Isabela Lima

Faz faculdade de design gráfico e não sabe escrever mini autobiografias. De vez em quando inventa de escrever uns textos nada a ver. Ama comer e come qualquer coisa. A não ser que tenha coentro. Odeia coentro.

Sobre visões nada a ver e ser solteira

Esses dias li uma frase que achei bem legal e me fez pensar em algumas coisas. Ela dizia: “Você chega em casa, faz um café, senta na sua poltrona favorita e não tem ninguém…Você decide se isso é solidão ou liberdade”. Esse texto podia ser sobre perspectivas e formas de se encarar determinadas coisas, mas não é. Esse texto é sobre relacionamentos, ou melhor, a falta de relacionamentos (amorosos, no caso). Eu não sei se é errado falar isso e, sinceramente, eu não sei nem se me sinto confortável em dizer, principalmente porque geralmente quando uma pessoa fica reafirmando uma coisa demais, na verdade ela acaba falando o contrário. Mas, para fins, digamos, de consistência textual, acho que vale a pena arriscar — Eu sempre achei que ser solteira tinha lá suas grandes vantagens. E sempre achei que não ter ninguém atrelado à você te abre um leque bem legal de possibilidades. Resumindo, ser sozinha tem um quê libertador que acho necessário pra qualquer pessoa, pelo menos em algum momento da vida. Só que no meu caso não é só um momento, ou pelo menos é um momento que busco prolongar muitas vezes. Não, eu não to desiludida com a vida ou com ninguém pra tá escrevendo esse texto e não, eu não sou revoltada-contra-casais-e-relacionamentos-só-porque-não-tenho-um. E também isso não quer dizer que quero morrer solteira e não quero me relacionar com ninguém nunca mais. Calma. Vamos por partes.

Conversando com uma amiga um dia desses sobre relacionamentos — e acho que vale a pena dizer que essa minha amiga pensa que nem eu e, sim, é solteira também, nós acabamos comentando sobre um conhecido que praticamente emendava um relacionamento no outro (quem não tem um(a) conhecido(a) assim que atire a primeira pedra). Mas o que mais encucava a gente é que esse conhecido pratica o que considero o fenômeno-da-pessoa-que-namora-pelo-simples-ato-de-namorar. As pessoas que aderem a esse fenômeno não namoram porque encontraram uma pessoa bacana e têm vontade de partilhar a vida com ela, mas sim porque simplesmente: 1. “chegou a hora” ou 2.“não aguentam ser solteiros” (tem também o 3. “estamos ficando há muito tempo e acho que temos que começar a namorar”, mas esse eu prefiro não comentar. Regras de etiqueta relacionamentais nunca foram muito o meu forte). Não vou me estender muito no motivo número 1 porque eu não tenho muito o que argumentar sobre isso além de não entender como se dá essa epifania da hora exata que se deve namorar, mesmo que seja com a primeira pessoa que surgir pela frente. Será que temos um timing biológico embutido tipo o do mito da idade certa pra engravidar só que pra relacionamentos? Que meio que nos avisa qual a hora certa pra largar as baladas hétero que tocam Oração? Ou será que o valor do saldo da conta corrente é diretamente proporcional à tomada dessa decisão? Fica o questionamento.

Mas é o motivo 2 que acho que me intriga mais. É que eu nunca entendi muito bem esse negócio de não aguentar ou sustentar uma vida de solteiro(a). E eu já ouvi isso de muita gente. Eu e minha amiga chegamos à conclusão que na verdade o que exatamente não se consegue sustentar é apenas uma pequena parte que as pessoas encaram como um todo. Ir pra balada todo final de semana, pegar todo mundo, despirocar geral e acordar de ressaca todo domingo podem fazer sim parte da sua vida de solteiro, mas ela não precisa se resumir a isso. Nós não somos uma seita que só aceita gente baladeira e despirocada e que caso você queira ficar em casa de boa vai levar advertência. E eu acho que é isso que muita gente não entende. E acha que pra poder ficar em casa, ir no cinema, comer umas coisas gostosas, fazer “coisas de casal”, você, necessariamente, tem que ser, bom… um casal. Porque se você é solteiro você não pode fazer essas coisas. Você tem que ir na balada que todo mundo tá indo. Você tem que postar a música Oração no snapchat (parei). Você tem que bombar seu insta. Você tem que dar pt quase todo mês. E você, principalmente, tem que pegar uma ou várias pessoas nesse meio tempo. E, realmente, se for pra ser assim, acho que ninguém sustenta. E eu digo ninguém mesmo.

