Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

Sobre as restaurações humanas

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, já dizia Fernando Pessoa e comprovamos isso no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada. Foi nesse clima que cheguei  ensopada à faculdade pra fazer minha última prova do semestre: Processos de restauração tecidual. Nada fácil, nada muito interessante, mas era o que eu precisava pra sentir o cheiro das festas do fim do ano. Saí da prova já me vendo deitada na minha cama quando lembrei que precisava ir ao banco. Fui rapidamente ao shopping mais próximo e entrei de costas para voltar pra casa o quanto antes. Fila no banco, espera infinita e minha bexiga imperiosa começa a gritar. Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que quando a bexiga manda, eu preciso obedecer. Olhei triste pra fila que eu encararia quando voltasse do banheiro, mas aceitei meu destino. Corri pelos corredores do shopping e resolvi a questão urgente, já antevendo a fila que deveria ter aumentado em mais 800 pessoas só nesse tempo. Enquanto lavava as mãos no banheiro aparentemente vazio, ouço a porta de uma cabine se abrir atrás de mim e instantaneamente olhei pelo o espelho me deparando com uma moça alta, com seus vinte e tantos anos, bem vestida e aos prantos.

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Era uma vez…

Era uma vez, num reino distante, uma moça que sonhava com um príncipe encantado que fosse alto, cavalheiro, inteligente, carinhoso, dedicado e divertido. Um dia ela encontrou esse príncipe que veio na sua melhor performance entregando flores, permitindo um soninho bom no banco do carona durante o trajeto, levando a moça para os melhores restaurantes, fazendo elogios diários, cuidando dela como quem cuida de uma filha e até se referindo a ela como princesa. Viveram felizes e diabéticos, mas não para sempre. A moça não quis viver num altar com capa e coroa. Desceu do pedestal, largou a realeza e andou sem olhar pra trás.

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Eu queria te dizer, mas não posso. O Sol está forte hoje.

 Arte por Djuno Tomsni
Arte por Djuno Tomsni

Eu queria poder te dizer que você está louca, que está exagerando e que não é bem assim. Queria poder dizer que você está sendo muito radical e poder te oferecer outra perspectiva, uma possibilidade de enxergar a situação por outro prisma. Queria te dizer que o atraso de uma hora sem nenhuma mensagem é justificável e que a desculpa dele foi pertinente assim como o fato dele só se manifestar quando você procurou por ele já pronta pra sair e aguardando ansiosamente com o telefone na mão. Queria poder te dizer que ele deve estar muito ocupado no trabalho há dias e por isso ainda não te respondeu. Queria poder te dizer que esses celulares são umas porcarias e ele não te procurou ainda porque o aparelho dele é desses que travam e não destravam nunca mais. Queria poder te dizer que ele esqueceu o caminho pra sua casa e que essas falhas de memória são apenas reflexo do quanto ele se preocupa com tudo. Queria poder te dizer que ele está indo pra academia em outro horário, não para te evitar, mas para não te sufocar porque ele te ama tanto que tem medo de invadir demais o seu espaço.  Queria poder te dizer que conheço muita gente que tem dor de garganta crônica e essa doença gravíssima foi uma boa razão para ele ter faltado o seu aniversário. Queria poder te dizer que ele realmente não gosta daquela outra e que vai terminar com ela em breve mesmo. Queria poder te dizer que é normal sumir nos fins de semana e quem nunca desligou o celular quando foi jantar com os pais? Queria poder te dizer que fugir de conversas sobre vocês dois é coisa de homem e que ausência e silêncio prolongado nunca são falta de interesse.

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