Quase isso

Foto por Susanna Majuri
Foto por Susanna Majuri

Fiquei lá… Te esperando na porta só de calcinha, como já fiz com tantos outros, como sei que ainda farei. Mas isso não muda nada, porque ali, naquela tarde, eu estava lá só por você.
Esperava enquanto fumava um cigarro, como se ele pudesse me trazer calma.
Você. Você era a única coisa que poderia me trazer calma. Mas não, você foi embora sem despedidas, saiu correndo quase despido, quase culpado por ir me deixando lá.

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Te trago, amor

Te trago. A fumaça me envolve a alma, o cheiro do Marlboro invade o apartamento e esqueço de abrir as janelas. Na realidade não quero que a fumaça saia, ela é minha única companhia. Mais que isso: ela é minha, mesmo que de segundo em segundo se esvaia pelo vento lento que ali respiro.

Te trago, cigarro. Um. Depois outro. E outro. Repetidamente e sem parada. Meu pulmão há muito reclama desse vício que – como defino – faz bem pro espírito e pessimamente mal para a balança (meus 50 quilos distribuídos em 1,68 m não me deixam mentir). Trago pelo vício, e trago vício pro corpo cansado das situações mal-resolvidas e amores deixados de lado, das mensagens não respondidas, ligações não atendidas, e-mails não visualizados. Das notificações que desde sempre me incomodaram e agora fazem números gritantes na tela inicial do celular.

Te trago. Te trago, cigarro, olhando praquela foto velha, meio amarelada, do amor que tive e perdi pra mim mesma por não acreditar que devia/podia/queria; por não acreditar nele e viver, hoje, trazendo apenas cigarros pra dentro de casa. Nem mais amor, nem um único perfume masculino, nem uma única cueca. Não trago amor, mas trago cigarros.

Eles, com as garrafas de vinho, as músicas lentas da vitrola de agulha torta e as caixas de pizza me acompanham pelas leituras dos romances que não vivi porque nãos quis, porque fechei portas (e janelas, pelo que parece), porque não deixei fumaças dos fogos antigos apagarem e não permiti novos fogos acenderem; por não ter vivido o que falei que viveria, por não ter trazido nada mais que migalhas desonestas pra mim.

Te trago, amor. Te trago olhando a foto amarelada de 2001 e soltando as fumaças entre tosses tímidas. Te trago, amor, queimando os pulmões e não acolchoando mais a alma, que escorre junto às lágrimas nada sutis. Te trago agora, amor, pois naquele tempo não trazia nada mais que muitos nãos acompanhados de dúvidas e sins a tantos outros que não mereciam minhas certezas.

Te trago, cigarro, pois a ti não me resta nada a não ser te acabar em curtas e rápidas tragadas, assim como a mim é o que me faz. Me acaba, derrete, esfumaça… E apaga.

Na fila do pão, a alma vazia

Photo via kafkalog

Parado em frente à bancada, não me lembro mais quantos pães tenho que pedir.

– “Senhor?”

– “Apenas dois”.

Por mais que seja só para mim, sempre multiplico por dois para não ter perigo de faltar, sou meio guloso. Se sobrar, faço torrada.

Depois que perdi minha companheira há um ano, meu rumo se foi com ela e, em seu túmulo, nem o “dedicada esposa” foi escrito; não fui seu marido. Também lá não estava “amável mãe”, pois não lhe proporcionei filhos. Por que ela estava comigo não sei, talvez pelas notas não atingidas da voz do cantor que não fui, ou das letras perdidas do compositor que não me tornei, como havia lhe prometido em 89. Aquele roqueiro amor e a droga do amor suicida me alucinavam e eu disse tanta coisa que, passados os anos não cumpri, que não sei mais o que foi verdade e o que foi overdose.

Pelas pessoas prometidas que não fui, não entendo por que Beth permaneceu. O motivo de sua doença ainda é desconhecido; disseram ser depressão, mas ninguém morre disso. Acho que ela morreu porque em 89 eu matei os seus sonhos, ela só sobreviveu até o ano passado para mostrar que eu era nada daquilo que parecia ser.

