Deserto do Atacama, onde o amor e a poeira se misturam

Atacama foi, sem dúvida, o lugar mais bonito que eu já fui. As paisagens são de tirar o fôlego (literalmente, por causa da altitude). Eu ficava uns 20 minutos olhando pra aquele horizonte infinito me perguntando como a natureza tem uma paleta de cores tão vasta e bonita. É como se fosse uma pintura que se move a cada segundo e, se você não estiver atento, pode perder o instante mágico das cores dançando entre o céu e a terra.

Essa é uma viagem legal pra fazer de casal ou com amigos, mas a galera tem que aguentar o pique.  Pra chegar até lá é chão, viu? Pegamos 3 voos e mais um ônibus até chegar na cidadezinha San Pedro de Atacama. Mas o caminho que o ônibus faz é maravilhoso e você já se sente curtindo a viagem. A cidade é muito pequenininha, com 5 mil habitantes, mas é MUITO aconchegante. O lugar é cheio de restaurantes fofinhos e CAROS, afinal é uma cidade que vive de turismo. Dá pra se hospedar no “centro” que é basicamente uma rua chamada “Caracoles” ou ficar um pouco mais afastado, que foi o nosso caso.

Nós ficamos em um hostel chamado “Atacama Loft” que era todo roots e maravilhoso. Ficava uns 20 minutos a pé do centro ( nesse caso, vale a pena alugar uma bicicleta). Os quartos eram feitos de tendas grandes com uma cama de casal dentro. Os banheiros eram compartilhados do lado de fora, mas como tinham poucos hospedes, foi super tranquilo dividir. De dia a gente tomava banho no chuveiro sem teto, mas à noite era impossível por causa do frio. Eu nunca tinha vivido essa temperatura de deserto onde é muito quente de dia e muito frio de noite, mesmo no verão. E era MUITO seco. Bepantol e muito creme hidratante me salvaram de não virar um lagarto. Meu nariz sangrou várias vezes e era difícil respirar por causa da altitude e do frio. Nada de outro mundo, dá pra sobreviver, mas é chato porque o corpo não está acostumado com esse clima (ainda mais quem vive no Rio de Janeiro).

Chegamos à noite, jantamos em um restaurante fofinho e no outro dia de manhã aproveitamos para conhecer a cidade e fazer a reserva dos passeios turísticos. Descobrimos um bar com cerveja barata, jogo de futebol e música boa. Almoçamos por lá mesmo. Na mesma rua do bar tem várias agencias de turismo que vendem os passeios. Pesquisamos os preços e fechamos um pacote de 4 passeios em 3 dias. O primeiro passeio era no mesmo dia, saindo às 16h. Nos passeios que eram à tarde, a gente ia pra porta da agência esperar o guia que nos levaria de van até o local. Nos passeios de manhã, o motorista da van passava no nosso hostel.

Ficamos tomando cerveja até a hora do passeio e nesse dia fomos pra Lagunas Cejar. São lagoas que têm tanto sal que você boia, que nem no mar morto. Essa foi uma das paisagens que eu mais gostei, porque tinha uma lagoa incrível no meio do deserto laranja, cheio de montanhas. Fiquei correndo de um lado pro outro querendo absorver tudo. A temperatura foi caindo muito rápido e a sorte foi que levei calça e casaco na mochila.

Voltamos às 20h pro Centro, jantamos e fomos direto pro hostel. Dormimos cedo porque estávamos exaustos e o passeio do outro dia era às 6h. Acordei xingando o mundo, obviamente, porque eu odeio acordar cedo e principalmente no frio. Mesmo em viagem eu quero relaxar, mas esquece. Essa é uma viagem de aproveitar os passeios.

No outro dia fomos pra Lagunas Altiplânicas de manhã e de tarde para o Vale da Lua, que tem a famosa Pedro do Coyote. Conhecemos uma galera da Holanda que viraram nossos melhores amigos da viagem. A vida é muito doida e a gente encontrou, coincidentemente, com eles em Santiago e depois eles passaram o Reveillon na nossa casa no Rio. Nunca tinha conhecido gringos tão parecidos comigo. A gente pensava sobre as mesmas coisas, tinha as mesmas questões e o mesmo tipo de humor. A parte legal era justamente conhecer alguém parecido só que com outro ponto de vista, outra cultura. Acho que a melhor parte de viajar não é conhecer lugares novos, mas se conectar com pessoas com outra mentalidade.

No final do último passeio, que era a Pedra do Coyote, vimos o por-do-sol mais incrível de todos. Parecia que o sol ia queimando o céu lentamente. De um lado, a lua rosa nascendo, do outro, o céu azul e laranja com o sol se pondo. Alguém levou um daqueles sonzinhos portáteis e começou a tocar Bittersweet Sinfonie, do The Verve. Parecia que não podia ficar mais incrível, até que a gente resolveu se casar ali mesmo. Sem papel, sem testemunhas e sem aliança. Bem do nosso jeito. Só com amor, que é o único item necessário pra se tomar essa decisão que eu sempre julguei insana. Mas quando duas pessoas sabem que vale arriscar e viver uma tradição da forma que bem entenderem, faz sentido se jogar junto e faz sentido se casar do jeito que for. E só faz sentido porque é a gente, porque era ali no espaço-tempo sublime que ultrapassa qualquer tentativa de prova de amor.

As pessoas ao redor foram à loucura, amaram fazer parte do momento e essa foi a nossa foto de registro, que mais do que em cores, ficou guardada na nossa história. Voltamos com o coração pesado de tanta felicidade e fomos jantar. No dia seguinte, a gente tinha o último passeio. À tarde a gente ia pegar o avião pra Santiago, a segunda parte da viagem.

Às 5h da manhã já estávamos de pé (eu xingando de novo) para ir aos Geysers, uma nascente termal que entra em erupção e lança uma coluna de água quente e vapor para o ar.  É maravilhoso. A gente deixou de fazer uns 5 passeios por causa do tempo. O ideal é passar pelo menos 5 dias lá pra aproveitar melhor, mas eu não sei se ia aguentar esse ritmo por mais tempo. O ideal  mesmo é pegar uma semana e curtir uma piscininha no hotel e não ter que fazer todos os passeios um em seguida do outro. Tem gente que gosta desse ritmo louco, mas eu prefiro ir com calma. De qualquer forma, no final não importa. A viagem vai ser maravilhosa de todas as formas possíveis. O lugar é lindo toda hora. O céu de dia parece que tem várias dimensões e à noite você não acredita que o céu é assim sem todas as interferências luminosas.

Foi uma das viagens mais diferentes, exaustivas, incríveis, românticas, maravilhosas e surpreendentes que eu já fiz. Viajar pro Atacama é tipo redescobrir o mundo e perceber que tem muita coisa pra ser explorada. Entre todas as viagens essa vai ser lembrada não pela aventura de atravessar um deserto, mas pela aventura que é mergulhar no outro. Nos casamos no meio da poeira, desnorteados pela imensidão do deserto, ao som de Bittersweet Sinfonie e com a certeza indestrutível que os espíritos rebeldes carregam: somos o infinito

Marcela Picanço

Criadora e editora do De Repente dá Certo! Este blog é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês. Sejam bem-vindos! Pra saber mais é só clicar ali em cima no: "Quem escreve essas coisas?"

1 comment

  1. Amei esse post ❤ Esse lugar foi oficialmente listado para futura viagem :)

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