O ritual da passagem de ano e nosso grito mais profundo por mudança

Tenho 27 anos, sou carioca, moro no Rio e nunca tinha ido para Copacabana no réveillon. Nunca tive muito interesse nem animação pra isso, mas esse ano uns amigos muito próximos me fizeram uma proposta irrecusável: vamos pra casa da Bia. Ver os fogos e subir pra casa em dois minutos era um programa perfeito e, de fato, foi tudo delicioso. Desde o jantar, até a farra, a companhia dos amigos, os fogos, a animação de todo mundo e especialmente, terminar o ano de 2015. Esse ano que parece ter sido complicado pra muita gente, também foi pra mim, sendo assim, eu queria realmente passar pra uma próxima fase.

Racionalmente a gente entende que nada muda no mundo na madrugada do dia 31 de dezembro pra primeiro de janeiro, mas essa virada é um marco e marcos são a forma mais objetiva e às vezes material de você entender que as coisas precisam mudar. É o que acontecia quando, na época da escola, ao fim de um ano letivo tenebroso, você pegava seu boletim e via que tinha passado de ano. O papel que atestava que aquela série tinha acabado e suas férias iriam começar. Quem nunca teve vontade de, nesse dia, juntar todos os cadernos e fazer uma grande fogueira? Quem nunca quis emoldurar o boletim? Ou mandar pro professor de matemática com sua nota sublinhada e um recado “até nunca mais”?

Essas fogueiras, esses totens, essas fotos rasgadas, esses telefones apagados da sua agenda, essa virada do ano, nada disso tem poder real para mudar sua vida, são apenas marcos. No entanto, esses marcos carregam em si nossa certeza de que tudo chega ao fim, nossa tomada de consciência e nosso grito mais profundo por mudança. Mesmo que não tenhamos poder para acabar com algumas situações, temos o poder de finalizá-las dentro de nós, tomarmos atitudes e, enfim, assistirmos a uma mudança de sentimentos, ainda que as coisas não mudem do lado de fora. Muitas vezes isso não acontece instantaneamente, mas a materialização do nosso desejo de colocar pontos finais e promover ajustes dá início a um exercício diário que é a escada para a mudança concreta e definitiva. Você não muda de um dia para o outro, aliás, nada muda de um dia pro outro, mas você decide iniciar processos que, degrau após degrau, te levam ao topo da escada. É o exercício de não mais acessar o facebook daquela pessoa, de tomar conta da sua alimentação, de ir à academia diariamente, de passar um dia da semana com seus pais, de ser mais amável com aquele colega de trabalho, enfim, o exercício que vai ter levar a um novo estado.

Você fez metas para esse novo ano? Não estou falando de desejos como viajar pra Costa Rica ou ganhar muito dinheiro, comprar um iate e casar com o Ryan Gosling. Estou falando das metas que dependem de você, única e exclusivamente de você. Passar em um concurso não depende de você, mas fazer todos os módulos da apostila e todos os exercícios que estiverem na sua frente, sim. Superar aquela separação não depende somente de você, mas parar de procurar pela pessoa que já não está mais ao seu lado e não alimentar esperanças vazias, sim. Ter um ano incrível não depende de você, mas praticar novas atividades e se abrir para novas amizades, sim. Ganhar da loteria não depende de você, mas organizar suas finanças e juntar dinheiro, sim. A vida não é uma escada rolante que te leva aonde você precisa chegar. Você precisa se esforçar para passar por cada degrau. Vamos estabelecer esses degraus e encará-los um a um, pé a pé, passo a passo, sem olhar para trás para não cair. Escada se sobe virado pra frente.

Que essa passagem de ano seja um marco na sua vida, um marco que fecha ciclos e abre espaço para mudanças. Um marco para ser lembrado como o dia em que você se levantou e seguiu em frente. O dia em que seu ano virou. Já dizia Alice “Eu não posso voltar para ontem porque eu era uma pessoa diferente.” Vamos aproveitar nosso marco para iniciarmos nosso exercício de nos reinventarmos a ponto de não cabermos mais no nosso ontem e, quem sabe, descortinarmos o país das maravilhas em 2016. Feliz ano novo.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

  • Jackeline Lacerda

    Vai dar certo!
    Luisa você tem mesmo 27 anos? Incrível como sua visão a respeito de alguns fatos da vida são descritos com maturidade quiça experiências.
    Obrigada pelos textos.
    Parabéns menina!