Fomos para Dismaland, o parque muito doido do Banksy

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Fotos por Sophia Alziri

Se você acabou de sair de um coma ou voltar de uma abdução alienígena e não tá sabendo que tá rolando uma exposição curada pelo Banksy, a gente explica aqui!

Se você não está nessa situação, além de ser um felizardo, já deve ter visto mil matérias sobre isso, mas agora você pode ler um relato de alguem que esteve lá e vai te contar o que viu.

Minha saga rumo à arte começou às 10h da manhã de (mais) um dia chuvoso, quando peguei um trem em Londres pra Weston-Super-Mare. Crente que ia chegar às 11h30, quando o parque estivesse abrindo. Coitada, depois de percorrer uma infinidade de quilômetros em que pelo menos 90% do caminho achei que estava indo pra puta que o pariu, cheguei na minha estação final e concluí que, de fato, estava, mas era lá mesmo que ficava a exposição.

Acabei chegando às 13h numa cidade que tem a maior sensação de coisa caída, e dá pra praia mais deprimente que eu já vi. Realmente, o clima chuvoso no interior da Inglaterra não ajuda. Mas pra começar, eu não encontrei o mar! A cidade parecia fantasma. Achei estranho porque imaginei que com a exposição estaria cheia de gente.

A belíssima vista pro mar de Weston-Super-Mare

Tudo isso já estava prometendo uma ótima ambientação pro tema do parque. Dismal em inglês significa: Triste, sombio, funestro, abatido ou como os jovens chamariam: bad vibe generalizada.

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Já na bilheteria a atendente me diz: se eu fosse você nem entrava. Deixou o troco cair na lama. Haha, começou massa. Fiquei animada apenas por um segundo quando me dei conta da fila que me esperava.

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Depois de enfrentar uma fila de uma hora e meia (lucro já que teve gente que no final de semana esperou 5 horas) na chuva, antes mesmo de entrar já estava a cara da decadência. Ótimo, a vibe tava armada.

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A pessoa mais deprimida que já vi na vida, a explicação veio alguns segundos depois quando me deparei com o sapato que ele usava. Realmente a vida da pessoa que chega ao ponto de usar isso não deve estar legal.

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A entrada é uma instalação maravilhosa do Bill Barminski reconstituindo uma segurança de aeroporto, só que tudo feito de papelão hahaha. Sério é maravilhoso. Tudo, câmera, máquinas de raio x, o cap dos policiais, computador.

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Os guardas nos tratavam como lixo. E muito sérios perguntam coisas do tipo: você mesmo que preparou sua mochila? Você andou bebendo? Você está portando alguma arma? Um dos guardas fez uma velhinha fofa ser revistada. Não entendi bem se ela tava entendendo que era uma encenação ou não, fiquei com peninha.

Passei tranquila pela revista e fiquei tirando fotos quando uma das guardas me escorraçou pra fora como se eu fosse uma vira-lata. Eu como boa idiota ri e ainda gostei. Pedi o panfleto do mapinha pra uma mulher e ela jogou no chão, catei e achei graça. Esse banksy é mesmo um piadista.

Agora, o relato fica confuso porque, quando você entra lá,  é tomado por uma euforia que embaralha todos os pensamentos. São várias atrações, e na maioria das coisas que você tem que interagir tipo o carrossel, roda gigante, o trailer que gira, tiro ao alvo, pescaria, é preciso pagar 1 libra.

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O tiro ao alvo é nada a ver. Você fica atirando rolhas em umas latas, mas valeu pelas risadas que eu dei.

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O que esperar: jovens fazendo selfies tristonhas (é a selfie oficial). Velhinhos locais e famílias levando suas crianças em um grande passeio de família. É serio. Talvez tenha sido porque fui num dia de semana à tarde, mas fiquei bem surpresa com o público presente.

A primeira coisa que vi foi uma grande galeria com fotos, quadros, esculturas. Tudo com temática critica/ irônica/ política claro.

Não tirei muita foto porque

1 – A bateria tava acabando (quando não ta?)

2 – Precisava viver aquilo intensamente.

Mas essas foram minhas coisas favoritas:

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Paco Pomet

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Jani Leinonen

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Jessica Harrison

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Dietrich Wegner

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A mega maquete da cidade é sensacional. Muito incrível ver a gente ali pequenininho, numa sensação gigante/força maior.

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The Aftermath Dislocation Principle trailer v 3 from jimmy cauty on Vimeo.

A obra de arte mais engraçada já criada.

