Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

O passado bateu em mina porta e eu a-bri

Senhoras e senhores, ponham a mão no chão e se segurem porque quando o passado visita é pior que terremoto, furacão e tsunami. E foi por esse turbilhão violento vindo por terra, ar e mar que duas amigas queridas foram pegas de surpresa e estão tendo que remexer nos escombros do que já foi destruído para resgatar uma parte de suas vidas. Mas cá entre nós, quem nunca abriu a porta pro passado e descobriu que ele não sabe a hora de ir embora? Quem nunca se distraiu e caiu no buraco negro do mal resolvido? “Quem tem, tem medo”e quem tem passado, tem pânico.
​Uma amiga terminou um namoro longo ano passado. Desde então está se relacionando com uma pessoa nova e tem sido, como diz Chico Buarque, “tipo festa sem fim”. Tudo muito bom, tudo muito bem até que, olhando o facebook para matar o tempo, dá de cara com uma foto do ex namorado abraçando uma garota com uma legenda bem melosinha. Tudo para por um segundo. Ela não respira, o coração acelera, os olhos se arregalam, a boca fica seca e começa um leve tremor nas mãos. Me contando sobre isso, ela diz que quis até chorar de tristeza e raiva. Veja bem, ela que decidiu terminar o namoro com ele, pois não o amava mais. Ela foi a primeira a superar e começar a namorar outra pessoa. Mas foi ela quem quase morreu quando viu o ex namorado e a partir daí houve um desabamento de estruturas emocionais. Ela não quer voltar atrás, nem deixou de amar sua nova companhia, mas o passado não estava tão bem passado assim.
A outra amiga teve um irmão por parte de pai quando já era bem mais velha. Hoje ela tem 30 anos e o irmão tem 5 anos, uma fofura. No entanto, ela vê o pai deles agindo com o irmão como agia com ela e cometendo os mesmos erros que a levaram para a sala de um terapeuta durante anos. Ela carrega feridas que foram abertas no momento em que ela viu seu pai terceirizando a educação do seu irmão ou gritando com ele de forma injusta. O passado estava cochilando dentro dela e despertou com tudo, trazendo uma angústia e nostalgia que a fizeram voltar pra sala do psicólogo para tentar enterrar de vez esse passado dorminhoco.
Às vezes é mais fácil calar o passado do que deixar ele falar. Não dá tempo de pensar e dá preguiça, dá desgaste, dá sono, dá negação, dá fuga e hoje, dá confusão. Quando a gente não fecha as portas direito, elas se abrem com um vento mais forte. Quando a gente não mastiga a comida, fica difícil digerir. A falta do luto ou do período de amadurecimento faz a gente ter pendências que serão cobradas com juros. Ter que tomar chá com o passado na casa do futuro é muito difícil. É a dificuldade de ter ciúmes do ex com o namorado atual do seu lado ou de querer tirar seu irmão dos braços do seu pai e levar pra sua casa. Resolver os problemas do passado é esvaziar uma mochila pesada que não deixa a gente andar direito. A mochila pesada nos atrasa e nos cansa, fazendo com que tenhamos que parar para respirar de tempos em tempos. É necessário que a gente abra a mochila e investigue todo o seu interior para podermos decidir o que vai e o que fica, nos libertando assim de mágoas antigas, frases nunca ditas, choros engolidos ou até mesmo daquela pesquisa insistente no facebook de alguém só pra manter a raiva em dia.
​A vida pode ser muito mais suave quando a gente zera o jogo. Você pode não ter feito isso na época certa, mas sempre é tempo de se libertar. É preciso parar, encarar o passado, discutir com ele, sangrar, chorar, mas mandar ele ficar do lado de fora. Você nunca vai esquecer que ele existe, claro, mas não precisa leva-lo nas costas. Deixa ele aí e anda pra encher sua mochila com coisas novas. O passado vai bater na sua porta, mas não abre não. Abre a janela que a vista é linda.

Minha irmã vai casar

Minha irmã decidiu casar. Minha irmã, quatro anos mais nova que eu, decidiu casar. Ela já namora há milênios e eventualmente isso iria acontecer, mas eu não imaginava que seria tão cedo. Ter minha irmã em casa é ter uma parte de mim ali, no quarto ao lado, querendo me mostrar um vídeo engraçado no youtube, me contando uma fofoca ou rindo de quando eu imito meus pais. Mas ela vai sair de casa, ter a casa dela, a família dela e mais: em outro país.

É razoável eu ter saudades antecipadas e já começar a pensar em tudo o que vai faltar na minha vida daqui pra frente, mas o que me surpreende diariamente é a reação das outras pessoas quando eu falo sobre isso. Elas não pensam em como eu vou sentir falta da minha irmã ou em detalhes do casamento. O primeiro e principal comentário é “sua irmã passou sua frente, hein.” É sério. As pessoas realmente pensam isso e se assustam quando eu não entendo a brincadeira.

