De onde foi que você surgiu que eu não vi?

De onde foi que você surgiu que eu não vi, não notei?
Não vi quando chegou, nem quando me achou, nem quando se fez existir. Quando foi que eu te coloquei um significado nesse meu caminhar acelerado?
Em que momento foi que você puxou a barra da velha saia que eu não uso mais? E inventou sentimentos que já não se usam mais? E criou um cenário bonito para a nossa encenação tomar corpo? Um corpo que não me pertencia.
Quando foi que seus dedos aprenderam a desenhar eternidades em minha pele?
E eu comecei a me apegar a esses momentos passageiros que ficam marcados feito brasa no couro?
E todas as vezes que eu olho agora para os caminhos de suas mãos em meu corpo, sinto o seu rastro.
Quando foi que você olhou nos meus olhos, de volta aos 14 anos, doce como a rosa roubada, caída no quintal da adolescência? E como foi que encontrou o antigo baú em que ficaram esquecidos, por eu tê-los julgado inúteis e antiquados, aqueles velhos sonhos e os recolocou na vitrine dos meus pensamentos?
Nunca te vi antes na vida, mas você me conhece desde criança.
Fazendo-me platônica de novo: amando ideias, amando amar, me inflando de essências que só cabem no universo do imaginar.

Clara Baccarin

Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida. www.clarabaccarin.com

1 comment

  1. Muito bonito, muito mesmo.
    Me fez lembrar uma certa pessoa que passou pela minha vida a algum tempo atrás.
    Alguém que não permitiu que saíssemos do campo da idealização, e por isso mesmo foi tudo perfeito do início ao fim, que veio da mesmo maneira que começou. Rápido, e inacreditavelmente indolor. Lembro vez ou outra dela, e sorrio, isso me basta para saber que o pouco que tivemos (alguns diriam o nada que tive) foi bom, foi feliz, e está indelével em meus pensamentos, meus sentimentos.
    Parabéns pelo belíssimo texto.

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