Imagina a cena. Um palco que é uma pista de carrinho bate-bate. Começa uma música de suspense, tudo escuro… e entra um carrinho com uma Morte dirigindo desenfreada, batendo na borda do palco e fazendo aquele barulhão que faz quando os carrinhos se batem. De repente começa a tocar Stayin’ Alive, luzes de disco acendem e ela fica ensandecida girando e se batendo pela pista. Ri alto. A musica para e a Dona Morte vai embora. Não entendi bem o que ele queria criticar com aquilo, mas era de uma zoera que não consegui aguentar. Tive que rir.

Se você não tá bom de imaginação pode roubar e dar play aqui
(vendo agora nem foi engraçado mas juro que na hora foi muito)

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Entrando no castelo rolava um filinha onde ficava rodando o filme da Cinderella. Quando chega nossa vez, somos empurrados pra um croma key e obrigados a tirar uma foto.  Somos expulsos pra uma outra sala completamente escura. Só dá pra ver uns flashes vindo de uma escultura muito realista de paparazzi fotografando a Cinderella e sua carruagem de abóbora capotada.  Se você não sacou, é uma referência à morte da Princesa Diana. Na saída, eles vendem fotos de souvenir tipo de montanha russa na Disney que eles te colocam junto com a obra da Cinderella. Muita gente tumultuando pra achar suas fotos. Rolou uma preguiça, então não fui ver a minha.

O souvenir mais massa/idiota era esse balão mas custava 5 libras.

Numa tenda de circo ficavam as coisas mais dark/freak, tipo: o unicórnio do lindo do Hirst, o mesmo cara que fez o tubarão em formol e umas louças loucas da Ronit Baranga que eu cogitei seriamente em ser presa pra poder tê-las. E também tem umas esculturas incríveis de um artista chamado Scott Hove que misturavam bolo, criaturas escabrosas e cristais.  O site dele tem muita coisa legal, vale a pena o clique!

Falando parece uma pira, mas olhando a foto você vai entender que era muito foda.

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Damien Hirst

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Ronit Baranga

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Scott Hove

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Uma das coisas que eu achei mais legais:

O trailer que gira!!
Gente, é a maior pira da vida! Entrando no trailer, somos espremidos em um banco. Um cara fala com um semblante deprimente que vamos viajar pro espaço. Já amei. Se você tiver náusea feche o olho e se vire. Na verdade você fica parado, e as coisas a sua volta giram então rola uma tontura nível hardcore, mas se você fechar o olho você percebe que está parado (eu acho). No começo rola aquele risinho de simpatia/desconforto da situação de estar ali espremido entre estranhos. Depois de umas giradas você começa a não entender mais nada que tá rolando, suas percepções ficam totalmente desequilibradas e tudo fica muito confuso. Por alguns minutos você já não sabe mais o que é o que e acaba dando muito uma sensação de estar no espaço girando mesmo. Todo mundo começa a rir muito. Quando acaba até rola um medo tipo meu deus como vou sair pro mundo real daqui? Um velho descolado que estava do meu lado e mais próximo da saída percebeu que seria o primeiro a se aventurar na realidade e fez uma carinha de “eita nois”. Olhamos todos pra ele com uma expressão facial de quem está entendendo seu drama. Nosso herói conseguiu e nos sentimos todos encorajados. Saí e pisei no chão ainda não entendendo bem o que tava acontecendo, melhor assim.

Aqui tem um povo passando meio mal no brinquedo-arte

Continuei.

Um grande cinema a céu aberto rolando um vídeo arte de um girafa pulando numa piscina.

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A música que tocava o tempo todo era muito boa. Escuta um trechinho aqui.

A encenação de tédio dos funcionários também era um ponto alto. Eu daria um Oscar pra todos.

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Várias esculturas legais ficavam espalhadas pelo parque, tipo essas:

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Outra parte legal era uma cabine pra imitar agência de empréstimos com tema infantil cheio de posters geniais do artista Darren Cullen tipo esses:

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Entrei numa cabana cheia de posters. Cada um era um soco na cara, ou melhor, um nocaute. Muitas coisas sobre imigração e especulação imobiliária que é um assunto super sério e debatido em Londres porque chegou a um nível surreal e está expulsando muita gente da cidade.

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Seria essa uma indireta pra nós brasileiros?

Por toda a exposição, Banksy, óbvio, faz mil críticas ao sistema esdrúxulo que é o capitalismo, jogando várias na nossa cara e chamando o espectador o tempo todo de burro. Eu acho esse approach maravilhoso, porque somos mesmo. Uma população que só se fode, e que não concorda mas aceita ser mandada por uma minoria só pode ser imbecil mesmo. Morar na Europa não te faz menos imbecil, não. Eu, você e todo mundo está incluído.  E não é engraçado.

