Sem Clichê

Marcella Brafman é autora do Sem Clichê. Ela é jornalista, escritora e mineira. Sofre de imaginação fértil que só passa escrevendo.

O botão das desculpas esfarrapadas

Se você vive reclamando que coloca muita força nas coisas e recebe pouco em troca, chegou a hora de refletir um pouquinho.
Chegou a hora de parar de reclamar do outro e de olhar para dentro de você. A hora de desativar esse botãozinho automático que vive dando desculpa, justificando erros alheios e passando a mão no seu coração repetindo “calma, que vai melhorar”. Não vai, não.

Será que você não está DESPERDIÇANDO a sua força? Botando fé em pessoas e situações que são mais FRACAS ou que lá no fundo não têm tanta FORÇA DE VONTADE? Não seria melhor se você MUDASSE O FOCO dessa força para algo que pode te dar mais resultado?
Você também pode estar exagerando na força, é claro, mas é provável que NÃO. Porque quando a gente quer algo muito, e é do bem, o esforço é visto com bons olhos. Ele é RECONHECIDO. Coloco tudo em CAIXA ALTA para entrar na sua (na nossa) cabecinha. E eu não estou falando de algo específico, serve para quase tudo na vida. Trabalho, família, relacionamento e coisa e tal. A lei da reciprocidade é geral.

Não tenho a fórmula certa. Raramente a gente tem. O mais comum é insistir até não saber mais se aquilo é legal ou saudável. Pode parecer terrível dizer isso, mas sim, nos acostumamos até com o que é ruim. Daí, perdemos a noção de quanto o bom pode ser incrível. Já pode ter acontecido com você uma situação mais ou menos assim: depois de se acomodar tanto com algo, quando finalmente desistiu e vivenciou outra coisa muito melhor, pensou: “como que eu não quis sentir essa sensação maravilhosa antes?” ou “nossa, se eu soubesse que era tão bom assim”. Lembrou?

Nos falta coragem. Quando se usa o coração, dar adeus para momentos e pessoas é difícil demais. A cabeça já está no futuro, pensando em coisas melhores, fazendo novos planos. O coração, coitado, se apega ao passado, ao que foi bom e que nem é mais. Ele repete “mas foi bom, mas foi bom, mas foi bom” e o cérebro acredita e responde “tá bom, vou esperar amanhã, vai que melhora”.

A minha dica é que você se arrisque, mesmo com muito medo. Pode dar errado, pode dar arrependimento, choro, mágoa e sensação ruim. Você provavelmente vai se sentir um lixo até experimentar aquela maravilhosa sensação do “nossa, é muito melhor agora”, por isso tem que segurar firme e ser forte.
Afinal, setenta vezes zero, não é setenta. É zero. O primeiro passo é entender isso.

Esse texto é do site Sem Clichê, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Sem Clichê aqui! <3 

8 coisas estranhas e fofas que casais em um relacionamento longo fazem

1. Vocês são pais de um bichinho de estimação
Um cachorro ou um gatinho. Ele dorme no meio de vocês, às vezes no pé de um, no travesseiro do outro. Vocês narram tudo que o “filho” faz, trocam fotos e fazem aquela voz de bebê quando pegam ele no colo. Ele sempre está junto de vocês pela casa e muitas vezes vocês se pegam disputando sua atenção. O problema é como dividir a “guarda” se algum dia o relacionamento acabar, mas não pense nisso agora, né?

2. Vocês usam a roupa um do outro
Isso é algo que nem todo mundo admite. Principalmente os homens! Vocês às vezes dormem com as blusas trocadas, emprestam calças e shorts de pijama e adoram quando nessas roupas fica um cheirinho. O armário pode ir ganhando uma gaveta, depois uma prateleira, depois…

3. Vocês se enviam mensagem quando estão no mesmo lugar
Porque às vezes o lugar está um saco e você precisa dizer “ai, vamos embora para casa assistir Netflix?”.

4. Não se importam mais com o bafinho matinal
Quem liga? Vocês já se conhecem de cabeça para baixo.

5. Vocês se comunicam telepaticamente
Não precisa de muito além de um olhar. Você sabe dizer quando o outro está bravo, entediado, até apertado para fazer xixi. É impressionante como depois de algum tempo com alguém fica fácil ler aquele balãozinho de pensamento que paira em cima da cabeça.

