Alívio Feminino

Alguns podem falar que é o meio da noite, mas para este grupo talvez seja só o início. Depois de algumas horas ingerindo bebidas o desconforto começa. As pernas balançam inquietamente, pequenos pulos são feitos, enquanto observam-se todos que estão à sua frente, a quantidade praticamente imensurável de corpos que almejam o alívio imediato.

Quando a vontade bate, não tem para onde fugir. É o momento que muitos evitam, se seguram de forma inútil, numa tentativa de evitar o inevitável: perder minutos preciosos da noite. Unidas pelo desconforto doído que se localiza na bexiga, as mulheres formam uma imensa fila, em comparação com a dos indivíduos do sexo masculino, que exibe poucos seres, em nada desesperados com a agonizante espera sem fim.

Os homens que me perdoem, mas pela sorte que vocês tem, acabam perdendo um momento singular da balada. A amizade de banheiro. A fila, esse lugar que reúne as mulheres no ápice do seu desconforto e aflição, também cria laços da mais sincera amizade. No lado de dentro do toalete as pessoas se livram da hidratação em excesso, enquanto do lado de fora livram-se da timidez, da ansiedade, pedem conselhos a completas desconhecidas e o vínculo é formado.

É neste momento, de alto nível de vulnerabilidade, que as mulheres se expõem umas às outras. Não queremos saber se a roupa da fulaninha é bonita, também não queremos discutir a crise política. Na fila, queremos apenas que o tempo passe mais rápido e, numa espécie de cooperação mútua, formamos amizades com tempo de expiração, que nos ajudam a superar essa fase desagradável da noite.

Observamos quando uma companheira sai do ambiente com cara de nojo, reunimos dicas importantes sobre qual box está sem papel, até fazemos cabaninha para as novas amigas, quando o banheiro não tem porta. Ali pode sair tanto uma pequena reclamação sobre as filas absurdas nas festas, quanto um convite para viajar no final de semana.

Enquanto isso, os homens entram e saem com um nível de socialização mínima. Aliviados com certeza. Amigos? Nem tanto. Conforme a fila anda, observamos a amizade chegar a um fim.

Cada uma cumpre o seu objetivo e segue em frente. Se nos encontrarmos em outros lugares, talvez expressaremos um pequeno sorriso, ao lembrar que estivemos juntas em um momento único, mas fingiremos que nada aconteceu. Ou talvez a gente não lembre mesmo uma da outra, mas pelo menos nos ajudamos a superar um momento enfadonho.

Na realidade, a espera é um saco, e é muito mais fácil ser homem nessa sociedade. Mas podemos tirar umas risadas da situação, e sonhar em um mundo em que as amizades sejam tão puras como as da fila do banheiro.

A vida é aquilo que acontece enquanto você quer que o ano acabe logo

Quem curte astrologia pode até acreditar que quando o ano acaba, um ciclo se fecha e outro começa, apesar de eu achar que isso faz mais sentido quando a gente faz aniversário. Mas eu também acredito que os astros têm influência sobre o mundo. Não necessariamente sobre nossas personalidade ou mudanças de humor, mas que eles nos influenciam, não temos como negar. E no dia 31 de dezembro, quando a terra finalmente dá uma volta inteira ao redor do sol, a gente tem todo direito de acreditar que vai viver um recomeço, que vai ter mais uma chance de mudar tudo.

Mas sabe quando a gente tem o poder de mudar tudo também? Todos os dias. Todos os dias que a terra gira em torno de si mesma e o sol nasce de novo, temos uma chance de recomeçar. E eu acho super importante ter esses marcos que nos façam dar uma pausa para ter pique e energia de viver melhor.

Jamais recriminaria a comemoração do ano novo, até porque eu amo aquela energia de todas as pessoas acreditando que tudo vai dar certo. O que me deixa encucada é que em todo lugar que eu vou as pessoas querem que o ano acabe logo. Tudo bem, foi um ano louco, complicado demais para o Brasil como um todo, complicado para o mundo também. Estamos em grande fase de mudanças globais e é normal estarmos em crise econômica e existencial. Mas aguenta firme, agarre-se naquilo que você gosta e acredita.

