Ghosting, o termo perfeito pra quem some do nada

Poderia ser mais uma história dessas que sua avó conta para as amigas do salão ou para suas tias num café da tarde na cozinha. O marido da Mariquita saiu para comprar cigarro e não voltou mais. O noivo da Chiquita fugiu no dia do casamento e, sumindo, deixou a moça de vestido branco, véu e grinalda no altar. O cara que estava saindo com a Joana nunca mais respondeu às mensagens dela. Não, essa não foi sua avó que contou, mas o sumiço revisitado realmente aconteceu e até hoje ela não sabe o motivo de ter acabado em silêncio algo que parecia tão legal. Acabado? Será que acabou? Será que esse sumiço basta como ponto final? Será que ela vai mesmo ter que passar dias tentando encaixar peças para encontrar uma explicação? Será? Fica tanto por dizer…

Todos conhecemos pessoas que passaram por isso ou fizeram isso com alguém. Talvez você mesmo tenha se identificado em algum personagem da situação; fato é que esse sumiço está cada vez mais comum e tem até nome: Ghosting. Essa prática dos “fantasmas” já está tão formalizada que tem até estudos sobre isso, como o G1 publicou em um artigo desse mês. São inúmeros os casos de pessoas que se conheceram, saíram algumas vezes, trocaram mensagens com freqüência e, de repente, uma das partes desaparece. Não responde mensagens, não atende ligações e apenas vira um fantasma, uma ausência. Conversei com alguns amigos e teorias surgiram. Uns disseram que homem faz muito isso porque não sabe e não gosta de conversar. Outros disseram que isso é coisa dos aplicativos de relacionamentos que funcionam como cardápios mostrando como as relações estão cada vez mais descartáveis. Outros acham que hoje em dia as coisas são assim e pra bom entendedor, um dia de visualização sem resposta basta.

Antes de qualquer coisa, acho importante ressaltar que ghosting não é coisa de homem. Se em um tempo passado as mulheres ficavam presas por causa da família, moral e bons costumes, no mundo atual isso não existe (ufa!). Conheço mulheres que, no momento em que não querem mais sair com o cara, bloqueiam e ignoram ad eternum. Dito isso, não importa sexo, idade, nível de escolaridade, gosto musical, salário, nada. Pratica ghosting qualquer tipo de pessoa, no entanto, é pré- requisito básico a covardia.

Quem já terminou qualquer tipo de relacionamento sabe como é difícil magoar uma pessoa a quem você já quis tão bem e que já te fez tão feliz. É horrível ser a razão da tristeza de alguém e ver isso estampado no outro assim que você revela não querer mais seguir junto. Você pode estar abrindo mão do relacionamento para ir cuidar de crianças cegas no Tibete, mas por mais nobre que seja o motivo da saída, dói a ausência, a quebra de expectativas, o sentimento de rejeição, a nostalgia do que passou e a saudade. Essa é a dor que supera a raiva ou a incompreensão e dura, como dura! No entanto, colocar um ponto final na relação e esclarecer seus motivos, mesmo que seja uma subjetiva mudança de sentimentos, requer coragem para se expor e assumir a responsabilidade das suas escolhas. Superar um término é coisa para os fortes, mas decidir finalizar uma relação de peito aberto também exige a força de um exército e a dignidade de reconhecer que você é sim responsável por aqueles que cativa, já dizia O Pequeno Príncipe. Abrir mão de uma conversa esclarecedora é condenar o outro a um purgatório de dúvidas, menosprezar o que passou e carregar para sempre essa pendência que, provavelmente, é uma de muitas na vida dos ghosts. É difícil conversar francamente, mas deve ser impossível viver preso na fantasia infantil de que se você fechar os olhos, os monstros voltam para o armário. É preciso crescer pra encarar os monstros olho no olho e conseguir dormir verdadeiramente em paz, sem medo do que pode acontecer se você tirar o pé de baixo do lençol ou esbarrar com a outra pessoa na padaria.

Por outro lado, quem sofre ghosting, ah, essa pessoa cresce na marra. Ser deixado no escuro sozinho nos faz criar monstros a ponto de nos encolhermos em posição fetal para tentarmos sobreviver. Porém, quando compreendemos que a luz não será acesa, precisamos ficar maiores que os monstros do escuro. Vamos retomando nossa auto-estima abalada pela rejeição e pelo descaso, vamos querendo olhar a vida por baixo da porta do quarto, vamos entendendo as dúvidas e combatendo esses monstros, não com respostas, mas com perspectiva. Se eu fui deixado no escuro sem motivo, o problema não está comigo. Se eu amei, dei o melhor de mim e não recebi nenhuma explicação para ter sido colocada nessa clausura sufocante, os motivos de eu estar aqui são exclusivamente de quem me colocou aqui. Esses monstros não são tão grandes e não se equiparam a quem eu sou, ao que eu ainda posso ser, ao que eu posso viver e ao mundo que me espera. Em algum momento, ficar no escuro nos faz crescer tanto que não precisamos mais esperar que acendam a luz. Temos autonomia para levantar, sair do quarto escuro e nunca mais voltarmos pra lá. Entretanto, quem nos deixou naquele quarto sempre vai passar pela porta e se perguntar se ainda estamos lá, o que estamos fazendo, como nos sentimos, no que pensamos e como sobrevivemos. Essa é uma porta que prende quem fica do lado de fora.

Ghosting existe desde que o mundo é mundo e desde sempre as pessoas se recuperam dele porque a vida segue. Se a era digital facilita o sumiço de quem vai, também propicia o crescimento de quem fica. Se a modernidade aumenta o descarte de pessoas, também nos ensina o valor precioso de uma conversa sincera. Se o ghosting cria fantasmas, também abre espaço para novas presenças. Se o escuro paralisa, ele também nos permite ver a lua, as estrelas, os planetas e tudo mais que na luz não se revela. Fantasmas somem temporariamente quando a luz é acesa, mas desaparecem permanentemente das nossas vidas quando a gente cresce.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

2 comments

  1. Amei seu texto. Passei por e foi barra. Depois de alguns meses de romance ele sumiu e as poucas vezes que fiz contato até respondia e dizia que estava ocupado e retornava em seguida. E não retornava mais. Isso durou 20 dias, mas me pareceu uma eternidade. Até que um dia retornou uma mensagem minha falando de novo que queria falar comigo depois. Eu dei um basta falando que ele estava sendo deselegante. A forma menos gentil de terminar uma história com alguém é não ter tempo nem de falar com essa pessoa. Eu disse que meu tempo para conversar já havia passado. Problema que ainda sinto mau estar quando lembro dele e a conversa final fez muita falta a ponto de ainda me deixar presa com lembranças e me pego tendo essa conversa de forma imaginaria. Essa é uma sugestão. Fazer a conversa de forma imaginaria quando não valer a pena ou não for possível presencialmente. Espero que um dia passe sem eu ficar me lembrando e sentindo esse mau! Sentimentos estranhos e misturados. raiva, culpa, saudade e dor. Jamais faria isso com alguém!

  2. Eu preservei meu nome e meu e-mail por motivo de privacidade. Os que estão aquosos fictícios.

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