Mulher Lua

Ela é tão forte que se assume sensível.
Mulher lua, ora cheia, ora vazia. Segue seus próprios ritmos. Aceita os ritos de início e de morte de seu coração. Enxerga o mundo pela emoção. Pertence a si mesma, vezes se resguarda, vezes oferta amor de graça por onde passa.

As outras mulheres são suas irmãs. Elas se protegem, se ajudam, se entendem, se vinculam.
Mulher da dança e não da rivalidade. Compreende os seus hormônios e não os interrompe. Ela se deixa fluir. Emana a sensualidade de dentro, não esconde os seus desejos e também não faz do seu corpo sua única arma de sedução, a sua única verdade e o seu único poder. Mulher de sins e de nãos. Mulher bonita no claro e no escuro, de manhã e à noite, nua ou vestida. Mulher primitiva, conhecedora de si, respeitadora de seus tempos. Sua beleza vem da alma. Tem valor inegável, não mata um leão por dia, perde a postura, desce do salto, chora, sorri, vive. Não ganha o mundo pela esperteza e pela soberania, mas pelo amor, pela intuição e pela sabedoria. Amorna os corações e aquieta as tempestades, mas também deixa que chova. Ela não se molda ao mundo de fora, sua realidade passa pelo crivo interno.
Mulher livre para caminhar imperfeita e ampla, sem se preocupar se cabe ou não em estereótipos. Não quer conquistar os direitos adquiridos pelos homens porque percebeu que o caminho para melhorar o mundo é outro.

Clara Baccarin

Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida. www.clarabaccarin.com

  • Lucia Casaes

    Texto lindo, poético e lúcido. Parabéns Clara Baccarin!