Andei mais um pouco e vi um ônibus onde umas pessoas saiam chorando, naturalmente a galera ficou curiosa e formou mó fila. Várias atrações tinham filas  porque tinham um número limitado de pessoas que podiam entrar. Normal.

Lá dentro uma exposição chamada “designs cruéis”. Leia a introdução e fique bolado junto comigo (sério, vale muito a pena):

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Tradução bem lixenta pra ser usada só em caso de emergência: Essa é uma exposição de coisas que foram feitas pra te machucar. Cada uma delas controla, maltrata ou mata pessoas. Elas também são parte de uma política pautada na desigualdade e violência estrutural. Como governos e corporações tem como objetivo o lucro e a concentração de poder eles criam esses objetos para vocês. Eles falham ao reconhecer a real raíz dos problemas sociais, redefinindo-as como “medidas de segurança”. Que pode ser resolvido apenas por exclusão e encarceramento. A indústria de controle está crescendo nesses tempos de austeridade e neoliberalismo. Esses objetos são “armas menos letais”. O principio contraditório desses designs revelam a luta e os problemas sociais por trás deles. A concretização desses objetos faz com que exclusão e exploração pareçam apenas “o jeito que as coisas são”. Eles distanciam nosso senso de responsabilidade. Pessoas que criam ou compram esses objetos estão apenas “fazendo seu trabalho”. Mas esses objetos não representam uma progressão natural, eles não simplesmente apareceram ali. Eles foram feitos. E portanto podem ser desfeitos.

Exemplos desses objetos são espinhos em todos os lugares onde pombos (sim, eca) ficam mas onde de repente passarinhos lindinhos também poderiam ficar, bancos públicos desenhados pra moradores de rua não poderem dormir e câmeras de segurança.

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Mas até aí o pessoal ainda tava normal. Foi só quando espiei entre umas cabeças que em uma TV tava passando umas cenas daqueles docs de maus tratos aos animais(daqueles que organizações veganas passam), mostrando eles sendo abatidos de uma forma horrorosa e cruel. Todo mundo que já assistiu sabe do que eu to falando. Realmente, as imagens são fortes e é uma loucura pensar que aquilo existe e que nós ainda incentivamos isso com nosso dinheiro. Não tirando atenção nenhuma do assunto que é totalmente condenável e tem que acabar óbvio! Só que achei curioso que a exposição toda é uma critica a um sistema e medidas políticas que matam milhões de pessoas. Mas as pessoas choravam pelos animais.

Enfim, nos acostumamos demais com essas coisas e tantas outras e acabamos achando que é o normal. A gente não podia achar normal gente morando na rua. Toda vez que a gente vê essa situação a gente tinha que pensar: por que esse ser humano que tá na rua não pôde ter a mesma chance que eu tive de se dar bem na vida? Se você pensou: porque ele não se esforçou o suficiente, clica aqui. Sério, clica, por favor.

O negocio é que a gente se acostuma demais. Que é a genialidade do ser humano e razão maior pelo qual somos o topo da cadeia alimentar mas também uma das nossas maiores burrices.

A esse ponto eu já tinha perdido meu senso de humor. Tudo muito legal e genial, mas as coisas discutidas aqui são muito sérias e reais. Comecei a ficar puta com a galera achando graça de tirar selfie com o balão escrito eu sou um imbecil e postando no inxta. Fiquei pensando o que o Banksy pensaria se visse essa cena. Ele não é bobo, claro que sabia exatamente que isso ia acontecer. Queria saber por que ele acha que ainda vale a pena tentar fazer as pessoas acordarem desse jeito.

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Passada a raiva, veio a tristeza. Porque parecia que a maioria das pessoas tava se importando mais em mostrar pros outros que estava lá do que refletir nas coisas que estavam sendo discutidas. Também porque eu já perdi a conta de quantas vezes já estive em situações que fui confrontada com esses assuntos.

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dima9E eu odeio o fato de que a saúde é uma indústria, que os nossos índios continuam sendo mortos por agropecuários e madeireiros, odeio entrar no supermercado e ter 1 suco de fruta de verdade entre mil falsos e, pior, odeio que muita gente nem tenha condição de pensar nessas questões porque estão preocupados em como arranjar o que comer, onde morar, em como vão se salvar no meio do mar, tentando uma vida melhor. Odeio todas e várias outras coisas sobre a gente. Só que é sempre assim, me revolto, faço promessas pra mim mesma, mas depois esqueço, depois acostuma.

A conclusão que fica é: somos todos imbecis mesmo. A não ser que a gente resolva mudar.

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Sophia Alziri

A Sophia odeia fazer minibiografias. Mas ela é a pessoa mais autêntica e cheia de nuances que eu conheço.

1 comment

  1. Informação muito útil. Valeu.

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