Apesar de ter muita podreira rolando no mundo, existem coisas incríveis e lindas sendo feitas. Fique de olho nas podreiras para elas não saírem muito do controle, mas não deixe elas te influenciarem ou tirarem a sua energia de fazer coisas melhores.

E em vez de querer que o ano termine logo, por causa do seu cansaço, lembre-se de que a vida é agora. O antes e o depois são só construções da  nossa memória. A gente tá vivo e esse é o melhor presente, mesmo que tudo de ruim esteja acontecendo e você não tenha mais esperanças.

A gente pode sentir a água do mar salgada entrando nos dedos do pé, enquanto ele escorrega pra baixo por causa da areia molhada. A gente pode sentir o vento mexendo o nosso cabelo, enquanto ele mexe também as folhas das árvores. A gente pode ver o céu se transformando em várias pinturas diferentes por minuto. A gente pode sentir o gosto de chocolate derretendo na boca. A gente pode ler e dormir na rede. A gente pode se apaixonar e rir muito e sentir frio na barriga. E pode abraçar e se sentir abraçado. Mas nada disso faz sentido se você só quer que o tempo passe mais rápido. Se você não percebe o valor dessas coisas é porque não viveu essas coisas enquanto elas aconteciam. E aí fica tudo chato mesmo. Quando você não se entrega em nada, a vida fica insuportável.

Eu sei que não é fácil estar presente no momento e isso é normal. Não tem como a gente se sentir pleno o tempo inteiro, e a gente entraria em outra loucura, que é a de querer ser 100% bem resolvido toda hora. Tem vezes que a gente precisa extravasar, dar a louca, e não tem nada de errado nisso. Aliás, eu acho que esses momentos são tão importantes quanto todos os outros. Nenhum sentimento se desperdiça. A ideia é sentir tudo pela raiz, do fundo do estômago.

Seria incrível se nossa ansiedade não nos matasse um pouquinho todos os dias. Ou se a gente não tivesse a tal da FOMO (fear of missing out), que é o sentimento de querer estar em todos os lugares ao mesmo tempo, fazendo todas coisas ao mesmo tempo, porque estar fazendo apenas uma coisa é abdicar de todas as outras coisas. Pra quem sofre disso, assim como eu, tenho uma técnica pra sugerir. Segundo a física quântica, todas as possibilidades existem e estão acontecendo ao mesmo tempo. Então, toda vez que eu fico angustiada por querer fazer tudo ao mesmo tempo, eu penso que em uma realidade paralela eu estou fazendo todas essas coisas. E eu aproveito a única realidade que foi dada de presente: o agora.

Nossos lobos internos escondem-se atrás de canecas cheias de café

Arte por Matthew Grabelsky

E esse lado ninguém conta…Acordamos todos os dias e já queremos colocar aquele sorriso na cara. Queremos colocar nossa roupa mais descolada ou nosso terninho que já vai impressionar logo no metrô. Queremos ser os bem humorados, os queridinhos no trabalho, que cumprimentam a todos com um expresso na mão do Café Mc Donald’s e já sentamos querendo multiplicar cada segundo em foco e em produção.

Queremos aflorar nosso lobo branco. Queremos sempre estar atentos ao nosso, mas sempre sendo o grande opinador e influenciador. Adoramos um brainstorming, mas aquele papo de que todos falam e compartilham ideias é furado. Queremos as nossas idéias sempre em destaque e influenciando os que estão ao redor, mas claro, de maneira sutil e sem que ninguém perceba.