– “Pensando bem, me vê apenas um pão” – sempre pensei só em mim mesmo.

Saí dali sem nada, apenas com um saco de um pão… E a alma vazia.

Mariana, o amor não enxerga gênero

Arte por Sabrina Gevaerd
Arte por Sabrina Gevaerd

Eu já estava dormindo quando meu celular tocou naquela madrugada. Acordei meio assustada com o barulho alto, já que eu durmo com o celular quase grudado no rosto, e vi um número desconhecido na tela. Normalmente eu não atenderia, mas tive uma sensação esquisita de que eu precisava atender aquela ligação. Era um cara qualquer que trabalhava em um bar onde uma menina muito bêbada estava precisando de ajuda, e meu numero era o mais discado do seu celular. Tive certeza que era Mariana. Fui de pijama mesmo, o cabelo preso em um desses nós embaralhados no topo da cabeça, usando meus óculos velhos e uma havaiana desbotada. Quando cheguei lá a encontrei praticamente desmaiada, e senti uma misturade raiva pela sua falta de cuidado com uma preocupação em saber o que tinha acontecido. Mariana nunca foi dessas que bebe demais, então algo estava claramente errado.

Precisei acordar meu irmão para me ajudar a carregá-la do carro até meu quarto, tirei seus sapatos, coloquei um balde no chão e deitei do seu lado na cama. No dia seguinte acordei quando ela pulou para fora da cama em busca da privada e acabamos passando a tarde inteira entre cochilos, ela passando mal, eu perguntando o que tinha acontecido e recebendo de respostas apenas desculpas, como estresse, para ter bebido tanto. Eu sabia que ela estava me escondendo algo, mas achei melhor não pressionar e esperar ela me dizer quando quisesse. Apenas deixei claro que eu estaria ali para ouvir se quisesse me falar quando se sentisse preparada.

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Wikilivro #PARTE 1

Arte por Beth Hoeckel
Arte por Beth Hoeckel

Desde que Lela recebeu a notícia ontem, não conseguiu dormir, nem comer, nem falar, nem escrever. Pegava qualquer coisa pra ler, mas as palavras chegavam só até a retina e não eram decifradas pelo cérebro. Pra não dizer que não comeu nada, pegou um yogurte de gosto duvidoso na geladeira e foi para o trabalho, sem precisar pensar no caminho que já conhecia. Sabia que a partir daquilo, tudo ia mudar. Chegou no centro da cidade com ansiedade para ver como as pessoas reagiriam ou se pelo menos sabiam de alguma coisa. Na TV não falaram nada. Nas redes sociais ninguém teve coragem de tocar no assunto. Olhou pra cima e sentiu o tempo fechando. As nuvens se juntaram bem rápido em cima dos prédios. Dava pra ver pela fresta, que fica quando você olha pra cima e vê um corredor destorcido de azul entre o topo dos prédios, mas agora a cor era cinza carregado. A manhã ficou com cara de entardecer. Escuro, escuro. Os postes se acenderam. Ventava muito e os papéis, as folhas secas de árvores e o lixo jogado pelos cidadãos sem esperança se misturavam numa dança circular que intimidava os transeuntes.

Lela entrou rápido no prédio, prendeu um cabelo num meio rabo de cavalo e entrou no elevador aliviada por subir até o 15º andar sozinha. Cumprimentou o recepcionista, que lixava as unhas distraído, e foi direto na copa pegar um café. Sentou na sua mesa e sentiu que um clima estranho pairava no ar. Será que todo mundo já sabia da notícia? Amanda chegou de luvas de inverno, o que atraiu os olhares de todas as baias do escritório, mas ninguém falou nada. Em dias normais a zoação teria chegado aos grupos de Whatasapp, mas hoje não. Lá fora estava escuro quase como se estivesse de noite, mas não chovia, como se a chuva estivesse esperando um sinal para descer. E se nunca mais parasse de chover quando começasse?