6. Vocês não se importam de fazer “coisas de criança” juntos
Já reinstalaram o Nintendo, jogam Gameboy e soltam a real “hoje não vamos poder encontrar, tô assistindo maratona de Pokemon”.

7. Vocês usam um ao outro para escapar de compromissos sociais
“Ih, não vai dar amiga, hoje tenho que encontrar o Caio, combinamos de ir assistir um filme que ele tá louco para ver!”
“Cara, combinei de ver a Flávia hoje, tenho que ajudar ela no supermercado”
Quem nunca?

8. Vocês dançam sozinhos ou um para o outro
Dão uma reboladinha quando começa uma música ou fazem um passinho, sem vergonha alguma… É quase um convite tipo “vem dançar também”.

Mitos e verdades sobre morar sozinho

Mito: Você vira dono do seu próprio nariz.
Verdade: Você realmente tem que tomar mais conta do próprio nariz (como todas as outras partes do seu corpo, já que não tem a mãe para “lembrar” sempre daquelas consultinhas no médico), mas enquanto você não se banca totalmente sozinho e/ou ainda pede socorro para os seus pais quando a coisa aperta, metade do seu nariz ainda é deles.

Mito: O apartamento está sempre pronto para festinhas e reuniõezinhas.
Verdade: É muito gostoso receber os amigos em casa, mas só quem mora sozinho sabe o quanto é chato ter que limpar toda sujeira no dia seguinte. Um simples vinho entre você e mais três amigos consegue mudar todos os móveis da sala de posição. E na grande maioria dos casos, a faxineira só vai uma vez por semana. Então, o jeito é maneirar.

Mito: Você não tem que dar satisfação para ninguém.
Verdade: Seu pai, sua mãe e sua não vão parar de te ligar (ainda bem!). Se eu não ligo por dois dias, eles falam que eu estou sumida, ou aprontando alguma coisa. Acredito que só não precisamos da satisfação para os pais, quando de fato viramos pais. Enquanto isso, você vai continuar recebendo ligações e eles vão querer saber “onde é que você vai”. Uma coisa é verdade e é uma delícia: não é preciso mais chegar em casa na ponta dos pés.

Mito: Você é rico.
Verdade: Na verdade, estamos quase sempre pobres. Por mais rico que uma pessoa seja, em alguns dias do mês, a grana fica curta. Principalmente depois do aluguel. É sentir no bolso e de fato dar mais valor para o teto que te cobre, o cobertor que aquece e o papel higiênico que limpa. Se eu pudesse resumir a sensação, diria que morar sozinho é ter que comprar o próprio papel higiênico. Quando moramos com a família, tem sempre um reserva no armário. E nem sabemos como ele chegou até ali.

Mito: Você não vai ter que se preocupar sobre o que o seu porteiro pensa de você.
Verdade: Conquistar a simpatia do porteiro é muito mais importante do que parece. Primeiro, porque é ele que toma conta do seu prédio, das suas contas e é a primeira pessoa que um vizinho recorre caso precise fazer alguma reclamação de você. E segundo: um bom dia educado dele pela manhã faz toda a diferença.

Mito: Tem sempre uma vizinha velha e chata.
Verdade: Tem sempre uma vizinha velha e chata.

Mito: Você vai aprender a cozinhar e a lavar roupas.
Verdade: Aprendemos um pouco a lidar com o fogão (ou morremos de fome). No meu caso, não sobra muito tempo para aprender receitas e inventar, então apelo sempre para delivery e comidinhas fáceis. Só almoço fora de casa e minha parte na geladeira é mais vazia que geladeira de igreja. Quanto as roupas, a máquina de lavar é a criação mais linda do mundo (junto com os lençóis de elástico!). Você aprende muito bem a esticar as roupas no varal em quinze segundos e a economizar sabão em pó. Ô, coisa que é cara, viu.

Mito: Você sai do supermercado cheio de sacolas. E isso é super legal.
Verdade: Se você mora com várias pessoas ou tem o costume de fazer comida como já disse lá em cima, rola sim uma compra maior de super mercado duas vezes por mês. Caso contrário, sua melhor amiga vira a mulher do caixa de 15 itens. Eu nunca consegui comprar mais de duas coisas de cada. Já passei algumas situações engraçadas no mercado quando comprei duas cenouras e uma maçã. Ou um miojo e três limões. É que se eu levo além do que vou comer, estraga na geladeira. E geladeira com comida podre dentro é a coisa mais chata de limpar do mundo – depois do banheiro.

