Fuso horário

Diego,

O tempo aqui passa diferente e fica cada vez mais difícil pensar em você. Quando eu tomo banho para ir para a pós graduação, você está no seu sono mais profundo. Quando você senta com os seus amigos no bar, eu estou no meu. Não consigo imaginar nada que você está fazendo. Isso é uma tortura para duas pessoas que estavam no mesmo compasso.

O que não está dando a mínima para os horários é essa saudade. Ela chega a qualquer hora. Crava um buraco no meu peito e dá um nó no meu estômago. Ela é sacana na maioria das vezes. Não te culpo. Saudade não respeita fuso horário.

Estou em uma cidade que nada tem você. Todos os lugares são novos. Não existe a padaria que tomamos café da manhã, nem aquela lojinha que fomos juntos consertar o meu celular. Vejo centenas de rostos por dia. Nenhum deles têm o traço do seu nariz, a sua sobrancelha grossa ou teus dedos compridos. A verdade é simples e boba: aqui não tem nem seu cheiro e nem você.

Me sinto bem de estar recomeçando. De olhar para a nossa foto e apertar os olhos forte para conseguir lembrar de como era. De tudo aquilo tão lindo que foi. Tenho medo de que um dia eu simplesmente esqueça. Mais uma vez eu culpo o tempo.

O sol parou de se pôr ao mesmo tempo pra gente. E tudo vai parando aos poucos também.

Ainda assim amo você a um oceano de distância,

Letícia

Esse texto é do site Sem Clichê, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Sem Clichê aqui! <3 

Sem Clichê

Marcella Brafman é autora do Sem Clichê. Ela é jornalista, escritora e mineira. Sofre de imaginação fértil que só passa escrevendo.