Natália Moreira

Sou uma alienígena disfarçada de gente, tentando voar com os pés no chão, viver em queda livre e explicar o que (não) entendo com perguntas. A contradição é p(arte) minha e mesmo sabendo que “pra viver mais, eu sei que eu devia viver menos”, quero demais até o fim – ou o começo.

Hora de voar

Arte por Korrupt Kids
Arte por Korrupt Kids

Hoje acordei me sentindo um passarinho. Não no sentido frágil da figura, pelo contrário, acordei me sentindo um passarinho que já estava muito grande em um ninho muito apertado. Quase caindo desse ninho e me sentindo péssima por não caber mais neste lugar, comecei a reparar em mim. Nesse tempo em que vivi nesse ninho, minhas asas foram crescendo junto comigo. Assim como o resto do meu corpo, elas também ficaram mais fortes.

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Quase isso

Foto por Susanna Majuri
Foto por Susanna Majuri

Fiquei lá… Te esperando na porta só de calcinha, como já fiz com tantos outros, como sei que ainda farei. Mas isso não muda nada, porque ali, naquela tarde, eu estava lá só por você.
Esperava enquanto fumava um cigarro, como se ele pudesse me trazer calma.
Você. Você era a única coisa que poderia me trazer calma. Mas não, você foi embora sem despedidas, saiu correndo quase despido, quase culpado por ir me deixando lá.

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A sorte de me ter

Foto por Masayoshi Naito

Achei incrível quando ri de mim mesma ao tropeçar na rua, foi tão… familiar. Isso me fez lembrar de como era rir de mim, e como eu me achava linda assim, desse jeito desastrado. Lembrei de como eu gostava de quando meu cabelo estava meio-preso-meio-solto e da minha mania de olhar pra baixo e colocar o lado solto atrás da orelha quando fico com vergonha. Falei também com um amor do passado, incrivelmente não chorei. Pelo contrário, fiquei muito feliz em recordar minha paixão por ele, por todos os outros e todas as outras coisas que gosto. Tive vontade de sair abraçando esses amores passados, porque sem dúvidas, muito do que amei neles era como eu era quando estava com eles. Percebi que gostei deles, mas que sempre gostei mais de mim. Vi que era muito bonita gostando de cada um, porque é lindo esse meu jeito de entrega total, sempre pronta pra me jogar, sem redes, sem planos, sem mãos. Achei demais lembrar disso, com isso vi a sorte que você teve por me ter um pouco. Também senti um pouco de pena de você, que não se permite sentir nada profundamente. Desejei que algum dia você pudesse se descabelar por qualquer coisa. Ao desejar isso, me amei muito. Me amei mais do que você um dia seria capaz de me amar. Você ou qualquer outro, nunca poderiam entender o que eu faço por completo, assim, nunca poderiam ver talvez meu gesto mais nobre e me amar demais por isso, só eu… Por isso senti tanto amor e quis me abraçar forte.”

Como sobreviver a um incêndio

 

LAURENT CHEHERE PHOTOGRAPHY
LAURENT CHEHERE PHOTOGRAPHY

Há algum tempo atrás meu quarto pegou fogo. No meio da noite, no meio do nada. Acordei assustada coberta por fumaça e fuligem. Meus olhos ardiam tanto que só pensei em sair correndo dali o mais rápido possível.

Não aconteceu nada de inédito depois desse fato, as mangueiras chegaram e pouco a pouco apagaram tudo. Eu respirei fundo e agradeci por não ter sido incinerada. Três minutos depois comecei a xingar sem parar. Quando entrei de novo em casa ela já não era a mesma. Andando devagarzinho até meu quarto via as cinzas do que sobrou voando à altura dos meus olhos, pousando na minha camiseta e em meus cabelos. Parecia um filme de ficção científica do apocalipse.

Destruição quase total.

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