Nos tempos de crise

me demito.

nesses tempos de crise, o dólar subindo, o quilo do feijão mais caro que esmaltar minhas unhas: me demito.

não me permito mais olhar sempre a mesma indecisão, a bolsa instável, o coração palpitante a sair pela boca, a vontade louca de comer qualquer coisa sem fome. me demito, não permito.

me demito do meu posto de louca, possessiva e garçonete das suas cervejas. me demito das noites mal-dormidas, do sexo sem surpresa e dos bilhetes que nunca mais me mostraram “eu te amo”.

“-não! não há ninguém ocupando seu posto, nunca houve, não é questão de substituir”, eu disse.

mas parece que sempre deve haver um motivo – senão nossos próprios erros – pra algo acabar. te quis, um dia, e fui fiel aos meus compromissos por anos, mas hoje – e há um bom tempo – não faz mais sentido lutar por algo e alguém que não mais me fazem brilhar os olhos.

me demito, não permito, renuncio do nosso amor. me permito amar, mas a mim mesma, como deve ser e esqueci. me lembrei, anotei no coração e carimbei na mala de rodinhas que, antes emperradas, agora empurram meus sonhos que deixei pra trás ao entrar por esta porta.

Marina Bufon Nunes

Marina é linguista e bailarina, dança nas palavras e escreve seus passos. Gosta de linhas tortas, sentimentos verdadeiros (e expressados) e bichinhos (vivos). Do interior de São Paulo, o sotaque permanece nos erres e a voz canta alto nos estádios de futebol, esporte que ama desde a época dos dentes de leite.

2 comments

  1. Texto simples, porém divertido e bem elaborado. Gostei bastante, parabéns!

    Só uma pergunta: consegue escrever fazer uso das iniciais maiúsculas normalmente ou já se tornou um hábito sem retorno? Rsrs

    1. Mais do que um hábito, pode ser uma escolha (muito bem feita inclusive). Recomendo alguns livros do Valter Hugo Mae para compreender. Forte abraço, Daniel.

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