Lela foi olhar pela janela e tomou um susto quando viu uma projeção no prédio da frente que explicava sobre a nova descoberta das ondas gravitacionais. A imagem de dois buracos negros se unindo naquele mar de brilhantes fez com que os olhos se enchessem de lágrimas. Amanda chegou do seu lado e falou ” é incrível isso, né?”. E era. Mas essa descoberta tinha acarretado um monte de movimentações que muita gente não fazia ideia. Lela roía as unhas de nervoso, talvez por saber mais do que deveria, mesmo sabendo que a notícia tinha se espalhado de forma silenciosa. Mesmo assim, resolveu encarar a situação de frente. Não dava pra continuar fingindo que nada aconteceu

– Amanda, o que houve com suas mãos?

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De que lado da cama você dorme?

Arte por Frank Moth
Arte por Frank Moth

De que lado da cama você dorme? Quando você chora? O que te faz sorrir? Onde mora sua paz? Qual é a parte do seu corpo que mais sente cócegas? Qual é o sonho que mais te visita? Você prefere a noite ou o dia? Areia ou terra? Café ou chá? Cerveja ou vinho? O que você faz num domingo à tarde? Qual é o seu medo que de tão grande fica num cantinho esquecido do seu pensamento? O que te orgulha nesta vida? O que te dá sentido? O que te faz vibrar? O que te faz bocejar? O que te causa revolta? O que você já aprendeu vivendo? O que o sofrimento te trouxe? e a ternura? e a alegria? Quem é a pessoa que te habita quando fica sozinho? E a pessoa social? Você é sociável? Gosta de crianças? E de bichos? Gosta de cachoeira? e de mar? Gosta de cidade grande? E de viajar? Gosta do silêncio? E de falar? Tem um amuleto? Tem um orixá? Tem o corpo fechado? Tem o coração pronto para amar? Nasceu há quantos anos? Em que dia? Qual é o seu signo? E o ascendente? Acredita em vidente? E em Deus? É ateu? Agnóstico? Budista? Filósofo? Humanista? Tem fé em que? O que te faz sentir? O que te faz partir? E querer ficar? Em que se pautam as suas escolhas na vida? Você luta? Ou deixar estar? Como você dorme? se esparrama na cama ou se comprime? Nu ou vestido? Acompanhado ou sozinho? O que faz seus olhos brilharem? Qual é o caminho do seu coração? É pelo estômago? É pelo sorriso? É pela magia de uma história sem sentido? Qual é o seu tipo de sangue? Com qual mão você escreve? Prefere papel e caneta ou teclado? Gosta de tecnologia? De bicicleta? Qual música te desperta? E que te faz cantar? Você canta? Você fala? Você sorri? Você existe mesmo? Não foi uma alucinação? Você acredita em destino? E em acasos? E em milagres? Confia na vida? Ou no livre arbítrio? Você é real? Ou foi inventado?

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E eu amei você mesmo assim

Eu sei que deixei o café esfriar, a geladeira esvaziar, a comida queimar, mas eu amei você mesmo assim. Eu sei que não vou pude burlar o futuro e deixei o passado pra trás, mas eu amei você mesmo assim. Eu sei que as pessoas perguntaram para onde eu fui e questionaram onde estaria agora, mas eu amei você mesmo assim. Eu sei que na nossa historia já existiram outras despedidas e dessa vez eu perdi o rumo de volta, mas eu amei você mesmo assim. Eu sei que fechei as janelas da nossa casa e que fiz com que elas já não significasse mais liberdade, mas eu amei você mesmo assim.

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Catarina, o amor não enxerga gênero

 

Arte por Aliza Razell
Arte por Aliza Razell

Fui buscar Catarina na delegacia de novo. Pela segunda vez neste mês. Ela não consegue ir pra uma festa e não se meter em confusão. E eu já to cansada de tirar ela dessas burradas. Catarina é minha melhor amiga desde que eu aprendi a reconhecer o que é uma amizade. A diferença é que, nessa época, a Catarina se chamava Felipe. Ninguém entendia muito bem o que se passava na cabeça dela, muito menos eu. Eu falava que Felipe era meu namoradinho, mas ele não gostava de mim. As tias da escola falavam que os meninos eram assim mesmo, que se afastavam das meninas e implicavam com elas quando estavam gostando. A diferença é que a Catarina nunca me esnobou como quem sente uma atração e não sabe como reagir. Enquanto era Felipe sempre foi muito próximo de mim, mas não demonstrava nenhuma atração. Quando eu era menor, eu sabia exatamente o efeito que o sexo oposto causava em mim. Queria ficar perto, mas ao mesmo tempo longe. Mas pra ele eu era só uma amiga e ele sempre me dava língua quando eu falava que ele era meu namorado.