Veja bem, minha irmã sempre seguiu mais a cartilha da vida, coisa que, aparentemente, eu nem li. Aos 18 anos eu decidi que queria morar fora, arrumei um emprego e caí no mundo. Aos 18 anos minha irmã estava no pré-vestibular para ingressar no curso de odontologia, no qual ela se formou no tempo esperado e hoje trabalha com isso de segunda a sábado. Curso superior? Comecei três. Mudei de ideia várias vezes, me formei em um, trabalhei em dois empregos diferentes e joguei tudo pro alto pra estudar medicina. Minha irmã namora a mesma pessoa desde que o outono é sempre igual e as folhas caem no quintal. Eu namorei, desnamorei, namorei um tempão, terminei, vivi solteiríssima por um tempão e conheci meu atual namorado há seis meses e estou naquela fase incrível que a gente quer que dure para sempre.

Acho que já dá pra entender que a vida da minha irmã seguiu um rumo totalmente diferente da minha. As pessoas realmente esperam que, como irmã mais velha, eu tenha a vida mais estruturada antes dela, mas quem disse que minha vida é desestruturada? Quem disse que a gente precisa seguir os dez passos do sucesso para ser feliz? Quem disse que você precisar acertar de primeira? Quem disse que você precisa casar, ser bela, recatada e do lar? Quem disse que você não pode ser feliz de outro jeito?

Dizem que a gente nasce, cresce e morre. Eu acredito que a gente nasce, cresce, tem expectativas, absorve expectativas dos outros, tenta corresponder a todas essas expectativas e morre tentando fazer isso. Por anos eu achava que a minha vida deveria seguir a cartilha oficial e se isso não acontecesse, seria o fim do mundo. Tentei criar metas, planos muito objetivos e seguir por eles. Só que não deu. A vida não é uma planilha do Excel, felizmente. Muita coisa mudou meu rumo, conheci muito mais gente que eu imaginava, refiz minhas metas de ano novo umas mil vezes ao longo do mesmo ano, viajei mais que o esperado, tenho histórias de uma vida pra contar, aprendi a tocar violoncelo, dei aula em curso de inglês, recebi mais de duzentos intercambistas por semestre e consegui casas de família para todos eles morarem, voei de Alaska Airlines, lutei jiu jitsu, ouvi sobre a vida de muita gente interessante, descobri  que contos de fadas não existem, me apaixonei por um amigo de um amigo,  ausculto pulmão muito bem, trabalhei na Disney, morei no Queens, entre tantas outras coisas que eu não teria feito se seguisse as regras que só existem na nossa cabeça.

Não vou entrar no clichê de dizer que todas as coisas acontecem por uma razão, mas todas as coisas acontecem por uma razão. A gente pode não entender na hora, mas há lucro em tudo o que a gente faz. Conheci meus melhores amigos em um estágio que não tem relação nenhuma com o que eu faço hoje, por exemplo. Há aprendizado e aquisições em tudo o que a gente faz, mesmo seja a certeza de que nunca mais faremos alguma coisa novamente. Já experimentamos e podemos dizer com certeza que algo não cabe na nossa vida. Obviamente eu não estou falando em ganhos financeiros, isso tem muito pouco e um minuto de silêncio por esse fato, mas tem tanta coisa mais valiosa que dinheiro. E te digo mais: isso é uma descoberta que você só faz quando não vive a cartilha, ou pior, quando vive a cartilha e se arrepende profundamente ao perceber que não pode voltar atrás e fazer tudo o que você gostaria de ter feito.

Não tenho ideia de quando vou casar ou se eu vou casar. Estou muito feliz pela minha irmã que vai casar. Estou muito feliz com a vida que eu levo. Estou muito feliz com todas as reviravoltas da minha vida. Estou muito feliz por ter conhecido todos os meus amigos. Estou muito feliz por entender hoje que a vida pode ser leve e eu não preciso planejar cada passo. Estou muito feliz por demorar a entender a frase “sua irmã passou a sua frente”. Estou muito feliz por saber que as pessoas vivem vidas diferentes e que isso é encantador. Estou muito feliz por nada nessa vida ser de fato uma competição. Estou feliz. Simplesmente feliz.

Pelo fim da cultura do estupro

Pintura por Dino Valls
Pintura por Dino Valls

Essa semana foi trágica para uma mulher. No Rio de Janeiro, uma menina menor de idade foi estuprada por 30 homens enquanto estava desacordada. Ela era menor de idade, tinha um filho, era usuária de drogas e foi para uma festa em uma comunidade. Ela tem uma família, foi criada na cidade do Rio de Janeiro e frequentou a escola. Ela brincou quando era criança, ela tem amigos, ela tem histórias engraçadas pra contar, ela tem desilusões amorosas, ela tem um perfume preferido, ela gosta de mexer no cabelo, ela já amou e foi muito amada, ela já vibrou com um jogo da copa do mundo, ela já chorou vendo um filme, ela já pintou as unhas de vermelho, ela se preocupa com o peso, ela tem planos pro futuro, ela gosta de sair pra dançar, ela gosta de conhecer gente nova e dar uns beijinhos, ela parece comigo. Fui eu naquela cama. Foi a minha irmã. Foi você. Foi a sua filha.

