Marina Bufon Nunes

Marina é linguista e bailarina, dança nas palavras e escreve seus passos. Gosta de linhas tortas, sentimentos verdadeiros (e expressados) e bichinhos (vivos). Do interior de São Paulo, o sotaque permanece nos erres e a voz canta alto nos estádios de futebol, esporte que ama desde a época dos dentes de leite.

Nos tempos de crise

me demito.

nesses tempos de crise, o dólar subindo, o quilo do feijão mais caro que esmaltar minhas unhas: me demito.

não me permito mais olhar sempre a mesma indecisão, a bolsa instável, o coração palpitante a sair pela boca, a vontade louca de comer qualquer coisa sem fome. me demito, não permito.

me demito do meu posto de louca, possessiva e garçonete das suas cervejas. me demito das noites mal-dormidas, do sexo sem surpresa e dos bilhetes que nunca mais me mostraram “eu te amo”.

“-não! não há ninguém ocupando seu posto, nunca houve, não é questão de substituir”, eu disse.

mas parece que sempre deve haver um motivo – senão nossos próprios erros – pra algo acabar. te quis, um dia, e fui fiel aos meus compromissos por anos, mas hoje – e há um bom tempo – não faz mais sentido lutar por algo e alguém que não mais me fazem brilhar os olhos.

me demito, não permito, renuncio do nosso amor. me permito amar, mas a mim mesma, como deve ser e esqueci. me lembrei, anotei no coração e carimbei na mala de rodinhas que, antes emperradas, agora empurram meus sonhos que deixei pra trás ao entrar por esta porta.

Foi por cada um desses motivos

Foi o vento. O vento do meu suspiro forte que te levou pra longe de mim, nessa história que só vi o começo e o meio, o fim está aqui agora, com esse bilhete ao lado da cama.

Foi meu suspiro forte ao final de cada frase sua, como sintoma de reprovação, que apagou cada chama nossa, na cama, na cozinha, no telefone, na vida. Foi cada levantar de sobrancelhas, cada estalar de dedos, cada abismo na cama que nos separou, de fato.

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Minha verdade e suas verdades

Foto por David Benincá
Foto por David Benincá

Certa vez me disseram que eu deveria parar: parar de ser assim tão sincera. Mas não consigo, então, se preferem que eu me cale, melhor viverem longe de mim. Essa sinceridade no viver e no acreditar sempre fizeram de mim uma pessoa meio calada, de poucas palavras, mas que, quando perguntada, falava na lata, chutava a barraca.

Não, não sofro de sincericídio, não sou grossa nem insensível, pelo contrário. Por ter coração demais, vivo da verdade, da palavra dita sem rodeios, da objetividade subjetiva. Poucas entrelinhas. Pouca confusão. Apenas direto e reto. Tem gente que não sabe conviver com isso, acha que sou grossa demais, me pede calma. Eu estou calma, só estou sendo sincera.

Essa roupa está boa? E esse sapato? Este texto? E esse namorado? Não, não está bom (da mesma forma que: sim, estão ótimos, combinam com você – para todas essas perguntas). Ser sincero dói muito em quem escuta a verdade, mas é mais difícil de ser falado que ouvido. É ruim você ver alguém iludido por algo que, cegamente, acredita ser real, quando, infelizmente, nada passa de um castelo de cartas prestes a se esvair no vento. E daí entra quem? A amiga/mãe/filha (ou seja-mais-lá-o-que-for) sincera.
 
Acredite: é bem melhor ouvir (ou ler) agora do que, depois, precisar falar “por que você não me avisou?”. É meio difícil, no meio de tanta gente perdida no que quer acreditar e no que, de fato, é realidade, que nem podemos culpar ninguém. Foi assim que tudo isso foi vendido. Por isso, se você é pé na nuvem, tenha sempre uma pessoa pé na lama – não no sentido ruim da palavra, porque essas pessoas são mesmo especiais (mesmo que algumas delas incompreendidas) – mas no sentido do que é real.
 
Todos nós devemos, queremos e podemos viver todas as nossas fantasias, desde que sempre, ao colocarmos a cabeça no travesseiro, tenhamos, no fim das contas, dito verdades a quem nos indagou respostas sinceras. Nossa verdade vale mais que mil mentiras inventadas, mil histórias mal contadas e mil imagens mal vendidas.

