Vaidade das vaidades

Pintura por RJ Poole
Pintura por RJ Poole

“Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade”. A frase do Eclesiastes traduz bem a nossa época. A vaidade é a mentira que contamos sobre nós mesmos, por isso o assunto exige sinceridade e autocrítica. Nossa agonia de achar um lugar no mundo nos diz algo que é profundamente verdadeiro: somos pó.

A manifestação mais óbvia da vaidade é a beleza. Tempos atrás as cirurgias plásticas eram feitas para corrigir defeitos congênitos. Hoje pensamos que a falta de beleza é um defeito congênito, tal como o envelhecimento.

Preferimos acusar a ditadura da beleza física em defesa da democracia da beleza interior, porque sobre esta é mais fácil mentir. Ela é invisível e esconde um vazio maior: o da alma. Mas a vaidade não tem relação apenas com a beleza, ela vai além: é uma máscara, um véu sobre o vazio. Por isso, ela aparece como algo que deve ser superado. Uma doença da qual deveríamos curar com o tempo.

Diante desse contexto, indaga o filósofo Luiz Felipe Pondé: “Mas não seria vaidade maior ainda se orgulhar de não ter vaidades”? Só o rico pode criticar a riqueza? Só o belo pode maldizer a beleza? Só o sábio pode queixar-se do conhecimento? Sim, pois caso contrário corremos o risco de parecermos ressentidos, bradando contra aquilo que não temos.

Sempre queremos sair do clichê, mas como disse Oscar Wilde, só uma pessoa superficial não julga a outra pela aparência. Diante da beleza do outro nossas imperfeições se evidenciam. A vaidade se esconde atrás da inteligência, da atitude. Seria a vaidade intelectual mais perdoável?

A vaidade física esconde as rugas, a intelectual, as inseguranças. O fato é que não existe maquiagem ou cirurgia plástica para suprir a falta de inteligência. E a sua vaidade? O que ela esconde?

Procure ver a 3° margem do rio. Sua vulnerabilidade não pode te parar.

Arte por Sanja Marija Marušić.

A ideia pode ser batida, mas não há outra maneira tão eficaz quanto a de enfrentar os obstáculos que a vida te impõe. E isso não significa negar as dificuldades nas quais você está envolvido, fechando os olhos para o desconforto que sente dentro de si. Pelo contrário, é ter consciência de que algo precisa ser modificado e ter a ousadia de se desafiar cada dia mais em busca da sua evolução, seja ela pessoal ou profissional.

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Você sente o que sente?

Foto por Bárbara Garrido.
Foto por Bárbara Garrido.

Se estiver feliz, sorria. Se estiver triste, chore. Se estiver com medo, se esconda. Parece simples, mas identificar todas essas emoções, principalmente as negativas, com os seus corretos nomes não é uma tarefa fácil. Até porque em algum momento da vida você foi aconselhado a ‘deixar pra lá’ os sentimentos ruins como raiva, inveja, medo e frustração; ao mesmo tempo, a ideia de apologia à felicidade lhe foi imposta: é preciso estar bem e feliz, sempre!

Claro que buscamos o estado de contentamento, porém, negar ou maquiar o que se sente não é o melhor caminho para tanto. Aceitar o domínio de uma emoção negativa faz com que ela seja superada mais rapidamente. Nesse contexto está inserida a inteligência emocional, conceito trazido pela psicologia que descreve a capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros, assim como a habilidade de lidar com eles.

De acordo com Daniel Goleman (nome de referência sobre o assunto), a inteligência emocional também é responsável pelo sucesso ou não dos indivíduos em várias áreas da vida – é tão ou mais valiosa que o famoso QI. Como exemplo, recorda o autor que a maioria das situações de trabalho é envolvida por relacionamentos entre as pessoas e, desse modo, as que têm uma melhor compreensão de si e do ambiente que as cerca têm mais chances de obter êxito. Além disso, indivíduos com essa capacidade desenvolvida têm geralmente boa autoestima, motivam-se facilmente, são persistentes e controlados.

E se você acha que isso é tudo uma grande enrolação, saiba que a ciência já descobriu que pessoas com altos níveis de QI são superadas 70% das vezes por pessoas emocionalmente inteligentes. Basicamente, saber controlar suas próprias emoções, refletir sobre elas e colocar suas conclusões em prática pode fazer com que você se dê melhor do que o “gênio” da turma.