Ficamos melhores amigos e o Felipe tinha mania de pegar minhas coisas. Meus colares de plástico, meus sapatos e meus lápis de pompom. Eu achava graça em tudo isso, mas o resto da sala caia em cima com aquele bullying que todo mundo já sabe de cor. Eu não sei onde a gente aprende a julgar os outros desde tão novos. Será que são nossos pais, a mídia, os desenhos? De onde vem essa irracionalidade cultural? Alguma coisa acontecia na vida do Felipe, mas eu não conseguia perceber. Ele brincava de boneca comigo, não tinha amigos meninos e sempre dava um jeito de usar vestido.  Por sorte, minha mãe nunca me pediu pra eu me afastar do Felipe, ao contrário dos outros pais, mas tentou me explicar de alguma forma que ele tinha alma de menina. Mas eu achava que era só uma metáfora bem-feita por ele entender tanto esse universo feminino, que era o meu. Felipe saiu da escola por causa das piadas maldosas e só voltamos a nos ver na faculdade. Mas não era mais o Felipe. Ele tinha se transformado numa mulher maravilhosa e incrível chamada Catarina.

Nossa aproximação foi como de dois amantes que são separados pela guerra e não querem se desgrudar nunca mais. No caso, não éramos amantes, mas confidentes inconsoláveis. Ninguém me entendia como a Catarina, e ela dizia que ninguém a tratava com tanta naturalidade quanto eu.  Eu tinha minhas amigas da época, mas depois que Catarina reapareceu, minha vida realmente voltou pros trilhos. Eu até sentia uma pontinha de inveja, porque ela era bem mais bonita que eu. Eu nunca soube entender muito bem esse sentimento.  Não sei até que ponto era uma admiração absurda ou ciúmes mesmo.

Percebi que ela tinha uma visão diferente do mundo, fora daquela fla x flu ou preto no branco. Estudou tanto sobre gênero que passou a dar palestras em algumas universidades, tinha artigos publicados em revistas. Mas ela gostava de ficar no anonimato. Odiava esse fuzuê todo que as pessoas faziam em relação a ela. O assunto precisava ser discutido por inúmeros motivos, mas não deveria ser  tratado como uma anomalia ou algo extraordinário. Catarina teve sorte. Seus pais eram separados e ela viveu a vida toda com a mãe, que depois de sair de um relacionamento abusivo com o pai, se abriu pra vida e se livrou de todos os preconceitos dos outros e dela mesma. Quando percebeu que seu filho, na verdade, era filha, tratou logo de entender tudo sobre o assunto. Talvez essa força toda de Catarina venha do apoio da mãe.

Mas essa confiança toda tinha efeito rebote quando Catarina se apaixonava. E ela se apaixonava muito. Em todos os lugares que a gente ia, todos os caras davam em cima dela. E ela amava isso, mas quando descobriam que ela é transgênero, eu tinha que dar um jeito de tirar ela do lugar antes que nós duas saíssemos mortas. É claro que os boatos se espalhavam e nós éramos namoradas, ETs, eu era transgênero também, travesti, a porra toda, já que a maioria das pessoas não sabe diferenciar muito bem uma coisa da outra. Existem quase 20 opções e nomenclaturas para trans-identidade. Eu mesma não entendo muita sobre essas diferenciações e nomenclaturas, mas a Catarina sempre diz que é importante saber, que essas identidades têm um peso e todo mundo quer ser identificado. Pra mim, todo mundo é gente e acabou. As nomenclaturas são só uma forma de querer enquadrar os sentimentos que a gente não se permite sentir. Uma forma de nos sentirmos únicos e ao mesmo tempo parte de um grupo. Somos todos a mesma bosta moldada pela nossa cultura competitiva e tediosa.

