Encontro do mar com o rio

Ela se doa, se entrega, se dissipa
Como água corrente, se transforma
Tenta ser pedra, tenta segurar
Mas quando vê, já foi
Já é não mais ser

Pede muito por ser muito
Não sabe ser pequena, simples
Inventa, seduz, deduz
que as linhas são ondas
que o amor é fácil

Quem vê até pensa
que ela é ingênua
mas ingenuo é quem não vê
O mundo como ela vê
Enquanto os outros veem um copo
Ela enxerga a tempestade

 

 

Não guarde o amor pra depois

Não guarde o amor pra depois!

Não queira escolher o momento propício, a hora sensata.

Não racionalize e divida em pequenas porções e distribua pelos dias esse amor tão recortado, diluído como homeopatia.

Placebo não aquieta minha fome, minha ânsia.

Há um vazio mais baixo que o buraco do estômago e ele quer devorar antes de ser decifrado.

Comamos para queimar a boca, enquanto ferve, enquanto está cru e sangra e pulsa e dá pra sentir o gosto espesso de vida.

Sejamos ao mesmo tempo presa e predador um do outro até que nossas dilaceradas peles caiam felizes num sono profundo, sono de fadiga, não de tédio.

Não deixe o amor pra depois!

Que quanto mais se requenta, mais outra gororoba vira e é melhor ter um jantar de rico do que muitos de pobre. Mais vale uma noite profunda do que quinhentas rasas. Nos deleitemos hoje, amanhã cultivamos memórias que podem se tornar sementes de outros amores amplos. E, de toda forma, eu prefiro morrer de fome amanhã e viver de vida hoje.

Não guarde o amor pra depois.

Te digo, ele passa da data de validade!

Pode ser que expire, que azede, que seja roubado por outros olhos famintos.

Não guarde por medo ou por cuidado.

Amor assim é para ser deleitado até o lamber dos dedos.

ÂNCORA

Arte por Ayham Jabr

Hoje eu vou agradecer
e só
se não fosse esse nó
que aconteceu no meu coração ao seu
não tinha casa
não tinha abrigo
amigo, paixão ou marido
Minha alma sem a sua
é vagar pela rua
perdida, sem motivo
é ficar a deriva
sem conhecer o mar
Sem você eu sou apenas
uma âncora pesada
sem vontade, enferrujada
um pedaço de ferro triste
que não conhece a superfície
sem saber onde pousar
Com você eu perco o peso
eu flutuo
no ar, na terra
onde for com
você eu sou amor
viajando pelo espaço
Eu e você somos um laço
essa âncora que flutua
sua vida é minha vida e minha vida é sua

“Instruções para lavar a alma”

Kyle Thompson Photography
Kyle Thompson Photography

Estes são três poemas exclusivos do novo livro da Clara Baccarin, colunista maravilhosa do De Repente dá Certo.

Flor e Ser

Desculpa eu não poder te oferecer muito
Mas é que este ano eu já floresci.
E não me resta mais nem uma pétala,
Uma cor, um cheiro, um encanto.
É madrugada de inverno e eu não tenho calor para dois.

Mas olha, se quiser ficar,
Pode segurar uma de minhas folhas verdes
Com a ponta dos dedos
E ir brincando com a esperança.

Quem sabe
Você ainda esteja por perto
Quando eu vier a florescer novamente.

Só peço:
Não desperdice adubo no vento.

Ilha

Um lado meu sempre é seu,
Mas o outro não é nunca.
Parte de mim sempre fica,
Outra parte está sempre de partida.
Seu peito para mim é terra à vista,
Mas meu coração é oceânico.
Mesmo longe estou perto,
Mesmo perto estou longe.
Entre os polos do meu coração
Passa um Atlântico.
Serei eternamente sua,
Mas só enquanto eu for ilha.

Sapos

Meu coração aprendeu a fazer magia
Sabe transformar ratinhos em elefantes
Príncipes em sapos
Histórias chatas em contos de fadas
Também já transformou um pavão numa pluma
Que voou com o tempo
Num toque de mágica desfaz feitiços
Quando os olhares de meia noite
Convertem sentimentos em abóboras
Meu coração é um ilusionista
Aprendeu truques para enganar a vista
Pensa que é um palco, coitado
Dança, cai, levanta, prega peças
Vira palhaço
Tira sarro das próprias tragédias
Meu coração é uma comédia