Recebi a seguinte pergunta de uma leitora no Facebook:

“Oi Marcella! Tudo bem? Primeiramente, admiro muito sua escrita, parabéns pelo seu blog, adoro ler tudo o que você posta! Tenho apenas uma curiosidade, por quê tão nova assim já mora sozinha? Acho bacana, mas é só uma curiosidade mesmo! Seus pais são da mesma cidade que vc, certo? De qualquer forma, parabéns pelo blog e continue sempre a escrever textos bacanas!”

Vamos a resposta. Eu tenho 23 anos e “saí” da casa da minha mãe com quase 20. Digo “saí” assim em aspas porque a gente nunca sai de fato. Eu vivo indo lá, para almoçar ou visitá-la, e como citei de exemplo no post acima, também conversamos por telefone diariamente. O mesmo se aplica ao meu pai e a minha avó. Sou muito ligada a minha família e faço questão de ter eles por perto, mesmo não estando na porta ao lado do corredor. Cada um tem os seus motivos para querer morar sozinho, mas acredito que um que sempre prevalece é a vontade de “tentar se virar sozinho” e amadurecer. A minha vontade de sair de casa e morar “sozinha” (moro com duas amigas) foi basicamente por isso. Eu queria crescer e viver uma nova etapa. É engraçado, porque em Minas Gerais isso não é muito comum quando os pais moram na mesma cidade. Conheço muitas pessoas de São Paulo que vivem assim. Algumas saíram de casa até mais cedo do que eu. Deve ser algo cultural, não sei.
Espero ter respondido a dúvida. Vale lembrar que morar sozinho não são só flores, viu? E isso faz parte do amadurecimento.

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Fuso horário

Diego,

O tempo aqui passa diferente e fica cada vez mais difícil pensar em você. Quando eu tomo banho para ir para a pós graduação, você está no seu sono mais profundo. Quando você senta com os seus amigos no bar, eu estou no meu. Não consigo imaginar nada que você está fazendo. Isso é uma tortura para duas pessoas que estavam no mesmo compasso.

O que não está dando a mínima para os horários é essa saudade. Ela chega a qualquer hora. Crava um buraco no meu peito e dá um nó no meu estômago. Ela é sacana na maioria das vezes. Não te culpo. Saudade não respeita fuso horário.

Estou em uma cidade que nada tem você. Todos os lugares são novos. Não existe a padaria que tomamos café da manhã, nem aquela lojinha que fomos juntos consertar o meu celular. Vejo centenas de rostos por dia. Nenhum deles têm o traço do seu nariz, a sua sobrancelha grossa ou teus dedos compridos. A verdade é simples e boba: aqui não tem nem seu cheiro e nem você.

Me sinto bem de estar recomeçando. De olhar para a nossa foto e apertar os olhos forte para conseguir lembrar de como era. De tudo aquilo tão lindo que foi. Tenho medo de que um dia eu simplesmente esqueça. Mais uma vez eu culpo o tempo.

O sol parou de se pôr ao mesmo tempo pra gente. E tudo vai parando aos poucos também.

Ainda assim amo você a um oceano de distância,

Letícia

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20 coisas que aprendemos antes dos 25

A adolescência passou e a fase adulta chegou. Alguns dizem que esses são os melhores anos das nossas vidas. Outros, acreditam que essa é uma fase cheia de dúvidas e de preparação para os vinte e tantos. Se você está na fase dos vinte e poucos, com certeza já notou que as suas vontades mudaram desde a adolescência (e muito). Listei algumas coisas que aprendemos antes dos 25.

Você aprende que:

1. Não precisa ir para a balada sem vontade. Você não precisa sair de casa só para agradar um amigo ou ser legal com a galera. Não existe problema nenhum em querer ficar de pernas para o ar assistindo um filme.

2. Trabalhar, estudar e fazer uma atividade física cansa. Você começa a dar muito mais valor para a sua cama e as poucas horas de sono.

3. O amor acaba e recomeça. Acaba e recomeça e acaba e recomeça. Você vai cair setenta vezes e levantar setenta e uma.

4. O sofrimento é só um intervalo entre duas alegrias. A maturidade anestesia um pouco a tristeza. É mais fácil entender que existiu uma vida antes da dor. E a vida não para e espera você se reerguer. Move on!

