prova. Olhamos para prova. Não entendemos nada. Chuta D de Deus que dá certo.

Temos 20 e poucos anos.
Terminamos a faculdade. Graças a Deus. Colação de grau. Bora no barzinho comemorar com os amigos. Um jantar com a família. Estamos comemorando. Estamos formados. Desempregados também. Mandamos currículo para mil empresas. Precisa ter experiência para poder trabalhar, mas como criar experiência se ninguém está contratando? Nossos pais começam a ficar agoniados. “Na sua idade eu já trabalhava e tinha dois filhos”. Prosseguimos desempregados. Começamos o cursinho para passar em um concurso público.

Temos 20 e poucos anos.

Sonhamos com o amor das nossas vidas. Essa aí eu tenho certeza de que é a pessoa certa. Passou um mês. Enjoamos. Na verdade não queremos nada sério. Tem muita gente por aí. Saímos com uma galera. Pegamos geral. Carência. Enjoamos. Encontramos uma pessoa legal na balada. Essa aí eu tenho certeza de que é a pessoa certa. Passou um mês. A pessoa não é exatamente como eu pensava que o amor da minha vida ia ser sabe. É legal. Mas não tem aquela química. Tem aquela química. Mas é meio babaca. Ah vamos continuar solteiros mesmo. Vamos dar um like numa foto de 2005 do novo alvo. Será que vai entender a indireta? O like é retribuído. Coração dispara. Essa aí eu tenho certeza de que é a pessoa certa.

Temos 20 e poucos anos.

Estamos assustados. Largados no mundo. Não somos adultos. Não somos crianças. Podemos fazer algumas cagadas. Outras já estão fora de questão. As fazemos da mesma forma. O mundo é gigante. É minúsculo. É aterrorizante. O mundo é lindo. As pessoas são estranhas. As pessoas são incríveis. São os piores anos das nossas vidas. São os melhores anos da nossas vidas.

Temos 20 e poucos anos.

Ser apaixonado é diferente de ser trouxa


Era uma sexta-feira a noite. Não estávamos em Game of Thrones, mas o inverno  chegou. Havia muita frieza em todas as atitudes.

Era realmente necessário aguentar isso?

Eu estava no bar com o meu melhor amigo. Tremíamos com o frio que os nossos casacos falhavam miservalmente em bloquear. Para se distrair das rajadas de vento, meu amigo resolveu pagar uma cartomante – por brincadeira, não por crendice – para que lesse a minha mão. Ela chegou toda exótica, se apresentando como Baiana; pegou minha mão, falou coisas aleatórias e fechou seu discurso com a clássica frase: “você precisa dar valor a quem te valoriza”

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