DICAS PRÁTICAS PARA DESENVOLVER A SUA MENTE EMOCIONAL.

Preste atenção no corpo. Em vez de ignorar os sinais físicos das emoções, comece a ouvi-los. Nossas mentes não são desconectadas do corpo, eles se afetam profundamente. Por exemplo: o estresse pode causar algo parecido com um nó no estômago, pressão no peito ou respiração acelerada.

Evite julgar as emoções. Todas elas são válidas e têm seu papel, até as negativas. Ao condená-las, você inibe a habilidade de sentir plenamente, o que dificulta o uso delas em seu favor.

Pratique decidir seu comportamento. Você não pode evitar as emoções que sente, mas pode decidir como reagir a elas.

 

Minha verdade e suas verdades

Foto por David Benincá
Foto por David Benincá

Certa vez me disseram que eu deveria parar: parar de ser assim tão sincera. Mas não consigo, então, se preferem que eu me cale, melhor viverem longe de mim. Essa sinceridade no viver e no acreditar sempre fizeram de mim uma pessoa meio calada, de poucas palavras, mas que, quando perguntada, falava na lata, chutava a barraca.

Não, não sofro de sincericídio, não sou grossa nem insensível, pelo contrário. Por ter coração demais, vivo da verdade, da palavra dita sem rodeios, da objetividade subjetiva. Poucas entrelinhas. Pouca confusão. Apenas direto e reto. Tem gente que não sabe conviver com isso, acha que sou grossa demais, me pede calma. Eu estou calma, só estou sendo sincera.

Essa roupa está boa? E esse sapato? Este texto? E esse namorado? Não, não está bom (da mesma forma que: sim, estão ótimos, combinam com você – para todas essas perguntas). Ser sincero dói muito em quem escuta a verdade, mas é mais difícil de ser falado que ouvido. É ruim você ver alguém iludido por algo que, cegamente, acredita ser real, quando, infelizmente, nada passa de um castelo de cartas prestes a se esvair no vento. E daí entra quem? A amiga/mãe/filha (ou seja-mais-lá-o-que-for) sincera.
 
Acredite: é bem melhor ouvir (ou ler) agora do que, depois, precisar falar “por que você não me avisou?”. É meio difícil, no meio de tanta gente perdida no que quer acreditar e no que, de fato, é realidade, que nem podemos culpar ninguém. Foi assim que tudo isso foi vendido. Por isso, se você é pé na nuvem, tenha sempre uma pessoa pé na lama – não no sentido ruim da palavra, porque essas pessoas são mesmo especiais (mesmo que algumas delas incompreendidas) – mas no sentido do que é real.
 
Todos nós devemos, queremos e podemos viver todas as nossas fantasias, desde que sempre, ao colocarmos a cabeça no travesseiro, tenhamos, no fim das contas, dito verdades a quem nos indagou respostas sinceras. Nossa verdade vale mais que mil mentiras inventadas, mil histórias mal contadas e mil imagens mal vendidas.

Ahimsa, somos apenas um

Ahimsa
Ahimsa.
 
Essa tatuagem no meu punho esquerdo, que – com o braço esticado – dá direto no coração significa muito pra mim. Deveria significar para mais gente também, mas por enquanto é para mim. Se não sabe o que é, explico com amor: a-himsa, o primeiro ensinamento de Gandhi, em sua etimologia significa não (a) violência (himsa), o famoso conceito de não violência lançado e praticado pelo líder religioso e tão presente no budismo e hinduísmo.
 
Se engana aquele que pensa que quem acredita nisso é passivo e que significa, simplesmente, o “não matar”. Não deixa de ser verdade, mas, mais que isso, praticar o ahimsa configura-se ter autocontrole e equilíbrio interno não somente nas atitudes, como também nos pensamentos. Vendo tanta gente formadora de opinião com as redes sociais sendo palco de muitas ideias tortas, a empatia falta – mas o ahimsa mais ainda.
 
O primeiro passo é: coloque-se no lugar do outro, sinta, pense como ele: por que fez isso? Por que permitiu isso? Ele, de fato, permitiu algo? Ele, de fato, quis isso? Por que julgo? Quem sou eu?
 
