Maria Tangerina, consumo justo e consciente

Eu sei, eu sei.
Esse não é um blog de moda. Mas eu preciso falar sobre a loja Maria Tangerina.

O mundo de repente mudou e aquela fase de querer ter um closet enorme simplesmente passou e finalmente ficou brega. Estamos vendo que os recursos estão se esgotando, não é possível continuar consumindo como se não  houvesse amanhã. Não tem mais espaço pra lixo, não tem mais espaço pra toda essa super produção e tem o pior: descobrimos que marcas de roupas que a gente a-m-a-v-a usam mão de obra escrava pra gente poder comprar uma calça por uma pechincha. Por causa disso, pessoas inteligentes e mega interessantes resolveram investir em outro caminho. E é por isso que cada vez mais estamos em contato com marcas independentes, que fazem seus produtos à mão e com muito amor. Além de serem produtos lindos e originais, sabemos que não estamos fazendo mal nenhum ao planeta e  muito menos a um ser humano.

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L’equipée: 5 mulheres que viajam o mundo de moto

Assim que eu bati o olho nas fotos das meninas do L’ equipée, pensei “ah, é tudo uma super produção”. Eram mulheres francesas, lindas e produzidas para tirar fotos divertidas com motos. Ninguém anda de moto com bota de cowboy e roupas tão incríveis. Mas eu estava enganada e descobri isso só depois de encontrar com as meninas pessoalmente. Nossa entrevista foi em uma casa incrível na Gávea, onde a paisagem cheia de morros me deixou de queixo caído (é, eu ainda me surpreendo com as vistas que o Rio pode nos oferecer). Era a casa de um gringo francês que se apaixonou pelo Rio de Janeiro e agora usa a casa para hospedar pessoas do mundo todo e fazer festas.

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De papo com as meninas do GWS

Fazer uma entrevista com as meninas do GWS (Girls With Style) foi um tiro certeiro. Eu já era uma grande fã e grande admiradora do trabalho delas, mas nunca tinha batido um papo pessoalmente. Talvez essa entrevista tenha sido só uma desculpa para que eu pudesse conhecê-las pessoalmente e contar pro mundo como elas são fodas e como elas são mesmo tudo isso que eu imaginava.

Nuta, Marie e Carol criaram um blog de moda chamado Girls With Style. Isso tudo começou ainda na época do Orkut, em que elas criaram uma comunidade para trocar ideias sobre moda de um jeito diferente das “it girls” do momento, mas acabou crescendo e virou uma comunidade muito maior do que isso. Várias meninas se reuniam para falar de relacionamento, auto-estima, beleza e, claro, de moda. A comunidade cresceu tanto que elas resolveram passar tudo isso para um blog onde as pessoas pudessem acessar.

Eu nunca fui uma pessoa muito ligada à moda, mas o que achei mais legal no site é que ele não fala desse universo de uma forma boba, como a maioria dos blogs faz. As meninas misturam moda e comportamento de um jeito único e com muito embasamento. A personalidade de qualquer pessoa influencia muito no estilo de se vestir e, por isso, tudo bem ser você e ter o estilo que você escolher. O blog sai daquele bê-á-bá de estar na moda e a obrigação de usar determinadas roupas. Elas explicam como aquele estilo voltou à moda e por quê. Como o comportamento social criou tal estilo e vice-versa. Pra mim, moda só funciona quando mistura comportamento, porque moda é arte, moda é expressão. Se a gente olhar pra trás, as roupas contam a história da humanidade, assim como pinturas, peças de teatro e estilos musicais. E elas percebem a moda assim, como parte do nosso comportamento.

Além disso, o blog fala muito sobre relacionamento, feminismo e auto aceitação, coisa que têm faltando muito hoje em dia. E a moda não serve pra te excluir do padrão “magra, alta, linda e loira”. Moda é pra todo mundo; e elas passam isso através de reflexões, textos, relatos e movimentos como o “Terça Sem Make”. Ou seja, elas são demais e eu precisava ver isso de perto para passar para o mundo.

Assim que cheguei pra entrevistar as meninas, reconheci de longe a Nuta e a Marie. A Carol não tava, porqueela não faz parte mais do GWS. Mas calma, gente. Não foi nenhuma briga ou mal entendimento. A Carol vai morar em Londres!