Ahimsa, somos apenas um

Ahimsa
Ahimsa.
 
Essa tatuagem no meu punho esquerdo, que – com o braço esticado – dá direto no coração significa muito pra mim. Deveria significar para mais gente também, mas por enquanto é para mim. Se não sabe o que é, explico com amor: a-himsa, o primeiro ensinamento de Gandhi, em sua etimologia significa não (a) violência (himsa), o famoso conceito de não violência lançado e praticado pelo líder religioso e tão presente no budismo e hinduísmo.
 
Se engana aquele que pensa que quem acredita nisso é passivo e que significa, simplesmente, o “não matar”. Não deixa de ser verdade, mas, mais que isso, praticar o ahimsa configura-se ter autocontrole e equilíbrio interno não somente nas atitudes, como também nos pensamentos. Vendo tanta gente formadora de opinião com as redes sociais sendo palco de muitas ideias tortas, a empatia falta – mas o ahimsa mais ainda.
 
O primeiro passo é: coloque-se no lugar do outro, sinta, pense como ele: por que fez isso? Por que permitiu isso? Ele, de fato, permitiu algo? Ele, de fato, quis isso? Por que julgo? Quem sou eu?
 
Pois bem: eu sou tão mínima perto do universo. Por que, cargas d’água, eu estaria, então, tão certa? O certo e o errado variam (e muito), os limites dos outros também. Se tenho a liberdade de fazer algo por mim, isso é magnífico. Mas se tenho o discernimento de reconhecer o limite do outro, então isso é ainda mais incrível. Não machucando o outro, também não me machuco; não difamando o outro, durmo tranquila à noite; não plantando o ódio, não colherei um coração triste. A prática da empatia e do ahimsa, no fim das contas, é uma rede de bem: faço bem para o outro e, consequentemente, faço o bem para mim e para aqueles que estão à minha volta.
 
Parece difícil e, até certo ponto, é mesmo. Mas o que seria o ser humano sem o constante aprender, sem as inúmeras experiências com seus erros e acertos? O ahimsa ensina: o conceito é ativo quando praticamos, no dia a dia, a não falar mal do outro, a não alimentar raivas, a não criar inimizades, a perdoar sempre. Se é difícil, comece por separar o lixo corretamente, escutar seu avô contando histórias do passado, não compartilhando ideias preconceituosas, procurando saber o que as coisas são antes de passar para frente, procurando entender os porquês dos outros. 
 
“Os outros são tantos e eu, apenas um” – eu hei de aprender com tanta gente.

Te trago, amor

Te trago. A fumaça me envolve a alma, o cheiro do Marlboro invade o apartamento e esqueço de abrir as janelas. Na realidade não quero que a fumaça saia, ela é minha única companhia. Mais que isso: ela é minha, mesmo que de segundo em segundo se esvaia pelo vento lento que ali respiro.

Te trago, cigarro. Um. Depois outro. E outro. Repetidamente e sem parada. Meu pulmão há muito reclama desse vício que – como defino – faz bem pro espírito e pessimamente mal para a balança (meus 50 quilos distribuídos em 1,68 m não me deixam mentir). Trago pelo vício, e trago vício pro corpo cansado das situações mal-resolvidas e amores deixados de lado, das mensagens não respondidas, ligações não atendidas, e-mails não visualizados. Das notificações que desde sempre me incomodaram e agora fazem números gritantes na tela inicial do celular.

Te trago. Te trago, cigarro, olhando praquela foto velha, meio amarelada, do amor que tive e perdi pra mim mesma por não acreditar que devia/podia/queria; por não acreditar nele e viver, hoje, trazendo apenas cigarros pra dentro de casa. Nem mais amor, nem um único perfume masculino, nem uma única cueca. Não trago amor, mas trago cigarros.

Eles, com as garrafas de vinho, as músicas lentas da vitrola de agulha torta e as caixas de pizza me acompanham pelas leituras dos romances que não vivi porque nãos quis, porque fechei portas (e janelas, pelo que parece), porque não deixei fumaças dos fogos antigos apagarem e não permiti novos fogos acenderem; por não ter vivido o que falei que viveria, por não ter trazido nada mais que migalhas desonestas pra mim.