Não conheço ninguém que apóie ou aprove o estupro, mas conheço pessoas que o justificam. Pessoas do meu ciclo social, graduadas, pós-graduadas, professores, médicos, advogados e pais (pais de meninas, inclusive). E mães. E outras mulheres. Acredito que muitas pessoas tenham ouvido ou lido nas redes sociais que “é um absurdo, mas o que ela estava fazendo numa festa na favela?”, “ela tava bêbada, né?”, “mas ela tinha filho nessa idade…” entre tantas outras falas que tentam dizer que, na verdade, ela não é tão vítima assim. Entenda, as pessoas que pensam assim nunca estupraram ninguém, nunca forçaram mulher nenhuma a nada, mas elas são parte da cultura do estupro. Você não precisa ser uma pessoa violenta pra colocar combustível nessa cultura, na realidade, você nem precisa ser homem para estar inserido nesse contexto. O ato da violência sexual física é apenas a superfície disso tudo. Nós nascemos na cultura do estupro e é muito difícil sairmos dela, mas estamos em estado de calamidade pública. Precisamos fazer um esforço coletivo para rompermos com essa cultura na qual eu garanto que você está inserido de alguma forma.

Sabe coisa de homem? Sabe aquele pai que diz pro filho que ele tem que bagunçar as meninas? Essa é a cultura do estupro. Um homem só se prova homem se tiver relação sexual com uma ou, de preferência, várias mulheres. Mas tem que ser coisa completa e que traga os louros pro pai e amigos. Moleque macho esse! Sabe aquele vídeo pornô violento que não tem relação nenhuma com a vida sexual de pessoas normais? Sabe aqueles caras que assistem a isso com admiração e fazem comentários bem parecidos com os que os estupradores fizeram nas fotos da vítima de estupro no twitter? Essa é a cultura do estupro. Sabe aquele vídeo ou nude que a menina manda pro namorado e ele vaza pra um amigo? Sabe quando esse material vai parar num grupo de homens no whatsapp e todos se divertem muito com isso? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando um cara assiste a isso e se cala? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando uma mulher fala que a outra é vadia por causa das histórias dela com outros homens? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você escolhe chegar na menina mais bêbada da festa porque vai ser fácil? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você dá essa dica para um amigo? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você fala que a menina saindo de madrugada deu mole pra ser estuprada assim como um homem que, na rua de madrugada, deu mole pra ter seu celular roubado? Essa é a cultura do estupro.

A cultura do estupro é quando a gente reforça a ideia de que o corpo e a nudez da mulher podem estar vulneráveis ao homem e isso se torna banal. Seja para um ato físico, um comentário ou pra um compartilhamento de material na internet, o corpo e a vida da mulher nunca, NUNCA, está disponível para quem ela não quer que esteja. A vida sexual dela não é um prato para você degustar com seus amigos, seja em comentários, seja com imagens e, principalmente, por violência física. É preciso desconstruir a base da cultura do estupro para, então, fazer com que esse ato seja globalmente compreendido como violência intensa sem justificativas. Os 30 estupradores da moça acharam normal, legal e divertido compartilhar as imagens dela no twitter porque não vêem nada demais no que aconteceu. Ela estava na festa, ela estava bêbada, ela é mulher, eles são homens e ela está desacordada. Simples assim. Essa linha de raciocínio não se forma em 5 minutos. Isso é fruto de uma cultura propagada por homens e mulheres. Uma cultura na qual é mais importante ensinar a mulher a evitar o estupro do que ensinar o homem a não estuprar. Uma cultura na qual a saia curta é mais culpada que o vizinho que vigia as meninas na piscina com um binóculo. É a cultura do estupro que nos desumaniza a cada dia.

Quando eu era criança, minha mãe me falava para eu gritar caso percebesse algum homem me assediando. Hoje é necessário que todos gritemos a plenos pulmões para rompermos o silêncio da cultura do estupro. Não dá mais para apenas observarmos. É hora de rompermos esse ciclo com gestos claros e definitivos desde a base para que eu não veja meu rosto estampado entre os 30 estupradores. Essa semana foi trágica para uma mulher. Para todas as mulheres. Para todos os seres humanos.

Ninguém vence quando só um joga

Arte por Jon Holcroft
Arte por Jon Holcroft

No final do ano passado decidi que iria praticar um esporte. Já fazia musculação há alguns anos, mas musculação é exercício, não esporte. Procurei, pesquisei, pensei e não encontrei nada com potencial de me fazer levantar do sofá numa noite de verão em nome da saúde e boa forma. Então, uma amiga me sugeriu fazer um treino experimental de jiu-jítsu com ela. Aceitei e, para minha surpresa e de todos que me conhecem, me apaixonei pelo esporte.

Em dois meses de treino, além de sofrer infinitas finalizações dos meus adversários, aprendi o que não se percebe no primeiro olhar. Pra você ganhar uma luta, não basta ter força ou técnica perfeita. Não adianta ter energia, juventude ou ser enorme. Tem mais chance de ganhar quem incomoda ou cansa o adversário. Você precisa ser ardiloso o suficiente pra segurar seu adversário numa posição da qual ele gaste muita energia pra sair. Se você deixar o outro exausto, sem forças e precisando urgentemente respirar fundo, você vai levar vantagem.