Pois bem: eu sou tão mínima perto do universo. Por que, cargas d’água, eu estaria, então, tão certa? O certo e o errado variam (e muito), os limites dos outros também. Se tenho a liberdade de fazer algo por mim, isso é magnífico. Mas se tenho o discernimento de reconhecer o limite do outro, então isso é ainda mais incrível. Não machucando o outro, também não me machuco; não difamando o outro, durmo tranquila à noite; não plantando o ódio, não colherei um coração triste. A prática da empatia e do ahimsa, no fim das contas, é uma rede de bem: faço bem para o outro e, consequentemente, faço o bem para mim e para aqueles que estão à minha volta.
 
Parece difícil e, até certo ponto, é mesmo. Mas o que seria o ser humano sem o constante aprender, sem as inúmeras experiências com seus erros e acertos? O ahimsa ensina: o conceito é ativo quando praticamos, no dia a dia, a não falar mal do outro, a não alimentar raivas, a não criar inimizades, a perdoar sempre. Se é difícil, comece por separar o lixo corretamente, escutar seu avô contando histórias do passado, não compartilhando ideias preconceituosas, procurando saber o que as coisas são antes de passar para frente, procurando entender os porquês dos outros. 
 
“Os outros são tantos e eu, apenas um” – eu hei de aprender com tanta gente.

Pelo fim da cultura do estupro

Pintura por Dino Valls
Pintura por Dino Valls

Essa semana foi trágica para uma mulher. No Rio de Janeiro, uma menina menor de idade foi estuprada por 30 homens enquanto estava desacordada. Ela era menor de idade, tinha um filho, era usuária de drogas e foi para uma festa em uma comunidade. Ela tem uma família, foi criada na cidade do Rio de Janeiro e frequentou a escola. Ela brincou quando era criança, ela tem amigos, ela tem histórias engraçadas pra contar, ela tem desilusões amorosas, ela tem um perfume preferido, ela gosta de mexer no cabelo, ela já amou e foi muito amada, ela já vibrou com um jogo da copa do mundo, ela já chorou vendo um filme, ela já pintou as unhas de vermelho, ela se preocupa com o peso, ela tem planos pro futuro, ela gosta de sair pra dançar, ela gosta de conhecer gente nova e dar uns beijinhos, ela parece comigo. Fui eu naquela cama. Foi a minha irmã. Foi você. Foi a sua filha.

Não conheço ninguém que apóie ou aprove o estupro, mas conheço pessoas que o justificam. Pessoas do meu ciclo social, graduadas, pós-graduadas, professores, médicos, advogados e pais (pais de meninas, inclusive). E mães. E outras mulheres. Acredito que muitas pessoas tenham ouvido ou lido nas redes sociais que “é um absurdo, mas o que ela estava fazendo numa festa na favela?”, “ela tava bêbada, né?”, “mas ela tinha filho nessa idade…” entre tantas outras falas que tentam dizer que, na verdade, ela não é tão vítima assim. Entenda, as pessoas que pensam assim nunca estupraram ninguém, nunca forçaram mulher nenhuma a nada, mas elas são parte da cultura do estupro. Você não precisa ser uma pessoa violenta pra colocar combustível nessa cultura, na realidade, você nem precisa ser homem para estar inserido nesse contexto. O ato da violência sexual física é apenas a superfície disso tudo. Nós nascemos na cultura do estupro e é muito difícil sairmos dela, mas estamos em estado de calamidade pública. Precisamos fazer um esforço coletivo para rompermos com essa cultura na qual eu garanto que você está inserido de alguma forma.

Sabe coisa de homem? Sabe aquele pai que diz pro filho que ele tem que bagunçar as meninas? Essa é a cultura do estupro. Um homem só se prova homem se tiver relação sexual com uma ou, de preferência, várias mulheres. Mas tem que ser coisa completa e que traga os louros pro pai e amigos. Moleque macho esse! Sabe aquele vídeo pornô violento que não tem relação nenhuma com a vida sexual de pessoas normais? Sabe aqueles caras que assistem a isso com admiração e fazem comentários bem parecidos com os que os estupradores fizeram nas fotos da vítima de estupro no twitter? Essa é a cultura do estupro. Sabe aquele vídeo ou nude que a menina manda pro namorado e ele vaza pra um amigo? Sabe quando esse material vai parar num grupo de homens no whatsapp e todos se divertem muito com isso? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando um cara assiste a isso e se cala? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando uma mulher fala que a outra é vadia por causa das histórias dela com outros homens? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você escolhe chegar na menina mais bêbada da festa porque vai ser fácil? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você dá essa dica para um amigo? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você fala que a menina saindo de madrugada deu mole pra ser estuprada assim como um homem que, na rua de madrugada, deu mole pra ter seu celular roubado? Essa é a cultura do estupro.