Catarina sempre foi mestre em se meter em confusão. Pegava os caras e quando eles descobriam, era porradaria na certa. Sendo que a Catarina, por mais que nenhum cara acreditasse, é uma mulher. E a Lei Maria da Penha também se aplica a ela. Mas eles não querem nem saber. Metem a porrada mesmo. Ela tem uma cicatriz do rosto por causa de uma dessas confusões. Eu não tava nesse dia, mas fui levar ela pro hospital e depois pra delegacia. Lugar que a gente já conhecia bem. Falava pra ela avisar antes, que tinham caras bacanas que iam gostar dela pelo que ela era, mas ela me respondia que essa era ela e que ela não precisava ficar contando do passado pra alguém gostar de quem ela é hoje. Me calava.

Aos poucos fui nutrindo um sentimento de raiva. Por ela e por todo mundo que não entende ou não quer entender. Não faz o mínimo esforço e nunca se perguntou por que se consideram homem ou mulher. O que te faz se sentir homem? O que te faz se sentir mulher? Quando você decidiu isso? Você realmente decidiu ou parou de negar o que realmente sente? Pois bem. Você não decide ser o que é. Você é o que você sente. E falam que temos que ser nós mesmo, mas qual é o custo que se paga por ser quem realmente somos?

Me afastei dela por um tempo, pra entender essa confusão toda que se passava em mim. Fui injusta e infantil por não ter percebido que essa raiva tinha outro sentimento. Esse sentimento de admiração pela força e coragem que a Catarina sempre teve e eu não tive. Eu era fraca demais pra entender que esse preconceito vinha de mim, da minha completa incapacidade de me enxergar. Catarina é e sempre vai ser o amor da minha vida. O amor que eu sentia pelo Felipe, quando eu falava que a gente era namoradinho na escola, não passou. Eu sempre fui apaixonada pela Catarina, mas sabia que esse sentimento não poderia ser mútuo. A Catariana gostava de meninos, assim como eu sempre gostei. Me considerava hétero porque nunca senti atração por mulher alguma, mas a Catarina era além de homem ou mulher. Catarina era uma pessoa incrível que me fazia questionar tudo, menos eu mesma. Sempre tive medo de olhar pra ela desse jeito porque eu mesma não aceitava.  Claro que um pouco pelo medo da rejeição dela, mas principalmente da minha rejeição, de como eu me olharia sabendo que fui a vida toda, perdidamente apaixonada por uma mulher. Uma transgênero. Eu que me achava super cabeça aberta e não entendia a rejeição dos outros.

Catarina sempre soube disso, mas não queria insistir. Ela não sentia o mesmo por mim e sabia que eu nunca aceitaria se ela me falasse. E eu fiquei tão confusa e não entendi nada, porque até nisso a gente se limita. Ou você é gay ou não é. Ou você se considera mulher ou não. Mas existem tantas, mas tantas formas de amar e ser você, sem precisar se enquadrar em nenhum desses estereótipos. Ser hétero também é um estereótipo. Você sabe que é, do fundo do seu coração, então não se permite enxergar além. Não existe nada disso. Dá pra ser mulher a vida inteira e decidir que a partir de hoje quer ser homem porque você se sente homem, e tudo bem. Dá pra ser gay a vida inteira, mas se apaixonar por uma mulher porque somos pessoas e atração e sentimento não enxergam gênero. Nós somos o que somos hoje e não tem regra. De onde tiraram isso de que você tem que se definir e pronto, acabou? O que é mais bonito no ser humano é que ele muda constantemente e nossas vontades se misturam. E todo mundo é assim, mas nossa cultura não permite sair da linha. E meu amor pela Catarina foi construído por tudo que ela lutou e luta até hoje. Porque ela já tinha me falado tudo isso, porque ela já experimentou sair de todas as linhas, de todas as formas da sua zona de conforto. E como a gente vai enxergar tão além, se ainda estamos discutindo machismo ou casamento gay? Ela cresceu assim, sabendo disso. E eu cresci ao lado dela e não me permiti.