Na semana passada, uma amiga contou sobre o rapaz com quem ela estava saindo. Um jogador profissional! Não jogador de cartas ou de basquete, mas jogador no flerte. Era um tal de morder e assoprar, de ameaçar desmarcar o jantar de sexta porque lembrou de um exame, um tal de morrer de saudade e nunca ter visto alguém tão linda, um tal de abrir mão de tudo pra passar o carnaval com ela e sumir por três dias logo depois, um tal de “oi, minha musa”e “não vai dormir aqui não, né?”, enfim, desses que tem prazer em dominar a situação.

Se esses caras usassem esse dom pra praticar jiu-jítsu, eles seriam faixa preta em tempo recorde! Assim como na luta, ele precisa ter certeza de que a moça está na guarda dele. Ele não quer apenas uma noite boa e adeus. Isso ele conseguiria sem muito esforço e com mais honestidade. Ele não precisaria pagar tanta paixão pra isso em pleno século XXI, especialmente em época de carnaval. Ele quer envolver a guria emocionalmente, prometer mundos e fundos pra garantir que ela vai pro tatame a hora que ele quiser. E já vai chegar rendida. E vai sofrer quando ele não quiser mais brincar.

No entanto, esse jogo é cansativo. Ouvi os relatos de uma amiga exausta, não apenas por esse rapaz, mas porque encontrou muita gente que jogava até que as energias dela se esgotassem.  É cansativo ter que resistir e ficar em estado de alerta o tempo inteiro. Tentar mapear e antecipar os passos da outra pessoa para evitar que te machuquem é coisa que te faz suar, emagrecer e querer chegar logo em casa. Gasta muito ATP e gasta o coração também. Esgota as forças e as esperanças de que um dia possa haver uma entrega de olhos fechados, sem medo de ser finalizada no primeiro golpe.

Quem decide fazer artes marciais, por mais que seja hábil, tem que estar ciente de duas coisas. Você sempre vai se machucar e todos são seus adversários. É impossível terminar um treino sem uma dorzinha ou um hematoma. Você pode ter acabado com todo mundo, mas vai estar quebrado no dia seguinte. Quem cansa os outros, acaba se cansando também. Quem machuca com força, sempre sai com dor muscular e pode até se contundir gravemente. É uma via de mão dupla e quem domina a luta só vê o estrago no dia seguinte, com o corpo frio e o coração mole. Não há parceria na luta. Se você luta contra alguém, essa pessoa se torna automaticamente sua adversária e, naquele momento, ela só quer sair dali ou acabar com você. Em qualquer uma das opções você não é querido e, definitivamente, não é lembrado com carinho.

Quem faz jiu-jítsu sabe que uma hora aquilo vai acabar. Você vai tirar o quimono e ter conversas divertidíssimas com os colegas. Já quem vive numa luta infinita não tem refresco e gargalhadas inocentes. Esse lutador em tempo integral não pode descansar porque lida apenas com adversários e tem objetivo de dominar, cansar e machucar. Minha amiga, quem ganhou essa disputa foi você que soube bater e tirar seu quimono a tempo. Deixa o rapaz montar as estratégias dele nesse tatame solitário e vem pra cá que no fim do treino tem muita vida lá fora.

Tenho ranço do caminho

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Cresci ouvindo minha mãe dizer que ela “tem ranço de algumas coisas”. Não sei se isso é uma expressão exclusivamente norte-fluminense, de onde ela é, mas acho uma descrição fantástica pro sentimento de repulsa e preguiça que temos de algumas coisas. É aquela imagem exata da manteiga que ficou velha e rançosa (meio talhada, meio oleosa) e você, além de automaticamente fazer cara de nojo ainda pensa que vai ter que jogar aquela manteiga fora e lavar a manteigueira engordurada. Isso é ranço e eu tenho certeza que você, assim como eu, tem ranço de alguma coisa.

Tem gente que tem ranço de música dos anos 80, tem gente que tem ranço de atraso, tem gente que tem ranço de lerdeza, tem gente que tem ranço de alegria matinal, tem até gente que tem ranço de quem que posta fotos de cachorros abandonados e nessa pluralidade de ranços, eu tenho ranço é de trajetos. Só de pensar no caminho que eu tenho que percorrer de um ponto A até um ponto B da cidade já me joguei no chão e fiz uma pirraça que envergonharia qualquer adulto. Talvez isso explique meu encantamento com o metrô. Ou o fato de eu morar na zona oeste do Rio e metrô ser algo muito distante da minha realidade, não sei, mas o fato é que metrô resolveria a minha vida. Deixar uma estação, entrar num túnel escuro por alguns minutos e sair no seu destino é quase teletransporte. Um teletransporte apertado, de fato, sem lugar pra sentar e às vezes abafado, mas o trajeto, ah, esse passa em branco, ou melhor, em preto.

Se eu pudesse, transformaria a vida inteira numa viagem de metrô. Acabou essa fase? Tem que mudar? Não está bom aqui? Você até queria ficar, mas não dá? Entre nesse metrô maravilhoso e saia em outro lugar, em outro momento ou em outro ano, sem precisar do ranço do trajeto. É entrar quieto, passar uns momentos no túnel escuro e descortinar o outro lado. Mas a vida não é um metrô. A vida é uma viagem longa de ônibus e não importa se você está na janela ou no corredor, vai ter que acompanhar a estrada.