Elas estavam me esperando na mesa da Comuna com mais duas amigas. Elas riam e falavam sobre assuntos pessoais que eu não consegui identificar. Cheguei pedindo desculpas pelo atraso, por causa do transito infernal de botafogo e elas me receberam da melhor forma possível. As amigas pagaram a conta e falaram que iam nos deixar a sós, para que eu pudesse entrevistá-las. Enquanto isso, elas conversaram um pouco sobre roupa e como ainda existe muito trabalho escravo ligado ao mercado de moda; assunto que eu já tinha lido no blog. Achei sensacional saber que aquilo que elas escrevem são realmente os assuntos que conversam, que se preocupam. A gente vê tanto blog por aparência…

A Nuta e a Marie, pra mim, eram as mulheres que mais chamavam atenção no bar. Talvez por eu saber quem elas são, mas elas tem algo a mais. Sabe aquele tipo de pessoa que nunca passa batida? Então, são elas.

Comecei o papo sem caderninho, gravador ou perguntas prontas. E a Nuta foi a primeira a me perguntar como eu lembraria de tudo que elas falassem. Avisei que era um bate papo pra conhecer quem são as pessoas por trás do GWS e que não seria uma entrevista tradicional.

Nossos hamburguers na Comuna! <3
Nossos hamburguers na Comuna! <3

Senti que elas ficaram confusas, mas resolveram entrar na onda junto comigo. Todo mundo acha que a Nuta e a Marie são irmãs, mas na verdade elas só têm uma amizade bizarramente fraternal. Se conheceram em 1998, através de correspondências por correio por serem grandes fãs do Oasis. Elas têm até tatuagem em homenagem à banda. A partir daí, não se largaram mais. Aliás, a Marie não gostava muito da Nuta porque ela escrevia muito sobre a vida dela e a Marie respondia só com uma linha. Não preciso nem dizer que quem escreve os textos do blog é a Nuta, hoje em dia.

Foram morar juntas aos 21 anos, sozinhas, em um apê em Ipanema. Mas era aquela loucura: festinha quase todo dia, casa bagunçada e pilhas de louça pra lavar. “A gente não tinha a menor responsabilidade. Ficamos realmente meio acomodadas com a situação, mas foi uma época muito boa”.

Depois a Nuta passou a morar no apartamento com o namorado, que coincidentemente era irmão do namorado da Marie. Mas elas não gostam muito dessa parte da história, então vou parar por aqui. Nuta ficou pouco tempo morando com ele, mas quando se separaram, ela ficou morando sozinha por um bom tempo, o que foi ótimo para o amadurecimento pessoal. A Marie foi morar com a avó, no Leblon, logo depois que saiu do apartamento que morava com a Nuta.

Papo vai, papo vem e proponho que elas respondam as 36 perguntas para fazer qualquer pessoa se apaixonar, mas claro que pulando algumas.  Deixei claro que não queria fazer ninguém se apaixonar, até porque eu já era apaixonada por elas e, no caso, eu não responderia as perguntas. Elas toparam o desafio e entraram na brincadeira, o que foi maravilhoso e nosso papo fluiu mais ainda. Me sentia uma velha amiga ouvindo histórias íntimas, engraçadas, tristes e de superação. Descobri até que eu e a Marie já tivemos uma crush num mesmo cara. Me senti em casa.

Descobri que elas perderam a virgindade no mesmo dia (essas duas realmente têm uma ligação bizarra) e que têm a mesma premonição secreta de como vão morrer. “Tiro na cabeça, ou qualquer coisa na cabeça”, responderam as duas juntas e morrem de rir. “Mentiraaaaa! Não acredito que você também pensa isso”. E foi mágico presenciar a descoberta de mais uma coisa em comum que elas têm e não sabiam. Eu entendo essa relação de amizade porque eu tenho 3 melhores amigas com uma ligação parecida. Eu também as conheci em 1998 (por isso que lembrei da data sem precisar anotar 😉 ) e morri de inveja quando elas me falaram que o maior tempo que ficaram separadas foram 15 dias.

Se elas pudessem ter uma super habilidade que não têm, elas escolheriam tocar vários instrumentos ao mesmo tempo e compor. Sim, as duas teriam o mesmo poder. Perguntei pra Nuta por que ela queria compor, se ela já escreve bem pra caramba. “Por isso que eu escrevo. Pra suprir essa minha vontade de compor”, respondeu.

Quando perguntei qual foi a maior realização pessoal delas, a Nuta me falou que foi sair de casa. A Marie ficou pensando mais tempo do que eu esperava. Eu achava que era o blog, mas as realizações delas são mais parecidas com as de qualquer pessoa. Se elas pudessem escolher entre ver o futuro ou saber todos os segredo do mundo, elas escolheriam ver o futuro. Então, saberiam se aquilo que elas fazem agora vai fazer algum sentido no futuro. Foi engraçado ouvir isso, porque achei que elas eram mulheres super bem resolvidas, que tinham encontrado o caminho. Mas, no final, estamos todos tentando encontrar um sentido pra viver. O que mais motiva elas hoje em dia, com certeza é o blog e o feedback que recebem das fãs “É isso que faz a gente continuar”.