Te trago, amor. Te trago olhando a foto amarelada de 2001 e soltando as fumaças entre tosses tímidas. Te trago, amor, queimando os pulmões e não acolchoando mais a alma, que escorre junto às lágrimas nada sutis. Te trago agora, amor, pois naquele tempo não trazia nada mais que muitos nãos acompanhados de dúvidas e sins a tantos outros que não mereciam minhas certezas.

Te trago, cigarro, pois a ti não me resta nada a não ser te acabar em curtas e rápidas tragadas, assim como a mim é o que me faz. Me acaba, derrete, esfumaça… E apaga.

No espelho, meu cacos

Foto por Melnikov Vitalik
Foto por Melnikov Vitalik

Olhando no espelho, aquela lágrima que escorria pelo rosto até chegar perto da boca e se perder na saliva seca caía como tantas outras desde a semana passada. Os olhos inchados, o cabelo preso em coque, a cama desarrumada, a garrafa de vinho, vazia, ao lado do criado-mudo, jogada. Eu estava, de fato, me desintoxicando de alguém que há muito me fez mal e eu permiti isso. Como fui eu quem permitiu, eu quem deveria deixar sair.

Recusei todos os convites quando souberam que minha história de 10 anos havia se esvaído pelas mãos, como cabelos jogados pelo ralo. Quis ficar comigo, minha melhor companhia, e me redescobrir por inteira, nos meus detalhes e no meu tempo. Melhor remédio não há. A ruptura é feita de fases e a minha primeira sempre foi esta (digo “sempre” porque esta foi a cartada final, mas antes dela muitas outras vírgulas foram colocadas na história que eu acreditava ser o meu final feliz).

Eu amei, amei muito. Me doei, entreguei a mim mesma a uma pessoa que, naquele tempo, mereceu. Me cuidou, me amou, me teve e lutou por mim. Nos primeiros momentos era esse mesmo o enredo e eu acreditei – presa às amarras dos contos de infância – que aquilo era pra sempre. Permiti erros, cometi tantos outros, me apaguei e anulei tantas características minhas que, passados os anos, me tornei outra pessoa. Primeira lição: não se permita isso.

Eu errei, errei muito. Chorei, briguei por pouco, fui orgulhosa por algo que já estava enterrado há anos e, acomodada, permiti considerar aquilo minha verdade. Convenhamos: que bela mentira. A culpa foi minha, inteiramente minha por ter permitido anulações constantes, bocas caladas, lágrimas internas e coração doído. Com o pé em cima da privada, a mão na cabeça, cabelo desarrumado e olhos ardentes, me decidi: desarrumar para arrumar, a tal fase 2.

Posso aceitar convites, beber com mais gente, beijar outras bocas. Agora sim. Me encontrei, me recompus, aprendi e revivi. Que os novos erros comecem e eu consiga, como sempre,  juntar meus pedaços. Os meus pedaços que me tornam inteira.

Na fila do pão, a alma vazia

Photo via kafkalog

Parado em frente à bancada, não me lembro mais quantos pães tenho que pedir.

– “Senhor?”

– “Apenas dois”.

Por mais que seja só para mim, sempre multiplico por dois para não ter perigo de faltar, sou meio guloso. Se sobrar, faço torrada.

Depois que perdi minha companheira há um ano, meu rumo se foi com ela e, em seu túmulo, nem o “dedicada esposa” foi escrito; não fui seu marido. Também lá não estava “amável mãe”, pois não lhe proporcionei filhos. Por que ela estava comigo não sei, talvez pelas notas não atingidas da voz do cantor que não fui, ou das letras perdidas do compositor que não me tornei, como havia lhe prometido em 89. Aquele roqueiro amor e a droga do amor suicida me alucinavam e eu disse tanta coisa que, passados os anos não cumpri, que não sei mais o que foi verdade e o que foi overdose.

Pelas pessoas prometidas que não fui, não entendo por que Beth permaneceu. O motivo de sua doença ainda é desconhecido; disseram ser depressão, mas ninguém morre disso. Acho que ela morreu porque em 89 eu matei os seus sonhos, ela só sobreviveu até o ano passado para mostrar que eu era nada daquilo que parecia ser.

– “Pensando bem, me vê apenas um pão” – sempre pensei só em mim mesmo.

Saí dali sem nada, apenas com um saco de um pão… E a alma vazia.