Minha irmã vai casar

Minha irmã decidiu casar. Minha irmã, quatro anos mais nova que eu, decidiu casar. Ela já namora há milênios e eventualmente isso iria acontecer, mas eu não imaginava que seria tão cedo. Ter minha irmã em casa é ter uma parte de mim ali, no quarto ao lado, querendo me mostrar um vídeo engraçado no youtube, me contando uma fofoca ou rindo de quando eu imito meus pais. Mas ela vai sair de casa, ter a casa dela, a família dela e mais: em outro país.

É razoável eu ter saudades antecipadas e já começar a pensar em tudo o que vai faltar na minha vida daqui pra frente, mas o que me surpreende diariamente é a reação das outras pessoas quando eu falo sobre isso. Elas não pensam em como eu vou sentir falta da minha irmã ou em detalhes do casamento. O primeiro e principal comentário é “sua irmã passou sua frente, hein.” É sério. As pessoas realmente pensam isso e se assustam quando eu não entendo a brincadeira.

Veja bem, minha irmã sempre seguiu mais a cartilha da vida, coisa que, aparentemente, eu nem li. Aos 18 anos eu decidi que queria morar fora, arrumei um emprego e caí no mundo. Aos 18 anos minha irmã estava no pré-vestibular para ingressar no curso de odontologia, no qual ela se formou no tempo esperado e hoje trabalha com isso de segunda a sábado. Curso superior? Comecei três. Mudei de ideia várias vezes, me formei em um, trabalhei em dois empregos diferentes e joguei tudo pro alto pra estudar medicina. Minha irmã namora a mesma pessoa desde que o outono é sempre igual e as folhas caem no quintal. Eu namorei, desnamorei, namorei um tempão, terminei, vivi solteiríssima por um tempão e conheci meu atual namorado há seis meses e estou naquela fase incrível que a gente quer que dure para sempre.

Acho que já dá pra entender que a vida da minha irmã seguiu um rumo totalmente diferente da minha. As pessoas realmente esperam que, como irmã mais velha, eu tenha a vida mais estruturada antes dela, mas quem disse que minha vida é desestruturada? Quem disse que a gente precisa seguir os dez passos do sucesso para ser feliz? Quem disse que você precisar acertar de primeira? Quem disse que você precisa casar, ser bela, recatada e do lar? Quem disse que você não pode ser feliz de outro jeito?

Dizem que a gente nasce, cresce e morre. Eu acredito que a gente nasce, cresce, tem expectativas, absorve expectativas dos outros, tenta corresponder a todas essas expectativas e morre tentando fazer isso. Por anos eu achava que a minha vida deveria seguir a cartilha oficial e se isso não acontecesse, seria o fim do mundo. Tentei criar metas, planos muito objetivos e seguir por eles. Só que não deu. A vida não é uma planilha do Excel, felizmente. Muita coisa mudou meu rumo, conheci muito mais gente que eu imaginava, refiz minhas metas de ano novo umas mil vezes ao longo do mesmo ano, viajei mais que o esperado, tenho histórias de uma vida pra contar, aprendi a tocar violoncelo, dei aula em curso de inglês, recebi mais de duzentos intercambistas por semestre e consegui casas de família para todos eles morarem, voei de Alaska Airlines, lutei jiu jitsu, ouvi sobre a vida de muita gente interessante, descobri  que contos de fadas não existem, me apaixonei por um amigo de um amigo,  ausculto pulmão muito bem, trabalhei na Disney, morei no Queens, entre tantas outras coisas que eu não teria feito se seguisse as regras que só existem na nossa cabeça.

Não vou entrar no clichê de dizer que todas as coisas acontecem por uma razão, mas todas as coisas acontecem por uma razão. A gente pode não entender na hora, mas há lucro em tudo o que a gente faz. Conheci meus melhores amigos em um estágio que não tem relação nenhuma com o que eu faço hoje, por exemplo. Há aprendizado e aquisições em tudo o que a gente faz, mesmo seja a certeza de que nunca mais faremos alguma coisa novamente. Já experimentamos e podemos dizer com certeza que algo não cabe na nossa vida. Obviamente eu não estou falando em ganhos financeiros, isso tem muito pouco e um minuto de silêncio por esse fato, mas tem tanta coisa mais valiosa que dinheiro. E te digo mais: isso é uma descoberta que você só faz quando não vive a cartilha, ou pior, quando vive a cartilha e se arrepende profundamente ao perceber que não pode voltar atrás e fazer tudo o que você gostaria de ter feito.

Não tenho ideia de quando vou casar ou se eu vou casar. Estou muito feliz pela minha irmã que vai casar. Estou muito feliz com a vida que eu levo. Estou muito feliz com todas as reviravoltas da minha vida. Estou muito feliz por ter conhecido todos os meus amigos. Estou muito feliz por entender hoje que a vida pode ser leve e eu não preciso planejar cada passo. Estou muito feliz por demorar a entender a frase “sua irmã passou a sua frente”. Estou muito feliz por saber que as pessoas vivem vidas diferentes e que isso é encantador. Estou muito feliz por nada nessa vida ser de fato uma competição. Estou feliz. Simplesmente feliz.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

  • Jr. Silva (GK)

    Você disse que seria chato se soubesse como tudo seria ou quais decisões tomar aos 20 e estava coberta de razão. De fato, seria um tédio (com um T bem grande, rs). Que bom não ser assim, né? Vale lembrar o que Pedro Bial diz: “As pessoas mais interessantes que eu conheço não sabiam, Aos 22, o que queriam da vida… Alguns dos quarentões mais interessantes que conheço ainda não sabem. – Filtro Solar”

    Concordo plenamente sobre não ter lido a ‘cartilha’ do padrão de vida enraizado e esperado pela sociedade. Não há qualquer lógica em seguir receitas de bolo que serviram p/ meia dúzia de pessoas darem palestras e parecerem felizes se antes de dormirem mal dão boa noite à seus cônjuges e acordam mau humoradas!

    O bonito na vida é VIVÊ-LA intensamente – uma pena que muitos entendam isso como sair por aí fazendo besteiras e correndo atrás do prejuízo depois, pois não é isso o que essa premissa quer dizer. Mas creio que viver intensamente tenha mais a ver com apreciar cada companhia, tirar o que há de melhor em cada novo ser que conhecemos, em cada universo novo que exploramos, em cada ambiente ao qual pertencemos, sabermos reconhecer e ser gratos por cada bênção em nossas vidas, etc…

    Pelo pouco que li do que você viveu (certamente suas colegas colunistas também), suponho que saiba exatamente do que estou falando. Esteja certa de que sua vida VALE a pena, exatamente como ela está hoje. Jamais se prenda aos ‘se’ e ‘talvezes’, pois você deu o seu melhor e isso basta!

    Ótimo texto, obrigado por publicá-lo.
    Desejo-lhe muito sucesso, hoje e sempre, amém!!

  • lipe

    folda ^^