Queremos ser líderes. Sempre achamos que já estamos prontos e preparados para isso. Afinal, existe algo melhor do que estar na rodinha de nossos amigos e poder contar do bônus gordo que ganharemos, ou da empresa descoladinha que estamos trabalhando ou do novo coworking que estou frequentando? Queremos nos profissionalizar sempre…

Acumular Mba’s no currículo e indicar bons livros aos amigos. Queremos tanto tudo, que tentamos esconder aquelas aulas faltosas de nossas especializações porque não dá nem tempo para ir. Ou, sejamos sinceros, fazemos por fazer. Nascemos prontos, somos donos do mundo. Ou melhor, achamos isso.

Nosso lobo preto, não deixamos ninguém ver. Não deixamos ninguém perceber a ansiedade que nos engole a cada dia e a cada tarefa, querendo que tudo dê certo ou seja o auge. Ou melhor, achamos que ninguém percebe. Quando, na verdade, nós não percebemos nossa própria bipolaridade. Queremos o novo sempre, e o crescimento para ontem.

Mas o mundo não gira em torno do nosso umbigo. Angústias pela espera se afloram. E não conseguimos gastá-las na corridinha da Nike, porque queremos ser os profissionais que saem as 21:00 horas do trabalho e mandam email de madrugada, querendo provar o nosso bom desempenho. Só esquecemos que essas coisas não devem ser forçadas. O lobo negro tem stress. Muito stress. Mas e daí? Meu amigo está com problema na coluna e o outro com enxaqueca constantes. Natural da nossa geração.

Já na faculdade queremos o nosso intercâmbio. Nós formamos tarados em saber todos os processos de trainees ou em quais são as atuais oportunidades para que minha empresa nova dê um salto. Não fazemos acompanhamento com psicólogos. Fazemos coaching. Apesar de achar que nunca precisamos.

Acordamos de madrugada pensando na auditoria que teremos e que precisamos ficar entre os top five na nossa Cia super influente no mercado. E apesar da noite mal dormida, reiniciamos o ciclo, e acordamos, querendo colocar aquele sorriso na cara e o terninho de marca como se nada tivesse acontecido. Começamos novamente o dia com aquele bom dia de jovens promissores e futuros talentos. E quem irá nos provar o contrário? Preferimos conviver com nossos cabelos caindo de forma precoce do que aceitar que precisamos tratar nossos lobos negros.

Happymoment: seu novo guia de lugares good vibes

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é conhecer lugares novos, mesmo que seja na cidade onde eu moro. E eu acho que o frio na barriga  de viver novas experiências é algo em comum com a maioria das pessoas. Se você gosta de trocar ideias e está sempre aberto para o novo, eu tenho um aplicativo pra te indicar: o Happymoment.

O app foi lançado este ano e funciona como um roteiro de lugares, mas esse roteiro é infinito porque é alimentado por pessoas ao redor do mundo, o tempo inteiro. Sabe aquele livro de 1000 lugares que você tem que conhecer antes de morrer? Ele é tipo esse livro, só que com visões diferentes, cada vez mais lugares e com o toque especial das redes sociais. Você pode conectar-se com pessoas,  trocar dicas dentro do app e fazer com que sua experiência seja compartilhada ou enriquecida.

O que é bem legal também é que os lugares não são apenas estabelecimentos. Pode ser uma praia, uma praça, um ponto específico de um parque. Qualquer lugar que tenha uma boa vibe tá valendo.

Outra coisa maneira é que você pode seguir pessoas específicas, que sempre vão para lugares legais, e descobrir onde as pessoas interessantes estão se escondendo por aí. Dá para escolher visualizar apenas locais que estejam próximos a sua localização, então, se você estiver viajando e quiser conhecer aquele lugar que só quem é local conhece, é só abrir o happymoment e escolher onde ir.

Recentemente, eu queria comer em algum restaurante legal e abri o app pra ver o que a galera me sugeria. Daí eu vi um bar chamado Adega Pérola, que fica em Copacabana, meu bairro. Resolvi conhecer. Quando eu cheguei lá, descobri que eu seeempre passava pelo bar e  achava que era um pé sujo igual a mil outros, mas quando você entra é um bar super legal, bem temático estilo Copacabana antiga. Comi um prato de polvo delicioso e tomei um vinho por um preço ótimo.