Hoje, a Nuta mora com o namorado que veio do Sul e é o terceiro homem mais bonito que ela já viu, e Marie namora um cara que ela achava incrivelmente lindo e sensacional de uma banda. Me contaram tudo sobre como conheceram seus respectivos e ambas histórias são lindas, mas não se eu fosse contar aqui, ia prender vocês por algumas horas.

Nuta e Marie são mulheres fodas, independentes, inteligentes, firmes e seguras de quem são, mas, como qualquer pessoa talentosa e foda pra caralho, não reconhecem que são tudo isso. Aliás, uma reconhece isso na outra, mas não em si mesmas. O que eu acho uma loucura, porque se eu fosse uma delas, acho que me olharia no espelho todos os dias com orgulho de ser quem sou. Me identifiquei tanto no discurso delas, ao longo da conversa, que saí de lá achando que eu também tinha alguma conexão com elas. Mas acho que aí já foi invenção da minha cabeça de fanzoca. A conclusão é que elas não são as mulheres que eu imaginei que elas eram. Elas são melhores que isso. Minha rasa imaginação nunca conseguiria alcançar.

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Texto publicado originalmente na NOO.

De papo com Ilona Szabó

Eu poderia começar esse texto dizendo que a Ilona é coordenadora da Comissão Global de Política sobre Drogas e Democracia , uma das criadoras da Rede Pense Livre e diretora e fundadora do Instituto Igarapé, que se dedica a combater a violência e promover uma política de drogas decente aqui no hemisfério Sul. Mas a verdade é que essa mulher que passa os dias ocupada, não apenas pensando, mas colocando a mão na massa para melhorar a condição de vida das pessoas, tem uma história de muita determinação para chegar até aqui. Não teria como ela ter escolhido outro caminho. Desde cedo ela sabia que algo estava muito errado em relação à disparidade das classes sociais.

Cheguei pra entrevistar a Ilona e me deparei com uma mulher linda, com ar saudável e brilho nos olhos. Ela tinha acabado de chegar de um almoço de negócios e me pediu desculpas pelo atraso. Foi extremamente simpática e já pegou uma caixa de chocolate pra gente comer durante a entrevista. Sentamos em uma sala giganteee do Instituto Iguarapé e começamos um papo que, por mim, teria durado mais umas 3 horas.

Ela começou me contando que saiu cedo da casa dos pais e foi fazer intercâmbio, com 17 anos, na Letônia, um País que ninguém conhecia muito bem e estava em processo de crescimento. Ou seja, seria uma experiência diferente dos seus colegas de escola. Ela resolveu ir mesmo assim. Já sabia inglês e queria conhecer novas culturas. Morou com uma mulher solteira e passou um período tomando banho gelado, mesmo no inverno, porque na sua casa não tinha água quente.

Os pais da Ilona sempre a incentivaram a vencer os desafios. Ela passou por alguns perrengues, mas estava feliz, estava bem. Eles podiam ter falado pra ela voltar para o conforto do lar, mas ambos sabiam que essa experiência seria importante. O mundo se abriu, porque em Nova Friburgo, onde morava, ela disse que parecia viver dentro de uma bolha. Conviveu com pessoas de várias culturas diferentes, com vidas diferentes. Todos eram amigos dela, que sempre teve um ótimo dom para se relacionar e ouvir o outro. Esse dom fez com que a primeira ideia de profissão da Ilona fosse psicologia, porque ela sempre foi conselheira dos amigos.

Por conhecer tanta gente diferente dela, por ser aberta para novas ideias e com a sua vontade de mudar o mundo, o resultado não podia ter sido diferente.

Ilona voltou para o Brasil com o coração inquieto e a cabeça cheia de ideias. Saiu da casa dos pais, foi morar no Rio e começou a trabalhar em um banco de investimento, o que possibilitou que ela pagasse a faculdade e seus custos na Cidade Maravilhosa. Mas, para ela, de maravilhosa essa cidade não tinha nada, já que a disparidade entre as classes sociais é enorme e está escancarada na nossa frente, mas todo mundo faz vista grossa.

“Minha preocupação no Rio sempre foi que a gente vive em um laboratório a céu aberto. Você olha para qualquer lugar e vê a desigualdade. E eu me sentia mal de estar lá trabalhando num banco e sem fazer nada a respeito dessa situação. Me incomodava muito isso e acho que que quem tem esse incômodo, não tem muita escolha. Vai acabar querendo mudar”, conta Ilona.