Nefasto

Nefasto

Desgasto

Rosáceo e púrpura

Dançando sobre meu corpo

Comprimindo meus orgãos cruéis

Infiéis, são meus pedidos

Cheios de culpa e desejo

Aproveito o ensejo

Pra querer mais e mais

Nefasto

vem até mim

Me ensina a ser como você

Chifrudo e imponente

Sexy e ardente

Vermelho e cruel

Não quero ir pro céu

Eu quero ser foda

A chave da porta da frente

O primeiro gole de cerveja
O cochilo no sofá, no meio da tarde
Os pés secos depois da chuva
O ponto final do texto
O último momento antes de entrar no sono
O abajur acesso na madrugada
A luz refletindo no corpo e formando um arco-íris
O cheiro de protetor solar
A foto antiga que revela o tempo que passou
A faísca que explode na cabeça quando você descobre algo novo
O olhar demorado que se dissipa
As bolhas de sabão dentro do box
A risada escondida
O choro abafado no ombro
O beijo que acorda
A taça de vinho no chão de taco da sala
O sol da manhã
Onda que quebra na canela
O vento na janela do carro
A música que representou uma época e agora é tipo um amigo que você sente saudade
Cheiro de bolo ficando pronto
Raio de sol entrando pela fresta da janela

Se a felicidade está nos pequenos detalhes, eu escolho o barulho da chave na fechadura quando você chega em casa.

 

De onde foi que você surgiu que eu não vi?

De onde foi que você surgiu que eu não vi, não notei?
Não vi quando chegou, nem quando me achou, nem quando se fez existir. Quando foi que eu te coloquei um significado nesse meu caminhar acelerado?
Em que momento foi que você puxou a barra da velha saia que eu não uso mais? E inventou sentimentos que já não se usam mais? E criou um cenário bonito para a nossa encenação tomar corpo? Um corpo que não me pertencia.
Quando foi que seus dedos aprenderam a desenhar eternidades em minha pele?
E eu comecei a me apegar a esses momentos passageiros que ficam marcados feito brasa no couro?
E todas as vezes que eu olho agora para os caminhos de suas mãos em meu corpo, sinto o seu rastro.
Quando foi que você olhou nos meus olhos, de volta aos 14 anos, doce como a rosa roubada, caída no quintal da adolescência? E como foi que encontrou o antigo baú em que ficaram esquecidos, por eu tê-los julgado inúteis e antiquados, aqueles velhos sonhos e os recolocou na vitrine dos meus pensamentos?
Nunca te vi antes na vida, mas você me conhece desde criança.
Fazendo-me platônica de novo: amando ideias, amando amar, me inflando de essências que só cabem no universo do imaginar.

Eu e você

Arte por Anton Maraast
Arte por Anton Maraast

 

Se eu soubesse descrever

Sem saber

O que é que envelher, casar com alguem

Ver o tempo passar além,

Passeando pelo seu, pelo meu rosto

Me trazendo todo domingo uma xícara de café

Eu diria até  logo meu amor, te vejo de noite

Eu diria que a vida com você é vida,

Só que muito mais legal

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Mulher Lua

Ela é tão forte que se assume sensível.
Mulher lua, ora cheia, ora vazia. Segue seus próprios ritmos. Aceita os ritos de início e de morte de seu coração. Enxerga o mundo pela emoção. Pertence a si mesma, vezes se resguarda, vezes oferta amor de graça por onde passa.

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Ela tem um coração que bate baixinho

Ela tem um coração que bate baixinho, descompassado, porém insistente.
No ritmo de um samba triste.
Cheio de lirismo e cuidados.
Em tudo na vida ela é devagar, porém intensa
Nos aprendizados, nos passos, nos sentimentos.
Ela toca o mundo com a ponta dos pés mas vai até submergir por inteiro.
Olhos fechados, cabeça, alma e coração.
Ela nunca chegou em primeiro lugar em nada na vida, nunca alcançou o topo.
Nunca foi rápida para resolver um problema, encontrar uma saída, entender os jogos.
É que ela sabe que é necessário um silêncio para compreender a fundo. É preciso aprender a ouvir as vozes mudas do mundo. É preciso se desconstruir para se misturar com outros átomos e assim perceber uma flor, uma pedra, um cheiro.
É preciso deixar o coração seguir assim baixinho, mesmo que às vezes solitário.
E enquanto todos correm, ela perdeu o impulso da correnteza ao parar nas margens para contemplar a dança da última folha que caia da árvore.
Ela tem um ritmo vagaroso, do tipo que nunca vai alcançar o topo, mas que vai penetrar todos os profundos.
E foi nesse vagar titubeante que ela, sem querer, aprendeu a voar nos universos ocultos.