Guerreiro mesmo é o que acompanha a viagem de olhos abertos e vê os carros ao redor, o trânsito parado, a antipatia da moça do pedágio, crianças reclamando, o rapaz de trás enjoando, a senhora da frente com dificuldade de achar a palavra “céu” na cruzadinha, a mudança da paisagem, o tempo fechando, a chuva na estrada, a ultrapassagem perigosa e , enfim, os portões de entrada do seu destino. Não tem refresco pra quem acompanha o tempo passar minuto a minuto até o final da viagem. Tenha você saído do seu ponto de partida por vontade própria ou porque foi empurrado de lá sem chance de protesto, o trajeto nunca é indolor. Noites em claro, choro, raiva, mágoa, náuseas, falta de apetite, apetite em excesso, detalhamento de erros, medo de não chegar nunca no destino e todos os tipos de infortúnio acometem o viajante que está no entrelugar.

No entanto, é preciso estar desperto para ver a paisagem mudar durante o trajeto e se dar conta de que a viagem está evoluindo. Perceber que já pode pegar a bagagem e desembarcar, é ter a certeza que você não está mais no local de onde saiu, sobreviveu ao trajeto e chegou, mesmo cansado e jurando que nunca mais viaja novamente, você finalmente chegou. Apesar dos percalços e da ansiedade pela chegada, o trajeto tem sua beleza. Quem nunca viu um arco-íris depois de uma chuva na estrada? Quem nunca contemplou pedaços lindos da natureza enquanto olha pela janela? Temos a chance de fazer ótimas leituras na viagem, ouvimos músicas que acalmam o coração, conhecemos pessoas novas e temos tempo para conversas longas, dessas que organizam a mente, estreitam os laços e nos mostram que outras pessoas também sofrem o trajeto.

Há pessoas que roubam no jogo, tomam um comprimidinho e apagam. Essas pessoas também chegam no destino, certo? Olha, até chegam, mas para elas a viagem só começa depois do desembarque. Quando todo mundo vai dormir exausto, elas sobram acordadas porque dormiram na hora errada. Essas pessoas levam tempo para se acostumar com o novo lugar, com o novo clima e, por vezes, carregam uma dor danada no pescoço porque o sono do trajeto nunca é confortável, por mais alta que seja a dose do Rivotril. Encarar o trajeto de olhos abertos é uma forma de manter a sanidade, de saber exatamente por onde passou.

Como uma boa carioca, não tenho muitas esperanças na expansão rápida do metrô do Rio, então, aqui eu vivo e aqui encaro trajetos de ida e volta, todos os dias, mesmo com ranço. O jeito é pegar um detergente e curtir a viagem. Mas é melhor assim. Depois de conhecer tão bem todos esses trajetos, tenho certeza que um dia não vou mais ser passageira. Um dia, quem vai dirigir esse ônibus sou eu.

Preguiça de você

Acordei e ainda estava escuro. Olhei o relógio que marcava 4:00 da manhã e me virei na cama para voltar a dormir, mas o sono havia me abandonado sem piedade. Deitada na cama quente ouvindo o barulho do ventilador numa madrugada chuvosa e inesperadamente fria no meio do verão carioca, pensei em você. Claro que pensei em você, se não estou extremamente ocupada com qualquer coisa, minha mente se transporta rapidamente pra você. Confesso que já foi pior, mais intenso e mais doloroso. Já foi muito bom também, sem dúvidas. Pensar em você já foi um parênteses de alívio em meio à confusão. Isso quando estávamos na nossa melhor fase e eu acordava horas antes do despertador com o coração acelerado por saber que te encontraria logo de manhã. Ria sozinha das nossas piadas e planejava tudo que iria te contar sobre meu dia quando você viesse me buscar pra jantar. Eu costumava sorrir só de pensar em como nos divertiríamos com os acontecimentos inusitados que dividiríamos com muito humor e como eu amava seus comentários! Tão interessados, divertidos, sarcásticos e inteligentes; sempre melhoravam qualquer história.

Com exceção daquele dia. Qual dia? Vai dizer que não se lembra? Aquele fatídico almoço, aquele no qual você estava estranho, apareceu meio barbado e com um olhar frio. Não segurou minha mão, não fez muita piada e me deu a desculpa do trabalho pra justificar o evidente fim. Estava sempre cansado, gripado e covarde pra assumir o que realmente estava acontecendo. Você havia sido tão corajoso meses antes ao enviar uma mensagem para a desconhecida que eu era “Uma vizinha com bom gosto musical. Tudo bem?” O que aconteceu com essa coragem na hora de se despedir? O que aconteceu com essa coragem na hora de dizer que já não queria mais ou que havia encontrado outra pessoa? A corajosa fui eu, querido. Eu que te encarei naquele almoço nebuloso e pedi pra você me dizer o que estava acontecendo. Eu que disse que estava tudo diferente e preferia mais ou nada. Eu que deixei claro que não gosto de meio termo. E você disse em voz baixa que iria mudar, que tinha interesse. Eu, corajosa, decidida e crédula, sorri mais uma vez com você. A última vez.

