Mariana, o amor não enxerga gênero

Arte por Sabrina Gevaerd
Arte por Sabrina Gevaerd

Eu já estava dormindo quando meu celular tocou naquela madrugada. Acordei meio assustada com o barulho alto, já que eu durmo com o celular quase grudado no rosto, e vi um número desconhecido na tela. Normalmente eu não atenderia, mas tive uma sensação esquisita de que eu precisava atender aquela ligação. Era um cara qualquer que trabalhava em um bar onde uma menina muito bêbada estava precisando de ajuda, e meu numero era o mais discado do seu celular. Tive certeza que era Mariana. Fui de pijama mesmo, o cabelo preso em um desses nós embaralhados no topo da cabeça, usando meus óculos velhos e uma havaiana desbotada. Quando cheguei lá a encontrei praticamente desmaiada, e senti uma misturade raiva pela sua falta de cuidado com uma preocupação em saber o que tinha acontecido. Mariana nunca foi dessas que bebe demais, então algo estava claramente errado.

Precisei acordar meu irmão para me ajudar a carregá-la do carro até meu quarto, tirei seus sapatos, coloquei um balde no chão e deitei do seu lado na cama. No dia seguinte acordei quando ela pulou para fora da cama em busca da privada e acabamos passando a tarde inteira entre cochilos, ela passando mal, eu perguntando o que tinha acontecido e recebendo de respostas apenas desculpas, como estresse, para ter bebido tanto. Eu sabia que ela estava me escondendo algo, mas achei melhor não pressionar e esperar ela me dizer quando quisesse. Apenas deixei claro que eu estaria ali para ouvir se quisesse me falar quando se sentisse preparada.

Passamos o fim de semana juntas e fiquei com a constante sensação de que ela queria me contar algo, mas ainda não tinha coragem. Fiquei um pouco ansiosa e aflita com o que poderia ser. No domingo, durante o jantar, percebi que o que mais me deixava aflita era o quão assustada ela parecia. Eu não sabia o que era que a estava deixando daquele jeito, mas acabei me contagiando pelo seu medo, pela preocupação com o desconhecido que talvez eu não pudesse controlar. Acabei ficando tão temerosa quanto ela e,como resultado,depois que ela foi embora ficamos alguns dias sem nos falar. Eventualmente me senti um pouco ridícula de estar deixando algo que eu nem sabia o que era me afastar dela, entãotrês dias depois peguei meu carro e fui até sua casa, exigindo que ela me contasse o que estava acontecendo. Ela prontamente começou a chorar, sentada na sua cama com as mãos cobrindo o rosto, eentre soluços e lágrimas murmurou baixinho “Acho que estou apaixonada por você”.

Minha primeira reação foi pedir para ela repetir o que tinha dito, mesmo que eu tivesse escutado perfeitamente. Acho que foi a confusão que senti, porque o medo dela em admitir aquilo parecia tão grande que na minha cabeça não condizia com essa possibilidade. Tinha que ser algo muito mais assustador para ela estar daquele jeito… Ela continuou chorando e escondendo o rosto, e eu finalmente realizei que ela estava assustada não só com a minha reação, mas principalmente com o que aqueles sentimentos significavam para si mesma.

Desde que nós havíamos nos conhecido no início da faculdade, quase cinco anos antes, Mariana sempre tinha se sentido atraída por homens, namorado homens, gostado de homens. Não sei se ela nunca tinha percebido antes, ou se apenas nunca tinha conseguido admitir, mas sempre foi considerada heterossexual. Acho que ela mesma também sempre havia se considerado heterossexual, e todo seu medo de agora estava surgindo da possibilidade de que estivesse se enganado durante tantos anos. Da idéia de que sua sexualidade estava mudando e era diferente da qual durante tanto tempo tinha sido confiante.

Com cuidado, pedi que ela me olhasse e explicasse melhor o que estava sentindo, pensando, vivendo. Ela abaixou as mãos do rosto e levantou rápido os olhos para me encarar. Parecia estar tentando entender o que eu estava pensando e se a estava julgando, até que finalmente, com um suspiro profundo e choroso, me contou tudo. Me contou como tinha ficado com algumas meninas de alguns anos para cá, mas que sempre dizia que estava apenas experimentando. Que no inicio não se questionava o que poderia significar porque dizia para si mesma (e para os outros) que era apenas uma experiência baseada em curiosidade, que não tinha problema porque ela era heterossexual, que a sociedade não tem tanto estigma com uma mulher experimentar por causa do machismo e de uma visão sexualizada de duas mulheres juntas, de que a nossa geração está mais aberta a experimentos. Admitiu que no inicio era apenas isso, quase como uma brincadeira entre amigas.