A cultura do estupro é quando a gente reforça a ideia de que o corpo e a nudez da mulher podem estar vulneráveis ao homem e isso se torna banal. Seja para um ato físico, um comentário ou pra um compartilhamento de material na internet, o corpo e a vida da mulher nunca, NUNCA, está disponível para quem ela não quer que esteja. A vida sexual dela não é um prato para você degustar com seus amigos, seja em comentários, seja com imagens e, principalmente, por violência física. É preciso desconstruir a base da cultura do estupro para, então, fazer com que esse ato seja globalmente compreendido como violência intensa sem justificativas. Os 30 estupradores da moça acharam normal, legal e divertido compartilhar as imagens dela no twitter porque não vêem nada demais no que aconteceu. Ela estava na festa, ela estava bêbada, ela é mulher, eles são homens e ela está desacordada. Simples assim. Essa linha de raciocínio não se forma em 5 minutos. Isso é fruto de uma cultura propagada por homens e mulheres. Uma cultura na qual é mais importante ensinar a mulher a evitar o estupro do que ensinar o homem a não estuprar. Uma cultura na qual a saia curta é mais culpada que o vizinho que vigia as meninas na piscina com um binóculo. É a cultura do estupro que nos desumaniza a cada dia.

Quando eu era criança, minha mãe me falava para eu gritar caso percebesse algum homem me assediando. Hoje é necessário que todos gritemos a plenos pulmões para rompermos o silêncio da cultura do estupro. Não dá mais para apenas observarmos. É hora de rompermos esse ciclo com gestos claros e definitivos desde a base para que eu não veja meu rosto estampado entre os 30 estupradores. Essa semana foi trágica para uma mulher. Para todas as mulheres. Para todos os seres humanos.

O botão das desculpas esfarrapadas

Se você vive reclamando que coloca muita força nas coisas e recebe pouco em troca, chegou a hora de refletir um pouquinho.
Chegou a hora de parar de reclamar do outro e de olhar para dentro de você. A hora de desativar esse botãozinho automático que vive dando desculpa, justificando erros alheios e passando a mão no seu coração repetindo “calma, que vai melhorar”. Não vai, não.

Será que você não está DESPERDIÇANDO a sua força? Botando fé em pessoas e situações que são mais FRACAS ou que lá no fundo não têm tanta FORÇA DE VONTADE? Não seria melhor se você MUDASSE O FOCO dessa força para algo que pode te dar mais resultado?
Você também pode estar exagerando na força, é claro, mas é provável que NÃO. Porque quando a gente quer algo muito, e é do bem, o esforço é visto com bons olhos. Ele é RECONHECIDO. Coloco tudo em CAIXA ALTA para entrar na sua (na nossa) cabecinha. E eu não estou falando de algo específico, serve para quase tudo na vida. Trabalho, família, relacionamento e coisa e tal. A lei da reciprocidade é geral.

Não tenho a fórmula certa. Raramente a gente tem. O mais comum é insistir até não saber mais se aquilo é legal ou saudável. Pode parecer terrível dizer isso, mas sim, nos acostumamos até com o que é ruim. Daí, perdemos a noção de quanto o bom pode ser incrível. Já pode ter acontecido com você uma situação mais ou menos assim: depois de se acomodar tanto com algo, quando finalmente desistiu e vivenciou outra coisa muito melhor, pensou: “como que eu não quis sentir essa sensação maravilhosa antes?” ou “nossa, se eu soubesse que era tão bom assim”. Lembrou?

Nos falta coragem. Quando se usa o coração, dar adeus para momentos e pessoas é difícil demais. A cabeça já está no futuro, pensando em coisas melhores, fazendo novos planos. O coração, coitado, se apega ao passado, ao que foi bom e que nem é mais. Ele repete “mas foi bom, mas foi bom, mas foi bom” e o cérebro acredita e responde “tá bom, vou esperar amanhã, vai que melhora”.

