Na fila do pão, a alma vazia

Photo via kafkalog

Parado em frente à bancada, não me lembro mais quantos pães tenho que pedir.

– “Senhor?”

– “Apenas dois”.

Por mais que seja só para mim, sempre multiplico por dois para não ter perigo de faltar, sou meio guloso. Se sobrar, faço torrada.

Depois que perdi minha companheira há um ano, meu rumo se foi com ela e, em seu túmulo, nem o “dedicada esposa” foi escrito; não fui seu marido. Também lá não estava “amável mãe”, pois não lhe proporcionei filhos. Por que ela estava comigo não sei, talvez pelas notas não atingidas da voz do cantor que não fui, ou das letras perdidas do compositor que não me tornei, como havia lhe prometido em 89. Aquele roqueiro amor e a droga do amor suicida me alucinavam e eu disse tanta coisa que, passados os anos não cumpri, que não sei mais o que foi verdade e o que foi overdose.

Pelas pessoas prometidas que não fui, não entendo por que Beth permaneceu. O motivo de sua doença ainda é desconhecido; disseram ser depressão, mas ninguém morre disso. Acho que ela morreu porque em 89 eu matei os seus sonhos, ela só sobreviveu até o ano passado para mostrar que eu era nada daquilo que parecia ser.

– “Pensando bem, me vê apenas um pão” – sempre pensei só em mim mesmo.

Saí dali sem nada, apenas com um saco de um pão… E a alma vazia.

Marina Bufon Nunes

Marina é linguista e bailarina, dança nas palavras e escreve seus passos. Gosta de linhas tortas, sentimentos verdadeiros (e expressados) e bichinhos (vivos). Do interior de São Paulo, o sotaque permanece nos erres e a voz canta alto nos estádios de futebol, esporte que ama desde a época dos dentes de leite.

3 comments

  1. Que lindo! Obrigada por isso, Marina.

  2. Lindo Ma!!vc arrasa!

  3. Lindo Marina

Deixe uma resposta