“Deixa de ser ridícula”

Lembro quando a gente beirava os vinte anos e pensava “como será que vamos estar aos 30?”. Olha a gente aqui, quase lá. Quero escrever essa carta porque percebi que não falo muito o quanto você é importante. Preciso que você saiba que é essencial. Sem você, falta um braço.

Já reparou que não temos mais medo do desconhecido? Acho que é porque no fundo sabemos que se algo der errado, temos uma a outra. Deve ser por isso que nos afogamos tantas vezes em paqueras babacas, brigas de família inúteis e garrafas de vinho ruim. Deve ser por isso também que posso ficar dias sem falar com você que está tudo bem. Descobri que éramos grandes amigas quando pedi desculpas por ter sumido uma semana e você respondeu “deixa de ser ridícula”. Com razão. Quando alguém é permanente na nossa vida, mesmo de longe a gente fica perto.

Do seu lado, consigo chorar até ficar vermelha e melequenta, como se estivesse só eu e o meu travesseiro. Quando alguma bad acontece, é só olhar para você que desabo. Porque é como se eu estivesse olhando para o meu próprio coração. Você é aconchego quentinho no peito.
Odeio seus conselhos, porque geralmente estão certos. Vez ou outra você exagera, mas nunca levanta a plaquinha de “eu avisei”. Obrigada por isso.
Tem umas músicas que lembram a gente no reveillon, no carnaval, no meu sítio e no seu carro dançando com as mãozinhas. Sei de cor as suas roupas e meus olhos brilham quando você compra um vestido novo (porque eu sei que posso usar dois meses depois).

Não peço desculpas pelas roubadas que te coloquei. Já compensei todas e ainda vou te colocar em várias. Aquele aniversário estava péssimo, mas o sanduíche de dois andares que comemos depois foi incrível. O aniversário da minha ex sogra também não foi dos melhores, mas vai dizer que o primo do meu ex não era interessante? E o que comentar do dia que você foi embora porque estava cansada e eu te culpei de ter feito a maior besteira? Essas são só algumas que lembro de cabeça.

“Como será que vamos estar aos 60?”. Eu não faço ideia. Um pouco mais enrugadas, envolta da mesa de baralho enquanto os netos não param de correr pela casa? Jantando semanalmente de casal, cada uma com o seu maridão e abrindo garrafas de vinho melhores? Não sei mesmo. Mas, acho que estaremos juntas. Então está tudo bem, né?

Com você eu descobri que não preciso de muitos. Apenas de bons amigos. Obrigada por isso também. O coração fica quentinho porque sabe que existe a segurança de ter você na vida.

Esse texto é do site Sem Clichê, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Sem Clichê aqui! <3 

Sem Clichê

Marcella Brafman é autora do Sem Clichê. Ela é jornalista, escritora e mineira. Sofre de imaginação fértil que só passa escrevendo.

1 comment

  1. Nossa.. que dor. Tive alguém assim

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