Eu prometo que passa

No dia que ele pediu que a gente sentasse no sofá para conversar rapidinho, fiquei por duas horas tentando entender por que tinha que terminar. Chega em algum ponto desse tipo de conversa, que você para de enrolar o cérebro para tentar entender o inexplicável e prefere pedir que a pessoa vá logo embora e leve embalado para viagem metade do seu coração. Pedi que ele fosse.

Dias depois, chegou aquele momento que o que estava na minha casa e o que estava no armário dele, precisava ser trocado e entregue. Isso geralmente precede uma mensagem de texto ou duas. “Você pode deixar na portaria?”, “Claro, é só você passar para pegar, avisei o Seu Manoel”. Injusto demais, querer ir embora quando já sabe até o nome do porteiro. Divididos em três sacolas velhas de lojas, vão duas camisetas de dormir, as caneleiras do futebol de sábado e a foto do porta retrato. A separação é sempre clichê como é do meio para o final de uma novela.
Depois disso, a gente fica triste quando olha: para o celular, o canto da sala que ficava o sapato, o comercial do seriado que assistia junto. Nosso olhar fica triste para qualquer coisa. Fechamos os olhos para descansar. Esses dias sem saber são os mais difíceis. Como pôde querer embora quando já se irrita até com o jeito que eu uso e deixo toda espremida a pasta de dente? Injusto demais.

Depois, quase não se sabe mais. O cheiro do travesseiro se desfaz aos poucos, junto com aquele monte de entradas de cinema e ingressos de show que estavam escondidos na carteira. Esses esconderijos secretos de lembranças são os mais difíceis de rasgar. Enquanto costuramos o coração, nossas lembranças persistem em desatar as linhas e dar alguns nós de novo.
Os amigos vieram dizer que sentiam muito. Todos os nossos. Como é lindo quando um amigo insiste que você conheça outra pessoa, mostrando o quanto é complicado não saber o que dizer, mesmo sabendo exatamente como você se sente.
Venho lhe contar que muita gente no mundo já passou por isso e recolheu todos os pedaços do coração, jogados em cada esquina que o desamor passa, até que ele se reconstituísse de novo. O choro é só o intervalo entre duas felicidades. Fica bem que essa dor vai passar. Eu prometo que fico.

Esse texto é do site Sem Clichê, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Sem Clichê aqui! <3 

Sem Clichê

Marcella Brafman é autora do Sem Clichê. Ela é jornalista, escritora e mineira. Sofre de imaginação fértil que só passa escrevendo.

1 comment

  1. Perfeito!

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