Então ela resolveu sair do Brasil por um tempo, dar uma reciclada no currículo e fazer um mestrado. Mas quando voltasse para cá, já queria ter algo certo para trabalhar.

Saiu uma matéria no jornal de um antropólogo inglês que tinha vindo para o Brasil fazer uma pesquisa sobre a semelhança entre crianças soldados e crianças usadas para o tráfico de drogas. “Nesse dia, pensei, vou trabalhar com esse cara”, mas ela não conhecia ele, então foi atrás de uma lista de contatos que poderiam conhecer ele e conseguiu, de uma forma muito louca, encontrar um jeito de ir numa festa onde ele estaria (detalhe: nessa época não tinha Facebook!).

Ela conseguiu conversar com o cara e explicou pra ele que estava indo para Suécia, porque tinha acabado de conseguir uma bolsa de mestrado para fazer o estudo de conflito e paz. Então ela disse pra ele “Quando eu voltar, quero trabalhar com você. Porque achei o link do que eu quero fazer com a vontade de ajudar o meu país com o seu trabalho”. Hoje, esse antropólogo chamado Luke Dowdney tem um projeto bem legal chamado Luta pela Paz, que atua no Rio e em Londres.

A causa que ela escolheu trabalhar desde então foi a diminuição da violência, homicídios no Brasil e tudo que está ligado a isso. Assim que ela voltou, cumpriu sua promessa de trabalhar com o gringo Luke Dowdney. Trabalhou com ele na organização durante 5 anos e conheceu vários temas. De um dia pro outro, ela foi chamada para coordenar a campanha de recolhimento de armas pela organização Viva Rio. Depois de 2 anos trabalhando no projeto, conseguiu a aprovação da lei que restringe o porte de armas para civis no Brasil.

Ela aprendeu muito sobre política com esse projeto. Já que ela tinha uma experiência com mercado financeiro, foi ótimo entender como funciona o outro poder da sociedade. “Com isso, aprendi que pra fazer qualquer mudança na sociedade, essa engrenagem precisa estar girando, ou seja, esses poderes devem estar agindo juntos: governo, mercado financeiro e sociedade civil”, conclui.

Em 2011 ela fundou o Igarapé (o nome vem de conexões), já que ela e várias pessoas com que ela trabalhava, resolveram empreender. O foco do instituto é integração dos temas de segurança e desenvolvimento, porque, como ela mesma disse, se não existir integração nesses temas, nada se resolve. É preciso trabalhar armas, polícia, drogas, cultura, juventude… Não adianta pegar um deles de cada vez. Portanto, o Igarapé surgiu para ser uma ponte entre setores, já que todos eles precisam estar conectados para que algo realmente mude. A ideia do Igarapé é colocar todas essas questões na mesa.

“Às vezes o debate está totalmente emperrado no Congresso Nacional, mas, através de organizações como aONU, eu consigo destravar o processo. Consigo mandar recado de um lado para o outro. Então a gente está sempre operando em multiníveis, o que é um trabalho tenso, mas é só assim que se consegue fazer uma mudança sistêmica”, explica Ilona.

Além de fazer tudo isso, Ilona é a roteirista e principal pesquisadora do documentário Quebrando o Tabu, que fez o maior sucesso aqui no Brasil e no mundo. O filme é conduzido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, adepto à descriminalização da maconha. O documentário explica como a política anti-drogas gera a maior parte da violência sofrida aqui no Brasil; e vale muito a pena assistir para entender o tamanho do problema. Ilona trabalha principalmente em cima dessa agenda de descriminalização das drogas, para que uma política seja implantada e melhore a vida de todo mundo. No Brasil, ela é um dos pulsos mais fortes para a legalização das drogas e eu estou na torcida para que alguma coisa, de fato, mude.

Ilona é uma mulher muito corajosa, forte e determinada. O trabalho que ela faz é incrível, mas ao mesmo tempo muito difícil, porque é nadar contra a corrente, é tentar convencer pessoas completamente diferentes, de vários setores e que, muitas vezes, têm ideias completamente opostas às dela. Mas ela acredita que só assim que uma grande mudança pode ser feita: com diversidade e debate.

Saí de lá ainda cheia de perguntas na cabeça, querendo entender tim tim por tim tim sobre o nosso sistema, mas cheguei à conclusão de que isso é assunto pra outro texto. Esse é pra falar da Ilona e da diferença que ela está fazendo no mundo.

Você também encontra meu texto na NOO!