A minha dica é que você se arrisque, mesmo com muito medo. Pode dar errado, pode dar arrependimento, choro, mágoa e sensação ruim. Você provavelmente vai se sentir um lixo até experimentar aquela maravilhosa sensação do “nossa, é muito melhor agora”, por isso tem que segurar firme e ser forte.
Afinal, setenta vezes zero, não é setenta. É zero. O primeiro passo é entender isso.

Esse texto é do site Sem Clichê, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Sem Clichê aqui! <3 

Por que as blogueiras fitness não nos motivam a malhar?

Todos os dias que eu procuro fotos novas pro De Repente dá Certo naquele Explore do Instagram,  sou surpreendida pela quantidade de fotos de mulheres gostosas e gatas que aparecem ali nas caixinhas. Na maioria das vezes, são blogueiras que se intitulam blogueiras fitness. Outras vezes nem são blogueiras, são só as conhecidas como “famosinhas de instagram”.

Eu me incomodo um pouco com o fato de darmos tanto poder de influência para pessoas que não têm muito o que dizer ou dizem coisas que eu considero meio destrutivas da auto estima. Quando eu digo isso, não estou falando de pessoas que simplesmente postam fotos de si mesmas. Instagram taí pra todo mundo postar o que quiser e se exibir sem medo. Eu to falando de gente que realmente tem o poder de influenciar seus seguidores dando conselhos estéticos bizarros ou propondo um modo de existir completamente banal. E tem muita gente com o selo fitness que quer causar mais inveja do que inspiração nas pessoas.

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O Elemento – O encontro de quem você é com o que você ama fazer

Ilustração por Kozy and Dan.

“Nós não saberemos quem podemos ser até que saibamos o que somos capazes de fazer.”

Você já se sentiu como se não possuísse nenhum talento? Como se não soubesse fazer nada muito bem? Ou como se todas as coisas boas sobre você não fossem aplicáveis à alguma carreira? Você já se sentiu assim, desse jeito que a youtuber Jout Jout explica tão bem? Como consequência, ao se ver sem talentos, você já se sentiu sem um caminho a seguir?

Ken Robinson descreve no seu livro ‘The Element: How Finding Your Passion Changes Everthing‘ o que todos nós procuramos e às vezes passamos anos tentando encontrar. Ele consegue decifrar e conceituar o que já conheciamos: o sentimento único de fazer o que se gosta. Não em termos de carreira ou trabalho remunerado, mas aquilo que faz parte de nós numa dimensão muito maior. Aquilo que enquanto executamos nos dá energia, e não tira. Algo que enquanto realizamos, deixamos de ver o tempo passar, sabemos que foi um tempo que valeu a pena. E não é isso um certo tipo de felicidade?


Sobre o Elemento

Robinson define esse sentimento como sendo, na verdade, um estado, um momento, com hora e lugar e instrumento. Uma vida inteira desses momentos seria o nosso Elemento “o encontro entre a aptidão natural e o forte entusiasmo” por certa atividade, em outras palavras, a paixão pelo que se faz somado ao talento que se tem. Apesar de todos os conceitos serem apresentados claramente, ele usa outra técnica ainda mais eficiente para nos fazer entender e que seria o Elemento: narrativas. Pessoas reais e as incríveis histórias de suas vidas são usadas para exemplificar e ilustrar o conceito.

“O que existe em comum [na vida dessas pessoas] é que elas estão fazendo o que amam, e ao fazer isso elas sentem-se como a versão mais autêntica de si mesmas. Elas sentem o tempo passar em um ritmo diferente, e sentem-se mais vivas, mais centradas e mais vibrantes do que em qualquer outro momento.

Estar no seu Elemento as leva a experienciar o tempo para além das sensações ordinárias de satisfação e felicidade. […] Quando as pessoas estão nos seus Elementos, elas se conectam com algo fundamental ao seu senso de identidade, propósito, e bem-estar. Estar lá provém um senso de auto-revelação, de definir quem elas são de verdade e o que elas realmente deveriam estar fazendo com sua vida. É por isso que muitas pessoas nesse livro descrevem encontrar seu Elemento como uma epifania.”

Como um sonho dormente que encontramos parece que sem querer.