Fiquei de cara como eu não conhecia um lugar tão maneiro no meu bairro! E fiquei pensando quantos mil outros lugares a gente não conhece por simplesmente não dar a chance ou por passar batido.

O happymoment taí justamente pra gente conseguir aproveitar o máximo das cidades e das pessoas, para trocar dicas e dividir momentos. Como o próprio nome do app propõe, a ideia é que todo mundo compartilhe seus lugares preferidos e seus momentos felizes. Afinal, a felicidade só vale quando é compartilhada. E quando de quebra a gente conhece um lugar novo pra frequentar, em qualquer cidade que seja, é melhor ainda.

O aplicativo Happymoment está disponível para baixar na Google Play e na Apple Store.

Tá esperando o quê pra conhecer um lugar novo hoje?

 

*  Este texto é patrocinado.

Se for pra namorar, que seja pra mergulhar um no outro

Diante da vastidão do universo e da relatividade do tempo, do big bang, da física e da química, da extinção dos dinossauros e da probabilidade da vida humana acontecer, eu aceito por completo que foi uma sorte imensa ter te encontrado. Ou, como dizem os novos entendidos sobre acaso, nós temos toda a responsabilidade quântica de termos nos encontrado. De uma maneira ou de outra, pra mim não importa. Tanta coisa podia ter dado errado pelo caminho e mesmo assim aconteceu.  A gente se encontrou, se apaixonou e pela primeira vez na vida eu entendi o que dizem nos filmes de amor.

E eu vejo tanta gente por aí querendo namorar só pra não ficar sozinho, só pra ter companhia. Mas se for só pra ter companhia, eu prefiro a minha. Se for pra namorar, que seja pra mergulhar um no outro. Se for pra namorar, eu só quero que seja que nem a gente.

Que seja pra sentir o coração acelerando quando eu ouço o barulho na chave entrando na fechadura quando você chega. Que seja pra ter vontade de te agarrar quando você passa no corredor. Que seja pra ter vontade de te levar pra qualquer lugar que eu vá, mesmo sabendo que eu preciso dos meus momentos solitários de vez em quanto. Que seja pra ter vontade de viver um no outro, entrar um no outro e virar um ser com duas mentes e um corpo. Que seja pra sentir suas conquistas e derrotas como se fossem minhas. Que seja pra acordar todo dia e sorrir só por você estar lá. Que seja pra ter essa ajuda mútua e motivação pra tudo novo que eu inventar de fazer.

Que seja pra fazer miojo quando a gente chega bêbado de madrugada. Que seja pra gente ter nossa liberdade, que é o que nos prende. Que seja pra gente sair à noite pra lugares diferentes e chegar em casa morrendo de saudade. Que seja para as nóias e os monstrinhos da minha cabeça hibernarem quando eu te ligar e ouvir que tá tudo bem. Que não seja um relacionamento com certezas ou dúvidas, mas com descobertas. Que seja exagerado mesmo. Que não precise existir a expectativa do futuro, porque a gente se basta agora e isso é o suficiente. Que a gente jure amor eterno, sabendo que ele não existe, mas achando que nós somos seres especiais e vamos viver o amor eterno, sim.

Que seja essa conexão de pensamentos e ideias. Que seja pra viver a telepatia humana. Que todas as camadas de uma conversa sejam entendidas e o outro saiba exatamente do que se trata. Que eu respire e você saiba que tem algo diferente no meu humor. Que seja pra experimentar outros níveis de consciência juntos. Que seja pra inspirar o outro e não para podar ideias. Que seja pra enlouquecer junto. Pra se divertir junto. Pra chorar junto. Pra levantar junto. Mudar junto. Que seja pra fazer tudo junto, mesmo em pensamento. Que seja pra estar sempre junto, mesmo separados, mesmo vivendo as rotinas individualmente, mesmo correndo atrás dos nossos sonhos por nós mesmos. Que seja pra eu querer ser o melhor de mim pra aflorar o melhor que tem em você.