5. A dar mais valor para as aulas de inglês que seus pais pagaram quando você era criança. Ela faz toda a diferença no seu currículo profissional.

6. A dar mais valor para a faculdade que eles ainda pagam, o almoço servido todos os dias, o edredom limpo, o papel higiénico do banheiro, entre muitas outras coisas. O amor e o carinho que eles têm por você ficam muito mais claros.

7. Seus pais também são seres humanos com sentimentos. Uma ligação ou um abraço fazem toda a diferença.

8. Se você quer morar sozinho ou dividir um apartamento com os amigos, vai ter que trabalhar duro.

9. O melhor alívio do mundo não é terminar o colégio. É terminar a faculdade.

10. Quase todos os seus sonhos podem se tornar realidade. Provavelmente, aquele seu sonho de conhecer a Austrália ou de fazer um mochilão para o Peru, já se tornou. Concretizar nossos sonhos é a melhor forma de não desistir de realizar tantos outros.

11. Dar presente é melhor do que ganhar.

12. Vale muito mais a pena juntar dinheiro para ir naquele show da sua banda preferida, do que gastar em baladas aleatórias que só te deixam com uma ressaca monstra no dia seguinte.

13. Viagens e livros normalmente são melhores quando são mais baratos. Mochilão é muito mais legal que resort cinco estrelas. E livro de sebo é muito mais legal que livro de uma megastore.

14. Diálogo é tudo nessa vida. Em qualquer tipo de relacionamento.

15. Não ter medo de pedir desculpas.

16. Quase tudo é melhor com alguém do nosso lado. Se não for, é porque não estamos com a pessoa certa. Próxima!

17. Os seus amigos são pessoas muito parecidas com você.

18. A mentira dói. Mas a sinceridade em excesso dói o mesmo tanto.

19. Não vale a pena se comprometer com uma pessoa, se você ainda quer outras.

20. A vida está só começando. E ela é linda. Boa sorte! 

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Me emocionei na Cordilheira dos Andes

A viagem de carro pela América do Sul mal terminou e eu já sinto saudades. Tenho muuuitas coisas para contar. No último post, quase em tempo real, falei sobre Mendoza, na Argentina.

Logo depois, passamos pela Cordilheira dos Andes. Eu mal sabia o que estava me esperando. Esse foi um dos momentos mais marcantes do mochilão. A atravessamos para ir de Mendoza, na Argentina, até Santiago, no Chile. Santiago foi a primeira parada em território chileno.

A Cordilheira foi aparecendo aos poucos. Quanto mais subíamos e passávamos pelas curvas, mais nos assustava a paisagem incrível. É coisa de cinema mesmo. Tive que sair do carro e tirar umas fotos na estrada. Coloquei uma música do Wilco para tocar e fiquei muito emocionada.

Mas, não foram só flores. Eu tenho a pressão baixa e morro de medo de altura. Ao chegar na fronteira da Argentina com o Chile, estava tudo ok, tirando o frio. Saí do carro, preenchi os papéis da travessia e tudo mais. De repente, me senti tonta e depois disso, não lembro de mais nada.

Mas, caaaalma. Não era nada demais, porque logo depois, chegou um paramédico para me socorrer e disse que desmaiar naquelas condições era normal, já que eu tinha pressão baixa e me faltou ar no cérebro (hehe!). Foi uma aventura e tanto, coitada da minha mãe. Eu caí com um joelho no Chile e outro na Argentina. Nunca havia desmaiado antes e agora tenho noção do quanto é ruim! Cruiz!

Ao chegar no Chile, ainda na Cordilheira e depois de passar pela fronteira, está o famoso Caracol (Los Caracoles). É uma estrada literalmente em forma de caracol. SURREAL! É uma pena que pegamos ela no finalzinho do pôr-do-sol. Quem mandou desmaiar, né Marcella? Hihi. Tirei várias fotos mesmo assim. Não é difícil de descê-la e também não vi nenhum caminhão tirando o pé do freio.

Pegar estrada na Cordilheira dos Andes foi uma aventura a parte e merecia um post só dela. Espero que tenham gostado e não fiquem com medo, viu? É lindo demais!
Logo, logo, conto da chegada em Santiago e das pedras Lápis Lazuli maravilhosas que encontrei por lá!