Depois daquele dia veio seu sumiço. O silêncio pesado que me imobilizou por dias e me encheu de dúvidas e tristeza e medo e ausência. Nenhuma palavra, nenhuma explicação. Apenas a promessa de mudança e o fato de você estar se mudando de mim. Tentei rir disso, até consegui fazer outras pessoas rirem disso. Você me conhece e sabe que eu não aceito tragédias que não tenham um viés cômico. Sabe como eu me divirto com minhas desventuras, mas dessa vez eu não consegui. Minhas tentativas vazias de achar alguma graça nisso tudo não surtiam efeito em mim. Mas chorar, eu chorei e chorei muito, chorei diariamente, sozinha, no banho, no carro, no quarto e no banheiro público. Chorei correndo na esteira e caminhando na rua. Chorei o choro da incompreensão, do abandono, da minha ingenuidade e, muito especialmente, chorei pelo que poderia ter sido e não foi. Eu tinha saudades de você e dos nossos dias, mas, querido, tinha muita nostalgia pelo que ainda não tinha acontecido. Sonhos frustrados se transformam nos piores pesadelos. Pensei muito em você. Pensei em como você estaria, no que estaria fazendo, se conseguia dormir e se pensava em mim. Imaginei você querendo me contar o que estava acontecendo, imaginei você escolhendo as melhores palavras ou se martirizando por não conseguir falar. Nessa fase, pensar em você me machucava demais e era uma constante nos meus dias. Era sentir dor crônica. Eu merecia aposentadoria por invalidez, sinceramente.

Hoje eu ainda penso em você, especialmente na madrugada, mas é diferente. Hoje eu penso em como você foi impessoal me explicando por mensagem que havia conhecido outra pessoa. Como foi irritante receber sua justificativa pífia por não ter dito nada antes, pois não sabia como falar. Como foi cruel me deixar um mês no escuro, apenas com a lanterna da sua promessa. Apaguei nossas conversas, seu número e qualquer possibilidade de entrar em contato com você, mas guardo os prints dessas últimas mensagens como souvenir. Voltei a eles essa madrugada. Senti a necessidade de reler suas palavras tão diretas e calculadas, palavras essas que surpreendentemente não me machucam mais. Foi como calçar um sapato que já feriu tanto o pé que formou um calo. Sabe aqueles calos que mostram como a gente se cura e pode calçar o pior dos sapatos que não vai machucar mais? Foi isso. Ler sua mensagem me mostrou que estou calejada. Não vou mentir. Claro que fiquei buscando alguma pista do dia em que você se interessou pela outra pessoa. Repassei suas palavras e domingos de partidas intermináveis de futebol. Claro que também pensei em como seria bom te encontrar e mostrar pra você que já passou. Abrir meu melhor sorriso e te cumprimentar educadamente, com minha melhor roupa, bem maquiada, com aquele perfume que você adorava e um acompanhante mais alto, mais lindo e mais novo que você. Está aí uma cena que me faz rir hoje, rir tão intensamente quanto eu ria das nossas piadas. Mas eu sei como é a vida e sei que provavelmente vou te encontrar saindo da academia, suada, descabelada e vou te evitar. A vida não permite vingancinhas infantis. Ela permite recuperação de verdade, e isso é coisa de adulto. Pra ter uma revanchezinha dessas de novela, a gente tem que manipular as coisas, programar e, querido, eu não tenho energia pra isso. Não com você. Não agora. Hoje eu tenho preguiça de você, preguiça de lembrar, preguiça de sorrir pra você. É tanta preguiça que voltei a dormir em berço esplêndido. Você é como um filme ruim. Tortura-me por horas, mas, por fim, dá um sono danado que cura qualquer insônia.

Ninguém é de ninguém e essa é a melhor parte

“A notícia é velha”, me disseram, mas se você, assim como eu, costuma ir procurar água em Marte de vez em quando, deixa eu te contextualizar. Há algumas semanas, a cantora Ivete Sangalo estava arrasando, como sempre, num show na Bahia quando flagrou seu marido conversando animadamente com uma mulher. Ela, então, interrompe o show e do palco faz a pergunta que já virou jargão popular: “Quem é essa aí, papai?”.

Tenho certeza que até o carnaval todos teremos camisas, canecas, copos e piadas internas com os dizeres da cantora. Nada mais divertido e contemporizador que fazer piada e levar com bom humor os desconfortos da vida. No entanto, ao assistir incrédula a uma médica muito bem resolvida defendendo a reação da Ivete no meio da madrugada do plantão no qual eu estava, percebi que vale um segundo olhar sobre o acontecido.

Sem dúvidas é compreensível que frente a uma cena que provoque ira ou mágoa, todos, invariavelmente, estamos vulneráveis a perdermos a cabeça e reagirmos de forma a surpreender até o mais apático dos blasés, mas em que a reação da Ivete melhora o fato do marido dela ter se aproximado de outra pessoa de maneira, considerada por ela, indevida? Repreender uma possível quebra do acordo de fidelidade em público evita que o ato se repita futuramente? Isso ameniza as intenções do parceiro? Faz com que a outra pessoa pertença a você? Te valorize mais?