Que nossas vidas continuem sendo vidas individuais, mas compartilhadas. Que você continue tendo seus segredos e eu os meus. Que tenha sempre alguma coisinha pra te surpreender.  Que cada um seja responsável pelas próprias escolhas, mas sabendo que vai sempre existir o impulso do outro pra toda escada que surgir e uma mola no fundo do penhasco quando o outro cair. Que seja pra diminuir o medo de arriscar. Que seja pra se jogar. Que seja pra ser feliz.

Eu não escrevo sobre amor

Eu não escrevo sobre amor. Sobre noites mal dormidas, expectativas criadas sem querer ou como é necessário um ato de coragem para poder se entregar a alguém. Também não escrevo sobre o pós-amor. O que se faz quando o fim fúnebre chega e resta aos sobreviventes passar pelo funeral daquela pessoa que morreu na sua vida, mas segue viva na de outros.

Me recuso veementemente: a fazer um texto fofo, falar de coisas melosas, discorrer sobre a dor do fim ou de como superar com auto-estima e amigos. Não vou discursar sobre bater os olhos naquela pessoa e pensar “esse (a) é o futuro pai dos meus filhos/ mãe dos meus filhos”. Muito menos sobre os pequenos atos do dia-a-dia. Credo, jamais sobre os pequenos atos do dia-a-dia.

Nem pense que gastarei meu tempo escrevendo sobre passar o dia inteiro na cama com aquela pessoa, jogar videogame, assistir Netflix juntos, cozinhar risoto com vinho na cozinha pequena, sentir e desejar que esses ínfimos momentos durem para sempre.

Jamais usarei experiências próprias em qualquer texto meu: citar o momento em que fomos ver o filme do Wolverine e, naquela cena que o herói se vinga de um caçador que, a sangue frio, matou um pobre urso, você havia dito que o Wolverine era uma espécie de Curupira canadense. Que eu ri tanto que o cinema inteiro se incomodou conosco.

Jamais colocarei isso em texto algum. Se me virem falando que se apaixonar é bom, é algo que só os fortes conseguem, que é preciso abrir o coração e se jogar, podem me internar. Não, sério! Sou totalmente anti-romântica.

Acredito no pega, mas não se apega. Na curtição infinita. Pra que apenas um quando se pode ter vários? Eu sou o símbolo do desapego, minha gente. Não tenho fossas, supero tudo muito rápido. Não choro em filmes românticos, não sinto falta de ninguém. É isso. Fim. Não escrevo sobre amor. E é só sobre amor que escrevo.

Já é hora de fazer balanço geral do ano?

Ano passado eu tinha certeza deste ano. Ouvia as pessoas falando que seria um ano difícil, mas eu entrei nele de cabeça, com flores pra Yemanjá, lista de resoluções e uma certeza que palpitava na cabeça: esse ano eu vou conquistar tudo que eu quero. E olha que eu nunca fui de fazer resolução ou me prometer coisas pro ano. Sempre gosto de fazer o que me der na telha, sem nada muito programado. Afinal, a vida é uma caixinha de surpresas e comprometer-se a fazer coisas que você ainda não sabe se vai querer fazer é a receita certa para se frustrar.

Tinha muito tempo que eu não fazia resolução de ano novo, mas ano passado eu resolvi fazer, porque estava confiante. Acontece que nenhuma das minhas resoluções se concluiu, talvez por eu não estar preparada para elas. Pra falar a verdade, eu nem tentei, porque fui sempre deixando pro próximo mês e de repente eu estava em novembro. E em vez de correr atrás pra conseguir fechar as contas até dia 31 de dezembro, eu simplesmente quero deixar pra lá.