 

4 curiosidades:

– O “Los Caracoles” é um conjunto de curvas somadas a um desnível de aproximadamente 670 metros. Nesse trecho não se deve passar dos 50 km/h nas retas e nas curvas dos 20 km/h.

– A fronteira da Argentina com o Chile, neste ponto, é um tanto quanto rigorosa. Enquanto na aduana entre Brasil e Argentina demoramos no máximo meia hora, na aduana Chilena ficamos por quase 1h30 (sem contar o meu desmaio, haha).

– Ainda na Argentina, está a Puente del Inca, um pequeno vilarejo que fica na margem da Ruta 7 e tem esse nome por causa da formação rochosa que forma uma ponte natural sobre o Rio Las Cuevas. Nela há o Hotel Puente del Inca, um hotel termal abandonado que foi inaugurado em 1.925 e desativado 40 anos depois.

– Ressalto que fomos no outono, então estava muito frio e a possibilidade de ver neve era enorme. Mas, o que mais me impressionou foi a mudança rápida de cenário. De repente, pluft! Você atravessa um túnel da Cordilheira e o visual é outro.

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Ainda bem que a gente tem a gente

Foto por Théo Gosselin
Foto por Théo Gosselin

Ela é aquela que pega as suas dores. Já segurou o seu cabelo ou a sua testa depois de uma noite insana. Faz sempre um brinde olhando nos seus olhos e não te deixa sozinha no bar. Ela chama sua mãe de tia e é mais amiga dela do que você. Sabe chegar na sua casa de olhos fechados e rouba a segunda vaga na garagem. Ela é aquela que já te deixou de vela setenta vezes e apresentou um colega de trabalho que falava cuspindo, que ela tinha certeza “que era o seu número”. Começou um namoro e quase te esqueceu, mas logo voltou e foi como se nada tivesse acontecido. Vocês continuaram unidas. Inventou para você um apelido horroroso, já contou os seus podres em voz alta na mesa de bar e sempre te lembra da sua fase emo, hippie ou fã dos Hansons. Ela é aquela que tem ciúmes do “povo da faculdade”, do “seu vizinho de infância” e do “brother do escritório”. Arruma o seu cabelo, ajeita o seu batom, avisa que o seu cofrinho está de fora e não te deixa ficar de rímel borrado. Conta casos vergonhosos de três anos atrás, piadas ruins e às vezes te faz rir para não chorar. Ela compartilha músicas boas e já te fez assistir todos os filmes da Jennifer Aniston. Já te buscou em casa um milhão de vezes, esperou na porta “dois minutinhos” cem vezes e te ajudou a acertar o buraco da fechadura outras cinquenta. Ela te convida para sair em plena segunda-feira, te convence a “não chegar tão tarde” na quarta e é a culpada da sua ressaca de domingo. Ela é aquela que sabe dizer “Saudades”, “Obrigado” e “Amo você”. Fala algumas verdades, é sincera sem ser chata e sabe a hora certa de puxar a sua orelha.
Para aquela que está ao seu lado sem pedir nada em troca, hoje, sempre e quando precisar: feliz dia do amigo de verdade! Ainda bem que a gente tem a gente.

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Eu prometo que passa

No dia que ele pediu que a gente sentasse no sofá para conversar rapidinho, fiquei por duas horas tentando entender por que tinha que terminar. Chega em algum ponto desse tipo de conversa, que você para de enrolar o cérebro para tentar entender o inexplicável e prefere pedir que a pessoa vá logo embora e leve embalado para viagem metade do seu coração. Pedi que ele fosse.

Dias depois, chegou aquele momento que o que estava na minha casa e o que estava no armário dele, precisava ser trocado e entregue. Isso geralmente precede uma mensagem de texto ou duas. “Você pode deixar na portaria?”, “Claro, é só você passar para pegar, avisei o Seu Manoel”. Injusto demais, querer ir embora quando já sabe até o nome do porteiro. Divididos em três sacolas velhas de lojas, vão duas camisetas de dormir, as caneleiras do futebol de sábado e a foto do porta retrato. A separação é sempre clichê como é do meio para o final de uma novela.
Depois disso, a gente fica triste quando olha: para o celular, o canto da sala que ficava o sapato, o comercial do seriado que assistia junto. Nosso olhar fica triste para qualquer coisa. Fechamos os olhos para descansar. Esses dias sem saber são os mais difíceis. Como pôde querer embora quando já se irrita até com o jeito que eu uso e deixo toda espremida a pasta de dente? Injusto demais.