Se pensarmos na questão do ciúme, primeiramente, temos que partir do pressuposto que quem sente ciúmes acredita que o outro pertence a ele em algum aspecto, o que é perturbador pois pertencimento e obrigatoriedade são os piores motivos pelos quais alguém pode permanecer ao seu lado. Ninguém consegue obrigar outra pessoa a sentir amor ou vontade de estar junto e deve ser muito doloroso saber que o relacionamento continua porque há algo que prenda o seu parceiro. Algo que, no minuto em que não existir mais ou não for relevante, será ignorado e não vai mais funcionar como âncora. As pessoas precisam ser livres para ficar e para ir embora e, se ficam, é porque querem e porque consideram que é melhor estarem ali. A certeza de que o outro tem vontade de estar com você é o que gera segurança em um relacionamento. Prisões são violadas, fugas acontecem, grades se quebram, cercas se abrem, guardas cochilam, filhos crescem, mas a vontade genuína de ficar vai além das fragilidades contextuais.

Se pensarmos na questão da fidelidade, temos aí um acordo entre duas pessoas as quais decidem que o relacionamento deve ser exclusivamente entre elas. Fidelidade não é lei e juiz nenhum nesse mundo pode obrigar alguém a ser fiel. Isso é uma escolha racional e diária mesmo que outras tantas pessoas lindas, mais jovens, mais bem sucedidas e muito interessadas (e interessantes) apareçam, uma vez que essas qualidades não são razão para se cogitar um envolvimento quando a fidelidade está no pacote. Respeito ao acordo, respeito ao outro e a si mesmo são os elementos que sustentam a confiança de forma muito mais consistente que qualquer decreto-lei. Estar com alguém que possivelmente não te ama ou não te respeita é tortura e não há estrutura emocional que agüente a desconfiança diária. Pessoas que não sabem brincar num contexto de fidelidade devem procurar outro parquinho no qual esse brinquedo não precise estar presente de modo a evitar machucados profundos.

Por fim, há a questão do amor próprio. Essa é a questão mais complicada, pois somos a geração do Facebook e nesses tempos é necessário que curtam a nossa foto para que nos consideremos bonitos, que nos sigam no Instagram para sabermos que temos uma vida interessante, que compartilhem nossas falas no Twitter para sermos pessoas legais e que nos respeitem e nos amem para nos sentirmos dignos desses sentimentos. Quem se considera digno de amor e respeito, não precisa pedir isso aos outros. Quem tem em si a confiança da sua identidade, do seu valor, não precisa lembrar isso ao parceiro. Quem sabe que merece viver um bom relacionamento, não aceita a necessidade de manter o parceiro sob vigilância. É lamentável que por vezes assumamos a postura de quem precisa defender o parceiro de um ataque quando ele deveria estar se defendendo sozinho. Se ele não quer fazer isso, é hora de repensar essa parceria. Quando você sabe o quanto você vale, quando você se ama a ponto de não aceitar perder sua tranqüilidade ou ter seu show interrompido pela insegurança em seu parceiro, você deveria cantar em outra freguesia. Sua performance vale muito mais que uns gritos indignados no microfone, te garanto.

Compreendo perfeitamente uma atitude impetuosa de raiva, mas está na hora de pensarmos se isso realmente vale a pena. Em dias em que se “chega rumando” e é ovacionado pela platéia por ter defendido o que é seu, prefiro a paz de saber que nada é meu. Quem estiver comigo, estará porque gosta e ama e respeita e a porta está sempre aberta para saída quando achar necessário. Eu prefiro a paz de saber que não preciso me preocupar com quem é essa aí porque eu sei quem é essa aqui e ninguém nesse mundo tem o direito de me deixar insegura ou me expor publicamente. Eu prefiro a certeza de que eu estou bem comigo à dúvida sobre com quem meu parceiro está. E olha que eu não chego aos pés da Ivete Sangalo.

Você tá comendo amor cru?

Essa semana fui jantar com um amigo bacaninha num restaurante bacaninha pra comer comida de bacaninha e pagar uma conta nada bacaninha. Sou fã inveterada de churrasquinho de rua, de barraquinha de cachorro quente, de barzinho onde tenha pastel de queijo e linguiça e de onde tenha gente como a gente, mas confesso que não mata ninguém ir a um lugar mais almofadinha de vez em quando e comer pouco de coisa muito boa. Chegamos lá, nos sentamos, conversamos um pouco e começou o procedimento padrão de lugares onde você não pode chamar o garçom pelo nome, nem de “amigão” ou “meu querido”.

Depois da troca do pratinho a cada elemento do antepasto, chegaram nossos pratos principais. Pedimos um risotto cada um e eu já estava achando o cheiro do meu maravilhoso antes mesmo do prato aparecer na minha frente. Dei a primeira garfada e ia soltar os cachorros, passar por de baixo da mesa e pedir quentinha quando olho pro meu amigo e vejo a frustração dele. Perguntei se ele não tinha gostado ao que ele responde: “Impossível comer isso. Está cru.” Cru? O meu estava incrível! Ele, então, provou o meu e disse que estava tão cru quanto o dele e seco. Mas eu tinha gostado tanto… Como podia estar ruim? Como podia ter coisa melhor? Como meu amigo tinha percebido rapidamente os problemas do prato enquanto eu nem pensava que poderia ter problema ali?

