Ninguém é de ninguém e essa é a melhor parte

“A notícia é velha”, me disseram, mas se você, assim como eu, costuma ir procurar água em Marte de vez em quando, deixa eu te contextualizar. Há algumas semanas, a cantora Ivete Sangalo estava arrasando, como sempre, num show na Bahia quando flagrou seu marido conversando animadamente com uma mulher. Ela, então, interrompe o show e do palco faz a pergunta que já virou jargão popular: “Quem é essa aí, papai?”.

Tenho certeza que até o carnaval todos teremos camisas, canecas, copos e piadas internas com os dizeres da cantora. Nada mais divertido e contemporizador que fazer piada e levar com bom humor os desconfortos da vida. No entanto, ao assistir incrédula a uma médica muito bem resolvida defendendo a reação da Ivete no meio da madrugada do plantão no qual eu estava, percebi que vale um segundo olhar sobre o acontecido.

Sem dúvidas é compreensível que frente a uma cena que provoque ira ou mágoa, todos, invariavelmente, estamos vulneráveis a perdermos a cabeça e reagirmos de forma a surpreender até o mais apático dos blasés, mas em que a reação da Ivete melhora o fato do marido dela ter se aproximado de outra pessoa de maneira, considerada por ela, indevida? Repreender uma possível quebra do acordo de fidelidade em público evita que o ato se repita futuramente? Isso ameniza as intenções do parceiro? Faz com que a outra pessoa pertença a você? Te valorize mais?

Se pensarmos na questão do ciúme, primeiramente, temos que partir do pressuposto que quem sente ciúmes acredita que o outro pertence a ele em algum aspecto, o que é perturbador pois pertencimento e obrigatoriedade são os piores motivos pelos quais alguém pode permanecer ao seu lado. Ninguém consegue obrigar outra pessoa a sentir amor ou vontade de estar junto e deve ser muito doloroso saber que o relacionamento continua porque há algo que prenda o seu parceiro. Algo que, no minuto em que não existir mais ou não for relevante, será ignorado e não vai mais funcionar como âncora. As pessoas precisam ser livres para ficar e para ir embora e, se ficam, é porque querem e porque consideram que é melhor estarem ali. A certeza de que o outro tem vontade de estar com você é o que gera segurança em um relacionamento. Prisões são violadas, fugas acontecem, grades se quebram, cercas se abrem, guardas cochilam, filhos crescem, mas a vontade genuína de ficar vai além das fragilidades contextuais.

Se pensarmos na questão da fidelidade, temos aí um acordo entre duas pessoas as quais decidem que o relacionamento deve ser exclusivamente entre elas. Fidelidade não é lei e juiz nenhum nesse mundo pode obrigar alguém a ser fiel. Isso é uma escolha racional e diária mesmo que outras tantas pessoas lindas, mais jovens, mais bem sucedidas e muito interessadas (e interessantes) apareçam, uma vez que essas qualidades não são razão para se cogitar um envolvimento quando a fidelidade está no pacote. Respeito ao acordo, respeito ao outro e a si mesmo são os elementos que sustentam a confiança de forma muito mais consistente que qualquer decreto-lei. Estar com alguém que possivelmente não te ama ou não te respeita é tortura e não há estrutura emocional que agüente a desconfiança diária. Pessoas que não sabem brincar num contexto de fidelidade devem procurar outro parquinho no qual esse brinquedo não precise estar presente de modo a evitar machucados profundos.

Por fim, há a questão do amor próprio. Essa é a questão mais complicada, pois somos a geração do Facebook e nesses tempos é necessário que curtam a nossa foto para que nos consideremos bonitos, que nos sigam no Instagram para sabermos que temos uma vida interessante, que compartilhem nossas falas no Twitter para sermos pessoas legais e que nos respeitem e nos amem para nos sentirmos dignos desses sentimentos. Quem se considera digno de amor e respeito, não precisa pedir isso aos outros. Quem tem em si a confiança da sua identidade, do seu valor, não precisa lembrar isso ao parceiro. Quem sabe que merece viver um bom relacionamento, não aceita a necessidade de manter o parceiro sob vigilância. É lamentável que por vezes assumamos a postura de quem precisa defender o parceiro de um ataque quando ele deveria estar se defendendo sozinho. Se ele não quer fazer isso, é hora de repensar essa parceria. Quando você sabe o quanto você vale, quando você se ama a ponto de não aceitar perder sua tranqüilidade ou ter seu show interrompido pela insegurança em seu parceiro, você deveria cantar em outra freguesia. Sua performance vale muito mais que uns gritos indignados no microfone, te garanto.

Compreendo perfeitamente uma atitude impetuosa de raiva, mas está na hora de pensarmos se isso realmente vale a pena. Em dias em que se “chega rumando” e é ovacionado pela platéia por ter defendido o que é seu, prefiro a paz de saber que nada é meu. Quem estiver comigo, estará porque gosta e ama e respeita e a porta está sempre aberta para saída quando achar necessário. Eu prefiro a paz de saber que não preciso me preocupar com quem é essa aí porque eu sei quem é essa aqui e ninguém nesse mundo tem o direito de me deixar insegura ou me expor publicamente. Eu prefiro a certeza de que eu estou bem comigo à dúvida sobre com quem meu parceiro está. E olha que eu não chego aos pés da Ivete Sangalo.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.