E eu olhei pra trás, pro meu ano, e vi que eu não tinha feito nada do que eu tinha me prometido. Que foi um ano paradão, blasé, sem conquistas, perdas ou frio na barriga. O equilibro é bom, mas o morno? O sem tempero? Não vale a pena viver sem borboletas no estomago, por qualquer coisa que seja. E quando eu pensei nisso me veio uma enorme onda de frustração, porque a culpa tinha sido minha.

Eu que não corri atrás pra conquistar as coisas que eu queria. Mas quando eu realmente me dediquei um tempo pra destrinchar meu ano, percebi que eu não queria bem fazer essas coisas que eu tinha planejado. Eu queria conquistá-las, mas sem gastar um pingo de tempo para, de fato, efetuá-las. E sinto informar,  mas também não foi neste ano que eu encontrei o gênio da lâmpada. Porque só assim pra conquistar coisas sem esforço nenhum.

E quando essa frustração me pegou no meio de uma terça-feira chuvosa, eu comecei a tirar um monte de coisas do baú do ano e me lembrei de várias coisas que me tiraram o ar, me fizeram chorar, rir, me descabelar e sentir no fundo da alma uma felicidade enorme por existir.  Sabe aquele sentimento que dá um calorzinho no coração e você pensa, puta que pariu, como é bom estar vivo?

Perdi o emprego, perdoei pessoas, conheci pessoas incríveis, me aproximei de outras mais incríveis ainda, trabalhei com uma parada que eu nunca imaginava, ganhei dinheiro e amei muito. Eu lembro que eu senti muito amor neste ano, talvez por eu estar mais preparada para amar e doar esse amor. E eu não conquistei o que eu tinha me prometido, mas ganhei tanto por outro lado, e coisas que eu nem imaginava.

Acho que sentir-se conectado é o grande barato da vida. Você se encaixa e percebe que não precisa mais procurar proposito nenhum. O propósito é ficar conversando com alguém sobre suas conclusões da vida até o sol nascer, o proposito é mandar uma mensagem de madrugada e ser respondido na hora com a mesma intensidade, o propósito é se perder na história de um livro, o propósito é ouvir sem esperar sua vez de falar, o propósito é comer a sobremesa antes do almoço, o propósito é lembrar de alguma coisa engraçada e começar a rir no metrô lotado, o propósito é amar e ser amado de volta, o propósito é estar presente, seja no quer for.

E como isso é difícil, mas a gente precisa aprender a fazer. A gente precisa aprender a se conectar e pra isso acontecer é preciso estar aberto, não tem jeito. E eu não estou falando que é preciso contar sobre sua vida. Estar aberto é estar aberto pra trocar. Que nem aquela música “pela lei natural dos encontros, eu doou e recebo um tanto”.

E o que ficou de aprendizado é que viver olhando apenas para o prêmio faz com que você se esqueça de todas as outras coisas ao redor, tão ou mais valiosas do que atingir seus objetivos. Não adianta conquistar algo se você não curtir o processo, porque a vida é só um processo gigante que te leva a lugar nenhum, então é melhor começar a curtir o caminho enquanto ele se cria. Muito livro de auto-ajuda, né? Mas to sendo sincera e tive que me frustar e colocar a cabeça pra pensar pra chegar a essa conclusão. Fiquei tão apegada às minhas promessas que quase me esqueci do resto que eu conquistei este ano.

Claro que é importante ter objetivos, mas sem fechar portas para outras oportunidades e sem fechar olhos para o que o mundo nos oferece constantemente. Por isso, esse negócio de fazer resolução de ano novo não é pra mim.  Tem gente que precisa estabelecer metas, mas eu funciono melhor sob inspiração e não sob pressão.

No começo do ano que vem, quando eu for pular as sente ondinhas, em vez de me prometer coisas que eu nem sei se vou querer mais, vou prometer me escutar mais e ser sincera com as minhas vontades. E, logo agora, terminando este texto, cheguei a conclusão de que eu estava certa e realmente conquistei tudo que eu queria no meu ano, eu só não sabia que era isso que eu tenho agora.