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Correndo em círculos

Encontrei com um amigo um dia desses e passamos a noite conversando sobre nossas questões e dúvidas sobre profissão e carreira. Levantei a bandeira de que estava me sentindo meio perdida, achando que as coisas não estavam dando certo ou andando muito devagar. Me sinto meio à deriva e esperando o vento soprar pra algum lado, em vez de remar com toda força pra algum lugar que não se sabe exatamente onde vai dar. Às vezes eu acho que estou correndo em círculos porque estou sempre me questionando sobre tudo e principalmente sobre minhas escolhas profissionais.

Daí meu amigo falou pra eu olhar pra trás e perceber quanta coisa eu já tinha feito, onde eu já tinha chegado. Parei pra pensar que, realmente, já percorri um grande caminho e não tem por que me sentir assim, já que as coisas estão de fato acontecendo aos poucos. Mas eu não consigo perceber isso porque estou cega pensando apenas na linha de chegada. Se é que existe uma linha de chegada.

É claro que quando você tem um objetivo, mas não sabe ao certo como alcançá-lo, você atira para todos os lados e muitas vezes não acerta nenhum alvo. Ou pior, quando você não sabe nem qual é o objetivo fica quase impossível avançar. Sempre me falaram que é importante  traçar metas para chegar ao objetivo. Mas e quando essas metas que você achava que seriam suficientes não são o suficiente? Surpresa! Elas nunca são.

O sucesso nunca é uma linha reta. Ele exige mais esforço do que que a gente se programou e tanta coisa surge no caminho que parece que nunca vai dar certo. E você olha pro lado e parece que todo mundo está conseguindo êxito, menos você. E aí começa o processo inútil e devastador de se comparar aos outros. Essa é a pior forma de se frustrar. Você só pode se comparar a quem você era ontem.  A gente sabe de tudo isso, mas o ego, aaah, o ego, esse monstrinho que nos faz chorar de olhos fechados numa terça-feira de manhã. Que nos faz pensar num monte de coisas horríveis sobre nós mesmos, mas que nos faz agir como donos do mundo socialmente. O ego nos faz parecer uma placa de ferro que amassa qualquer coisa no caminho, inclusive nossas verdadeiras vontades. Por isso o gosto de metal que fica na boca toda vez que o ego fala mais alto do que nossa consciência.

Entre todas essas peças que a nossa mente prega, é preciso parar um pouco de olhar pra frente e começar a olhar pra trás, para o que já foi feito e conquistado. Se a gente fica muito focada no destino, perde-se toda a graça do caminho e também aquelas pequenas glórias diárias que a gente deixa de lado por “não ser o suficiente”. Se a gente entrar nessa, nada vai ser o suficiente e a vida vai ser uma eterna frustração. Isso tudo pode ser um grande clichê, mas esse meu amigo, durante a conversa, me contou uma história pessoal que pode parecer boba, mas faz todo sentido.

Ele me contou que há um tempo atrás queria ficar com o corpo ideal, para ele, e essa meta seria atingida quando ele chegasse aos 100kg, mas com músculos e não com gordura, o que é beeem difícil. Inclusive, muito mais difícil do que emagrecer. Quem malha sabe como é preciso se regrar para “crescer”. Então ele começou a se dedicar muito. Segue a dieta certinha, malhava todos os dias e saiu dos 86kg para 97kg com muito esforço, mas não conseguiu chegar aos 100kg.

Daí, ele encontrou uma amiga que ele não via há muito tempo e ela ficou impressionada que ele realmente tinha atingido o objetivo. “ Nossa, você conseguiu! Parabéns, você conseguiu o que queria”. E ele, em vez de aproveitar o elogio e se sentir feliz pelo que tinha conquistado, simplesmente esnobou e pensou” não cheguei onde eu queria, ainda falta pra chegar lá”.

Às vezes a gente fica tão obcecado pelo resultado que se esquece de aproveitar o que já foi conquistado. No final das contas, a vida nem tem linha de chegada, o que vale mesmo é o caminho e este é feito de dia a dia, de passos pequenos e gigantes, de altos e baixos, de monotonias inevitáveis, de dias sem ventos, mas também de água de coco na beira da água . Se a gente comemorar cada pequeno passo como uma conquista, o objetivo fica mais palpável, real e próximo. A gente já se exige demais todos os dias.  Às vezes é preciso sentir orgulho também.