Ninguém vence quando só um joga

Arte por Jon Holcroft
Arte por Jon Holcroft

No final do ano passado decidi que iria praticar um esporte. Já fazia musculação há alguns anos, mas musculação é exercício, não esporte. Procurei, pesquisei, pensei e não encontrei nada com potencial de me fazer levantar do sofá numa noite de verão em nome da saúde e boa forma. Então, uma amiga me sugeriu fazer um treino experimental de jiu-jítsu com ela. Aceitei e, para minha surpresa e de todos que me conhecem, me apaixonei pelo esporte.

Em dois meses de treino, além de sofrer infinitas finalizações dos meus adversários, aprendi o que não se percebe no primeiro olhar. Pra você ganhar uma luta, não basta ter força ou técnica perfeita. Não adianta ter energia, juventude ou ser enorme. Tem mais chance de ganhar quem incomoda ou cansa o adversário. Você precisa ser ardiloso o suficiente pra segurar seu adversário numa posição da qual ele gaste muita energia pra sair. Se você deixar o outro exausto, sem forças e precisando urgentemente respirar fundo, você vai levar vantagem.

Na semana passada, uma amiga contou sobre o rapaz com quem ela estava saindo. Um jogador profissional! Não jogador de cartas ou de basquete, mas jogador no flerte. Era um tal de morder e assoprar, de ameaçar desmarcar o jantar de sexta porque lembrou de um exame, um tal de morrer de saudade e nunca ter visto alguém tão linda, um tal de abrir mão de tudo pra passar o carnaval com ela e sumir por três dias logo depois, um tal de “oi, minha musa”e “não vai dormir aqui não, né?”, enfim, desses que tem prazer em dominar a situação.

Se esses caras usassem esse dom pra praticar jiu-jítsu, eles seriam faixa preta em tempo recorde! Assim como na luta, ele precisa ter certeza de que a moça está na guarda dele. Ele não quer apenas uma noite boa e adeus. Isso ele conseguiria sem muito esforço e com mais honestidade. Ele não precisaria pagar tanta paixão pra isso em pleno século XXI, especialmente em época de carnaval. Ele quer envolver a guria emocionalmente, prometer mundos e fundos pra garantir que ela vai pro tatame a hora que ele quiser. E já vai chegar rendida. E vai sofrer quando ele não quiser mais brincar.

No entanto, esse jogo é cansativo. Ouvi os relatos de uma amiga exausta, não apenas por esse rapaz, mas porque encontrou muita gente que jogava até que as energias dela se esgotassem.  É cansativo ter que resistir e ficar em estado de alerta o tempo inteiro. Tentar mapear e antecipar os passos da outra pessoa para evitar que te machuquem é coisa que te faz suar, emagrecer e querer chegar logo em casa. Gasta muito ATP e gasta o coração também. Esgota as forças e as esperanças de que um dia possa haver uma entrega de olhos fechados, sem medo de ser finalizada no primeiro golpe.

Quem decide fazer artes marciais, por mais que seja hábil, tem que estar ciente de duas coisas. Você sempre vai se machucar e todos são seus adversários. É impossível terminar um treino sem uma dorzinha ou um hematoma. Você pode ter acabado com todo mundo, mas vai estar quebrado no dia seguinte. Quem cansa os outros, acaba se cansando também. Quem machuca com força, sempre sai com dor muscular e pode até se contundir gravemente. É uma via de mão dupla e quem domina a luta só vê o estrago no dia seguinte, com o corpo frio e o coração mole. Não há parceria na luta. Se você luta contra alguém, essa pessoa se torna automaticamente sua adversária e, naquele momento, ela só quer sair dali ou acabar com você. Em qualquer uma das opções você não é querido e, definitivamente, não é lembrado com carinho.

Quem faz jiu-jítsu sabe que uma hora aquilo vai acabar. Você vai tirar o quimono e ter conversas divertidíssimas com os colegas. Já quem vive numa luta infinita não tem refresco e gargalhadas inocentes. Esse lutador em tempo integral não pode descansar porque lida apenas com adversários e tem objetivo de dominar, cansar e machucar. Minha amiga, quem ganhou essa disputa foi você que soube bater e tirar seu quimono a tempo. Deixa o rapaz montar as estratégias dele nesse tatame solitário e vem pra cá que no fim do treino tem muita vida lá fora.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.