Hoje eu fui buscar a Catarina de novo na delegacia e vou buscar mais mil vezes, se for preciso. A gente nunca vai viver esse amor da forma como eu queria, porque ela tem todo o direito de não se apaixonar por mim e eu não posso culpá-la por isso. Por mais que eu seja a pessoa que mais apoia ela em tudo, que esteja com ela pra tudo. Vou viver esse amor como eu sempre vivi, ao lado dela, sem me martirizar. Posso até me apaixonar por outra pessoa, mas a Catarina sempre vai ser a última pessoa que penso quando vou dormir.

 

Inventei você pra poder me proteger

Arte por Sofie Bird Møller
Arte por Sofie Bird Møller

Eu prefiro um amor inventado. Não  precisa se preocupar se vai acabar ou não. A gente só sabe que ele vai permanecer ali, intocável. Porque tudo que é ilusório é mais perfeito. Não teve tempo nem espaço para ser destruído. Então eu te peço pra que não venha nunca, que você fique aí onde está. E eu quero continuar aqui, imaginando que você é todas essas coisas que ninguém mais consegue ser. Essa é a minha fuga. Pra que eu nunca, nunca mais perca a cabeça por ninguém. E mesmo agora que existe alguém real, eu continuo voltando pra você. Volto pensando que você é quem foi feito pra mim. Volto pensando que eu ainda estou te esperando e que talvez eu fique assim pra sempre, mesmo que a gente não se veja por um milhão de anos.Mas no fundo isso é tudo mentira. Na verdade você é meu escudo e ninguém vai conseguir te barrar nunca, porque você está dentro da minha cabeça. E ninguém real, por mais incrível que seja, consegue barrar um personagem. E eu te criei pra ser a minha defesa. Você disfarça o meu sofrimento e meu medo de cair, mas superficialmente. E depois eu nem sei mais se eu quero você. Eu quero só a sua imagem. Sempre te pedi pra que viesse, mas agora eu peço que você fique onde está. Ou até que você fique por aqui na minha cabeça, me protegendo. Eu sempre fui a louca que gosta de se apaixonar, que mergulha de cabeça e vai fundo, sem pensar no depois. Mas eu só faço isso com os amores inventados. Quando vira real eu recuo. Ou melhor, quando é verdadeiro eu mergulho tão fundo que eu perco o ar. Eu quero voltar pra superficiente mas ao mesmo tempo quero fica lá embaixo pra sempre. Eu sinto vontade de voltar pra casa e ficar sozinha, junto com todas as minhas inseguranças em relação aos outros que fingem tudo, menos amor. E todas essas inseguranças me deixam mais segura do que a certeza de estar apaixonada de verdade. É que eu fico desnorteada quando as coisas começam a dar certo. Eu estou tão acostumada com o errado, que começo a achar tudo ao contrário. E eu fico sem saber o que fazer, porque só sei agir quando as coisas estão meio tortas. Eu já sei o caminho. É mais fácil seguir. O amor é imprevisível.

O dia que o amor acabou

Foto: Nazif Topçuoğlu
Foto: Nazif Topçuoğlu

No dia que o amor acabou eu não tive tempo de arrumar a cama, nem de decidir se eu queria pintar minhas unhas de azul ou vermelho. Não tive tempo de olhar se meu cabelo estava no lugar e nem de tomar o café que eu tomo todos os dias. O dia acabou e eu percebi que pela primeira vez eu tinha me esquecido de lembrar de você. Olhei pro lado e você não tava mais aqui. Olhei pra dentro de mim e tentei te encontrar. Nada. Olhei embaixo da cama, atrás da cortina e nada de você aparecer e fazer meu coração apertar. Então comecei a chorar desesperadamente porque você tinha saído da minha cabeça. Eu sempre chorei porque queria te esquecer, mas hoje eu chorei porque eu te esqueci. O amor finalmente tinha morrido em mim.

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