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“Deixa de ser ridícula”

Lembro quando a gente beirava os vinte anos e pensava “como será que vamos estar aos 30?”. Olha a gente aqui, quase lá. Quero escrever essa carta porque percebi que não falo muito o quanto você é importante. Preciso que você saiba que é essencial. Sem você, falta um braço.

Já reparou que não temos mais medo do desconhecido? Acho que é porque no fundo sabemos que se algo der errado, temos uma a outra. Deve ser por isso que nos afogamos tantas vezes em paqueras babacas, brigas de família inúteis e garrafas de vinho ruim. Deve ser por isso também que posso ficar dias sem falar com você que está tudo bem. Descobri que éramos grandes amigas quando pedi desculpas por ter sumido uma semana e você respondeu “deixa de ser ridícula”. Com razão. Quando alguém é permanente na nossa vida, mesmo de longe a gente fica perto.

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Carta para quem mudou a história

Cena do filme Zabriskie Point.
Cena do filme Zabriskie Point.

Flávio,

Você, da forma mais sacana e fofa do mundo, me mostrou o que eu não quero. Sacana, porque eu passei setenta mil longas noites pesquisando dentro do meu cérebro cansado onde estava a falha. Algo estava muito errado por você ter desistido tão fácil e fechado a porta do elevador em câmera lenta dizendo que ainda “me amava, mas”.

Demorei a perceber que era uma negação que transbordava no peito como uma menina mimada que não aceita perder. O gentil da sua parte foi sumir. Desaparecer por alguns anos. Como se nunca tivesse existido ou passado tantos meses usando a terceira gaveta do meu armário. Com você distante, enxerguei melhor.
Isso pode parecer grosseiro, lido assim de uma maneira tão seca, mas ter mostrado o que eu não quero, basicamente significou me libertar para o que eu quis depois. Eu quis pessoas muito melhores. Hoje, eu busco alguém muito melhor. E não estou dizendo que você é ruim. É só aquela história: algumas pessoas são feitas pra gente. Outras não. Você não foi feito para mim. E precisou ser meu para que eu entendesse isso. O meu melhor é o que é mais parecido comigo. O seu também deve ser.

Vê se entende. Essa é só uma carta egoísta de agradecimento, depois de ter tomado uma garrafa do vinho que você mais gosta. Hoje, não sinto vontade nenhuma de dizer para as pessoas que “terminamos nos gostando”, como uma justificativa de porque era tão legal e de repente acabou. Cá pra nós, nem elas se interessam mais na gente. Hoje, não lembro de você quando escuto Ella Fitzgerald e nem quando passo na sua rua escura para poder cortar o caminho daquela avenida. Hoje, não consigo lembrar exatamente do seu cheiro de roupa limpa. Eu fecho os olhos para sentir e não sinto nada. Faço força para desenhar na minha mente os seus traços. Não sei dizer se seus olhos são puxados ou não. Se a sua boca é pequena ou grande. Se seu nariz é meio torto ou é só coisa da minha cabeça. Mas lembro o seu vinho preferido, e é por isso que tomei coragem para te escrever.

Certo dia fui em uma cartomante e ela disse que nós tínhamos uma conexão de vidas passadas. Achei a maior loucura. Falou que eu e você pagamos juntos no presente por algo muito ruim que te fiz em outra vida. Vai saber. Disse também que a sua passagem pela minha história seria intensa, mas não deixaria muitos rastros. Na época, acreditei em tudo. Fazia muito mais sentido do que o que a Clara e a Tatiana me falavam como consolo. Elas te xingavam e diziam que eu era meio louca de ainda chorar por alguém tão egoísta. Precisei da cartomante e de uma resposta genérica para curar o meu vício de falar a respeito de você. Todas as minhas amigas agradeceram.

Não sei se conseguiria te fazer algum mal em outras vidas, mas caso isso tenha acontecido, estamos quites. Sofrer você me abriu um mundo de possibilidades muito maior em busca do que eu realmente quero no amor. Eu aprendi da forma mais torta possível o que eu não busco em alguém. Você foi aquela parte da história que renasce dentro da mocinha a vontade de aprender tudo de novo. Alguém de novo.

Obrigada e se cuida,

Luiza.

Autora: Marcella Brafman 

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