A questão é que o meu amigo entende de comida. Ele estuda gastronomia, faz workshops temáticos, experimenta receitas em casa, aperfeiçoa, prova de tudo em todos os lugares, é filho de uma exímia cozinheira e sabe o que é bom. Ele já provou risottos maravilhosos, médios e ruins e ficou exigente, não podendo mais aceitar um risotto meio cru ou pouco cremoso.  E não é que a gente é Marcelo às vezes?  Existem situações que nos fazem estabelecer padrões altos, o que nos impede de aceitar tudo o que passe de baixo da cordinha. Chico Buarque canta que “todo mundo tem um primeiro namorado, só a bailarina que não tem”. Chico Buarque e Marcelo sabem que quando a gente está no início de um trajeto, não conhecemos muita coisa e não sabemos diferenciar o bom do ruim, aceitando e amando qualquer coisa. Entretanto, quando vamos abrindo nossos horizontes e conhecendo coisas melhores, percebemos, assim, que o pouco não é pra gente.

É muito ruim e por vezes traumático terminar um relacionamento maravilhoso, por exemplo, mas você aprende a não aceitar o mais ou menos. Pode ficar mais tempo sozinha, sem encontrar ninguém que te encante e isso é muito bom. Isso significa que você tem um filtro mais fino que te poupa de pedregulhos e outros elementos não lapidados. A fase de testes já passou e você já sabe o que não funciona, você se conhece, conhece o que gosta e o que te faz bem. Pra quem não conhece de risotto, qualquer arrozinho cru satisfaz, mas pra quem já é experiente no assunto, só se paga bem pelo melhor. Vamos parar de aceitar o que colocam na nossa frente se a gente sabe que pode ser melhor e precisa ser melhor. Não é porque foi servido em louça bonita que tem que ser bom. Nossos critérios são mais altos que isso, pode devolver esse prato, por favor.

Continuo sem entender de risotto, mas a diferença do novo prato foi brutal. Como eu tinha amado o prato anterior? É sempre bom olhar pra trás e ver como a gente refinou nosso gosto e pode refinar ainda mais. Sempre vai ter um chef que se esmera, combina sabores nos quais nunca havíamos pensado e surpreende. Pode demorar, pode matar a gente de fome, mas vale a pena procurar o que é bom de verdade, bom pros nossos padrões. Fast food  pode até ser gostosinho, mas faz mal e enjoa. Se você já conhece comida de verdade, seja fiel às suas preferências, se respeite e pare de pedir a promoção número 1 que vai fazer você se arrepender amargamente depois. Agora, se você ainda acha que arroz cru é a melhor coisa do mundo, vou te apresentar ao Marcelo. Ele é ótimo pra mudar seu paladar e, quem sabe, abrir seus olhos.

O ritual da passagem de ano e nosso grito mais profundo por mudança

Tenho 27 anos, sou carioca, moro no Rio e nunca tinha ido para Copacabana no réveillon. Nunca tive muito interesse nem animação pra isso, mas esse ano uns amigos muito próximos me fizeram uma proposta irrecusável: vamos pra casa da Bia. Ver os fogos e subir pra casa em dois minutos era um programa perfeito e, de fato, foi tudo delicioso. Desde o jantar, até a farra, a companhia dos amigos, os fogos, a animação de todo mundo e especialmente, terminar o ano de 2015. Esse ano que parece ter sido complicado pra muita gente, também foi pra mim, sendo assim, eu queria realmente passar pra uma próxima fase.

Racionalmente a gente entende que nada muda no mundo na madrugada do dia 31 de dezembro pra primeiro de janeiro, mas essa virada é um marco e marcos são a forma mais objetiva e às vezes material de você entender que as coisas precisam mudar. É o que acontecia quando, na época da escola, ao fim de um ano letivo tenebroso, você pegava seu boletim e via que tinha passado de ano. O papel que atestava que aquela série tinha acabado e suas férias iriam começar. Quem nunca teve vontade de, nesse dia, juntar todos os cadernos e fazer uma grande fogueira? Quem nunca quis emoldurar o boletim? Ou mandar pro professor de matemática com sua nota sublinhada e um recado “até nunca mais”?

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Ghosting, o termo perfeito pra quem some do nada

Poderia ser mais uma história dessas que sua avó conta para as amigas do salão ou para suas tias num café da tarde na cozinha. O marido da Mariquita saiu para comprar cigarro e não voltou mais. O noivo da Chiquita fugiu no dia do casamento e, sumindo, deixou a moça de vestido branco, véu e grinalda no altar. O cara que estava saindo com a Joana nunca mais respondeu às mensagens dela. Não, essa não foi sua avó que contou, mas o sumiço revisitado realmente aconteceu e até hoje ela não sabe o motivo de ter acabado em silêncio algo que parecia tão legal. Acabado? Será que acabou? Será que esse sumiço basta como ponto final? Será que ela vai mesmo ter que passar dias tentando encaixar peças para encontrar uma explicação? Será? Fica tanto por dizer…

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