Pra que tanto drama?

Perceba. Olhe ao seu redor. Seja no ambiente familiar ou mesmo profissional, ser equilibrado – ou buscar pela neutralização dos polos – não é mais interessante. Ser, no mínimo, tumultuado é que está em alta. É “cool”, excêntrico, desafiador e garante uma série de “likes” nas redes sociais. E talvez você ache que a minha fala ultrapasse o politicamente correto e que eu também queira (só) chamar a sua atenção.
Como diria o escritor francês André Gide, com bons sentimentos não se faz boa literatura. Essa constatação não se aplica apenas às artes, área na qual é poético ter transtornos psíquicos ou uma certa dose de melancolia que seja, mas também se refere à nossa rotina, rotina essa que na maioria do tempo é pouco atraente, infeliz ou mesmo indiferente aos olhos dos outros.
Sem sombra de dúvidas, a complexidade da alma é altamente instigante, mas só até a página 2. Afinal de contas, seus personagens preferidos da ficção dariam péssimos vizinhos. Então, sem banalizar as questões humanas mais profundas, porque a dor é cada vez mais glamourizada nos dias atuais?
É claro que os dramas de Pedro Almodóvar são essenciais para fazer pensar além da caixinha. A depressão de Wood Allen pode parecer favorável aos seus filmes, mas, no dia a dia, não dá pra dispensar o “água com açúcar” das novelas mexicanas, caso contrário, tudo seria pesado demais. Insustentável até para os mais leves dos seres.
Por isso, o entediante, no melhor dos significados, talvez seja fugir dos extremos comportamentais. Ser um bom equilibrista na corda bamba das emoções e dos sentimentos a que estamos sujeitos, com períodos alternados de equilíbrio, inconstância, alegrias e tristezas.

O amor não acaba assim

Anoiteceu em mim quando você me atravessou como se eu fosse um fantasma. Não por não querer me ver, mas por eu não ser mais nada dentro daquilo que você custa chamar de representatividade na vida.

E seu olhar me congela enquanto você pergunta, com um copo de cerveja na mão, na maior tranquilidade se está tudo bem. Eu olho pra você de volta e tenho certeza que dá pra ver meu coração saltando pelo vestido que eu fiquei duas horas pra escolher quando soube que você estaria ali. E mais do que todos os “nãos” e foras que eu já recebi já vida, esse olhar me diz que acabou.

E eu não sei entender as coisas que acabam. Como assim, acabou e pronto? Na natureza nada se perde, tudo se transforma. E o que não deixa o acabar na gente é aquele fio de esperança maldito de que tudo não passou de um mal entendido, de que é tudo uma transformação, não um fim. O amor não acaba assim, como um pote de sorvete que acaba e ainda se quer mais.

Seu olhar de indiferença me atravessa como uma espada fria e eu tenho vontade de te chacoalhar e perguntar onde você está, onde você foi parar? Quem é essa pessoa estranha aí dentro, com tantas certezas que não existiam antes. Saio de perto pra conseguir respirar, mas tenho vontade de sumir, tomar um remédio pra curar essa agonia. Eu não sei por que ainda não inventaram um remédio pra curar amor. Seria tão simples. Desligar essas sinapses que meu cérebro insiste em fazer toda vez que ele te vê atravessando a esquina.

O fim é sempre apavorante porque ele te obriga a olhar pra outros lados, a recomeçar. O fim te tira da zona de conforto sem você pedir. Não tem mais nada ali, amigo. Vai procurar outra coisa, porque insistir em algo que não vai te dar retorno é burrice ou falta de amor.

Virei uns 50 mil shots de cachaça,prometi mundos e fundos pra quem eu não conhecia, me permiti sentir tudo com tanto afinco que acho que me revirei do avesso e resolvi abrir a janela pra vida. Acordei com a cabeça explodindo de dor e um gosto de poeira na boca. Era a primeira parte de você que com começava a virar lembrança.