Parece que recebemos um manual de instruções sociais que restringe o que você pode ou não fazer quando solteiro ou namorando. Só que não é assim. Ser solteiro também pode ser ficar em casa sozinha(o) vendo besteira na internet, vendo um filme/série debaixo do cobertor. Ser solteiro também é ir no cinema, é comer pizza no domingo, é ficar de boa. Você não precisa namorar pra fazer essas coisas. Assim como você também não precisa ser solteiro pra ir pra balada e beber todas.

Eu tenho uma amiga que namora há muitos anos e tem um relacionamento ótimo, e ela diz pra mim que ela precisa ter um me time pra fazer as coisas dela, ver Kardashians sozinha sem ninguém julgar etc. E eu acho que ser solteiro é ter me time 24h. Seja na balada ou em casa. Seja maquiada de salto 15 ou de pijama com a meia furada. É maravilhoso ser solteiro quando você entende que não é nada além de simplesmente ser você e fazer o que você quer. É maravilhoso namorar quando você entende a mesma coisa. Os dois podem ser ótimos, desde que aconteçam naturalmente, sem planejamento nem data e hora marcada pra fazer x ou y. Sem regras implícitas que você inventou na sua cabeça e acha que é o normal. E parar de deixar isso reger sua vida, como se seu estado civil determinasse todas as decisões e experiências que você deve ter. Calma, é só um rótulo pra organizar a galera. Você quem decide se é solidão ou se é liberdade.

Relacionamento Fast-Food

Nos conhecemos numa festa aleatória num lugar apertado que mal dava pra andar sem esbarrar nas pessoas. Ele era conhecido de uma amiga minha. Achei bonitinho. Me interessei. Conversamos amenidades num lugar onde não dava para conversar amenidades. A caixa de som gigantesca atrás da gente pulsava uma música irreconhecível por causa do grave que latejava na minha cabeça. Vamos sair daqui, não tô escutando nada. Fomos para um canto que não era canto e tinha espaço de sobra. Conversamos sobre coisas que nem me lembro mais. Aliás, não me lembro de várias coisas. Dali a duas horas eu já tava pensando em como ele era a pessoa mais interessante que eu conheci nos últimos tempos. Uma da manhã eu já tava planejando o nosso primeiro encontro num lugar bem diferente fazendo um programa que nunca fiz com ninguém. Ele ia me achar muito interessante e imprevisível e ia falar sobre como eu pensava diferente e como isso era surpreendente. Duas da manhã eu já tava pensando como seria apresentar ele pros meus amigos e todos nós sairmos pra uma balada juntos, pra depois eles me contarem sobre como a gente combina e como eles o amaram. Três da manhã, enquanto a gente dançava desajeitado ao som de um música brasileira dessas que todo mundo conhece, eu já tava prevendo a nossa primeira briga depois de meses enrolando sem decidir nada sobre o nosso “relacionamento”. Ia ser uma briguinha boba, dessas que no meio a gente já nem lembra porque começou e ia servir pra gente perceber o quanto a gente se gosta. Até nas minhas fantasias os relacionamentos são complicados. Quatro da manhã e eu já tava pensando nos próximos aniversários de amigas que tenho marcados na agenda e de como eu ia poder levar ele e apresentá-lo pros namorados delas pra eles conversarem amenidades enquanto a gente fofoca sobre alguma coisa nova que as Kardashians fizeram. Cinco da manhã e eu já tô achando tudo incrível. Ele é a pessoa mais interessante do mundo. Como que eu não conheci ele antes? Vou fazer o mapa astral dele quando chegar em casa. Era sagitário com o que mesmo? Ele tem uma lua, ascendente, planeta ou satélite em comum comigo. A gente tem tudo a ver. Eu não quero ir embora. Quero ficar mais. Seis da manhã e não tem mais ninguém na festa. Tá na hora da gente ir embora. Seis e quarenta e cinco a gente já tá no Uber e eu já tô em êxtase pensando em como fomos felizes nesses meses de relacionamento que eu já vivi na minha cabeça. A gente se despede, eu entro em casa e durmo abraçando o travesseiro imaginando que é ele. No outro dia acordo e o êxtase passou. Tá mais com cara de ressaca. O travesseiro era só o travesseiro, sem personificações. Ele nem era tão interessante assim. Acho que ele tem cara de quem faria aquela coisa que me irrita. A gente não ia dar certo, ele demora pra responder mensagem de propósito. Eu não lembro muito bem se ele era tão bonito assim. A camisa dele tava ao contrário.

Levanto, faço um suco verde e vou perguntar pras minhas amigas o que eu perdi enquanto namorava por todos esses meses numa única noite. A gente terminou. Vida que segue.