Não sabia em que momento as coisas realmente começaram a mudar, mas quando se deu conta estava se questionando se também sentia atração por mulheres. Quando a perguntavam, dizia que sempre achou mulheres lindas e que acreditava ser uma pessoa sem preconceitos pois já tinha experimentado antes, colocando todos seus sentimentos e pensamentos na desculpa de que era só uma fase, que eventualmente iria encontrar um homem e se estabeleceria em um relacionamento heterossexual. Ficou esperando esse momento chegar… Até que ele não chegou. Pelo contrario, a atração por mulheres apenas continuou, a vontade de estar com elas aumentou, e eventualmente se deu conta de que poderia ser mais que uma fase e um experimento, poderia ser algo verdadeiro com sentimentos reais, que ela poderia de verdade se sentir atraída por homens e mulheres, e aquilo era incrivelmente assustador.

Era assustador por tantos motivos, ela me disse. Primeiro porque significava que ela não era a pessoa que achava que era durante toda sua vida, que esse era um lado seu que por algum motivo havia sido reprimido e escondido durante tanto tempo que agora ela não sabia o que significaria assumi-lo. Estava com medo da mudança, do seu eu desconhecido, de quem seria a partir daquele momento. Além disso, estava com medo pois seus relacionamentos com família e amigos seriam afetados já que ela seria uma pessoa nova. Sexualidade, ela continuou a falar, é uma parte tão grande de uma pessoa, faz tão parte da sua essência, que essa não era apenas uma mudança simples como escolher uma nova cor de cabelo. Essa mudança significava uma transformação definitiva de quem ela era, e de como as pessoas a conheceriam. Estava assustada de como seus amigos e sua família iriam se sentir, como eu iria me sentir, de talvez se relacionar com um gênero ou outro, se continuaríamos amando a pessoa quem ela era. E, principalmente, se ela seria capaz de aceitar e amar a si mesma, voltar a se sentir confiante com quem era.

Comentei sobre como já havíamos conversado antes sobre a falta de necessidade da existência de rótulos, que sempre nos enxergamos como pessoas razoavelmente livres de preconceitos. Ela me admitiu que continuava achando desnecessário encaixar as pessoas em categorias, mas que percebia como era importante ter uma identidade própria, pertencer a um grupo social e se sentir tranquilizada da própria individualidade. Não precisava de um rótulo e nome para os outros, mas precisava aceitar a si mesma por quem era e por quem amava, o que significava ser desse jeito, o que poderia surgir disso, e como se relacionar com as outras pessoas. Ela precisava ser quem verdadeiramente sentia que era.

Mariana finalmente levantou os olhos das suas mãos, e me encarou com toda a coragem e delicadeza que conseguiu reunir. Segurei nas suas mãos, e pedi que ela me falasse o que ainda não tinha tido coragem de dizer em voz alta. Ela suspirou fundo, me olhando daquele jeito inseguro e corajoso, apertando minhas mãos com tanta força quanto eu apertava, procurando nos meus olhos a reafirmação que precisava, e falou em voz alta: “Eu sou bissexual”.

A abracei e senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto, porque o que ela não sabia ainda era que ela me dizer aquilo tudo só me fazia amá-la mais, com mais força, mais vontade, mais ferocidade. Nós ficamos abraçadas durante muitos minutos, apenas nos permitindo nos dar conta de tudo o que tinha acontecido, das palavras que tinham sido ditas, das emoções que estavam nos preenchendo.

Sempre me considerei uma pessoa muito aberta, mas percebi que nunca tinha vivido e sentido as ramificações da sexualidade humana além da heterossexualidade. Do medo intrínseco e verdadeiro de ser divergente, hostilizado e diminuído. Da confusão que é aceitar seu modo de ser diferente do que é considerado normal pela sociedade. Fiquei com vontade de mudar a visão do mundo inteiro sobre o que na verdade é normal, sobre o verdadeiro problema de existir uma parte da sociedade tão ignorante, do problema que é o preconceito e o julgamento alheio, sobre a culpa católica que por vezes é instituída por religiões extremistas, sobre a existência real de tantas ramificações na sexualidade das pessoas,sobre existir mais do que só heterossexual e homossexual, sobre a necessidade de aceitação, e sobre a simples propagação do amor. Só amor.

Senti tanta coisa pela Mariana naquele momento, desde aceitação por quem estava se descobrindo e se tornando, confusão pelo que ainda não estava esclarecido, medo pelas batalhas que ainda teria que enfrentar, carinho pela sua preocupação comigo, admiração pela sua força de vontade em entender quem era, vontade de compartilhar sua coragem e, acima de tudo, um amor tão mais vulnerável, tangível e real que naquele instante também acabei me apaixonando por ela.

Gostou desse artigo? Aproveite para ler também: Catarina, o amor não enxerga gênero. 

Bianca Siqueira

Sou uma psicóloga apaixonada por conversas, Londres, livros, chocolate e a cor azul. Sempre gostei de escrever sobre minha vida para mim mesma, mas agora resolvi compartilhar meus pensamentos com o mundo. E vamos ver no que vai dar, não é?