O passado bateu em mina porta e eu a-bri

Senhoras e senhores, ponham a mão no chão e se segurem porque quando o passado visita é pior que terremoto, furacão e tsunami. E foi por esse turbilhão violento vindo por terra, ar e mar que duas amigas queridas foram pegas de surpresa e estão tendo que remexer nos escombros do que já foi destruído para resgatar uma parte de suas vidas. Mas cá entre nós, quem nunca abriu a porta pro passado e descobriu que ele não sabe a hora de ir embora? Quem nunca se distraiu e caiu no buraco negro do mal resolvido? “Quem tem, tem medo”e quem tem passado, tem pânico.
​Uma amiga terminou um namoro longo ano passado. Desde então está se relacionando com uma pessoa nova e tem sido, como diz Chico Buarque, “tipo festa sem fim”. Tudo muito bom, tudo muito bem até que, olhando o facebook para matar o tempo, dá de cara com uma foto do ex namorado abraçando uma garota com uma legenda bem melosinha. Tudo para por um segundo. Ela não respira, o coração acelera, os olhos se arregalam, a boca fica seca e começa um leve tremor nas mãos. Me contando sobre isso, ela diz que quis até chorar de tristeza e raiva. Veja bem, ela que decidiu terminar o namoro com ele, pois não o amava mais. Ela foi a primeira a superar e começar a namorar outra pessoa. Mas foi ela quem quase morreu quando viu o ex namorado e a partir daí houve um desabamento de estruturas emocionais. Ela não quer voltar atrás, nem deixou de amar sua nova companhia, mas o passado não estava tão bem passado assim.
A outra amiga teve um irmão por parte de pai quando já era bem mais velha. Hoje ela tem 30 anos e o irmão tem 5 anos, uma fofura. No entanto, ela vê o pai deles agindo com o irmão como agia com ela e cometendo os mesmos erros que a levaram para a sala de um terapeuta durante anos. Ela carrega feridas que foram abertas no momento em que ela viu seu pai terceirizando a educação do seu irmão ou gritando com ele de forma injusta. O passado estava cochilando dentro dela e despertou com tudo, trazendo uma angústia e nostalgia que a fizeram voltar pra sala do psicólogo para tentar enterrar de vez esse passado dorminhoco.
Às vezes é mais fácil calar o passado do que deixar ele falar. Não dá tempo de pensar e dá preguiça, dá desgaste, dá sono, dá negação, dá fuga e hoje, dá confusão. Quando a gente não fecha as portas direito, elas se abrem com um vento mais forte. Quando a gente não mastiga a comida, fica difícil digerir. A falta do luto ou do período de amadurecimento faz a gente ter pendências que serão cobradas com juros. Ter que tomar chá com o passado na casa do futuro é muito difícil. É a dificuldade de ter ciúmes do ex com o namorado atual do seu lado ou de querer tirar seu irmão dos braços do seu pai e levar pra sua casa. Resolver os problemas do passado é esvaziar uma mochila pesada que não deixa a gente andar direito. A mochila pesada nos atrasa e nos cansa, fazendo com que tenhamos que parar para respirar de tempos em tempos. É necessário que a gente abra a mochila e investigue todo o seu interior para podermos decidir o que vai e o que fica, nos libertando assim de mágoas antigas, frases nunca ditas, choros engolidos ou até mesmo daquela pesquisa insistente no facebook de alguém só pra manter a raiva em dia.
​A vida pode ser muito mais suave quando a gente zera o jogo. Você pode não ter feito isso na época certa, mas sempre é tempo de se libertar. É preciso parar, encarar o passado, discutir com ele, sangrar, chorar, mas mandar ele ficar do lado de fora. Você nunca vai esquecer que ele existe, claro, mas não precisa leva-lo nas costas. Deixa ele aí e anda pra encher sua mochila com coisas novas. O passado vai bater na sua porta, mas não abre não. Abre a janela que a vista é linda.