Pelo fim da cultura do estupro

Pintura por Dino Valls
Pintura por Dino Valls

Essa semana foi trágica para uma mulher. No Rio de Janeiro, uma menina menor de idade foi estuprada por 30 homens enquanto estava desacordada. Ela era menor de idade, tinha um filho, era usuária de drogas e foi para uma festa em uma comunidade. Ela tem uma família, foi criada na cidade do Rio de Janeiro e frequentou a escola. Ela brincou quando era criança, ela tem amigos, ela tem histórias engraçadas pra contar, ela tem desilusões amorosas, ela tem um perfume preferido, ela gosta de mexer no cabelo, ela já amou e foi muito amada, ela já vibrou com um jogo da copa do mundo, ela já chorou vendo um filme, ela já pintou as unhas de vermelho, ela se preocupa com o peso, ela tem planos pro futuro, ela gosta de sair pra dançar, ela gosta de conhecer gente nova e dar uns beijinhos, ela parece comigo. Fui eu naquela cama. Foi a minha irmã. Foi você. Foi a sua filha.

Não conheço ninguém que apóie ou aprove o estupro, mas conheço pessoas que o justificam. Pessoas do meu ciclo social, graduadas, pós-graduadas, professores, médicos, advogados e pais (pais de meninas, inclusive). E mães. E outras mulheres. Acredito que muitas pessoas tenham ouvido ou lido nas redes sociais que “é um absurdo, mas o que ela estava fazendo numa festa na favela?”, “ela tava bêbada, né?”, “mas ela tinha filho nessa idade…” entre tantas outras falas que tentam dizer que, na verdade, ela não é tão vítima assim. Entenda, as pessoas que pensam assim nunca estupraram ninguém, nunca forçaram mulher nenhuma a nada, mas elas são parte da cultura do estupro. Você não precisa ser uma pessoa violenta pra colocar combustível nessa cultura, na realidade, você nem precisa ser homem para estar inserido nesse contexto. O ato da violência sexual física é apenas a superfície disso tudo. Nós nascemos na cultura do estupro e é muito difícil sairmos dela, mas estamos em estado de calamidade pública. Precisamos fazer um esforço coletivo para rompermos com essa cultura na qual eu garanto que você está inserido de alguma forma.

Sabe coisa de homem? Sabe aquele pai que diz pro filho que ele tem que bagunçar as meninas? Essa é a cultura do estupro. Um homem só se prova homem se tiver relação sexual com uma ou, de preferência, várias mulheres. Mas tem que ser coisa completa e que traga os louros pro pai e amigos. Moleque macho esse! Sabe aquele vídeo pornô violento que não tem relação nenhuma com a vida sexual de pessoas normais? Sabe aqueles caras que assistem a isso com admiração e fazem comentários bem parecidos com os que os estupradores fizeram nas fotos da vítima de estupro no twitter? Essa é a cultura do estupro. Sabe aquele vídeo ou nude que a menina manda pro namorado e ele vaza pra um amigo? Sabe quando esse material vai parar num grupo de homens no whatsapp e todos se divertem muito com isso? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando um cara assiste a isso e se cala? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando uma mulher fala que a outra é vadia por causa das histórias dela com outros homens? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você escolhe chegar na menina mais bêbada da festa porque vai ser fácil? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você dá essa dica para um amigo? Essa é a cultura do estupro. Sabe quando você fala que a menina saindo de madrugada deu mole pra ser estuprada assim como um homem que, na rua de madrugada, deu mole pra ter seu celular roubado? Essa é a cultura do estupro.

A cultura do estupro é quando a gente reforça a ideia de que o corpo e a nudez da mulher podem estar vulneráveis ao homem e isso se torna banal. Seja para um ato físico, um comentário ou pra um compartilhamento de material na internet, o corpo e a vida da mulher nunca, NUNCA, está disponível para quem ela não quer que esteja. A vida sexual dela não é um prato para você degustar com seus amigos, seja em comentários, seja com imagens e, principalmente, por violência física. É preciso desconstruir a base da cultura do estupro para, então, fazer com que esse ato seja globalmente compreendido como violência intensa sem justificativas. Os 30 estupradores da moça acharam normal, legal e divertido compartilhar as imagens dela no twitter porque não vêem nada demais no que aconteceu. Ela estava na festa, ela estava bêbada, ela é mulher, eles são homens e ela está desacordada. Simples assim. Essa linha de raciocínio não se forma em 5 minutos. Isso é fruto de uma cultura propagada por homens e mulheres. Uma cultura na qual é mais importante ensinar a mulher a evitar o estupro do que ensinar o homem a não estuprar. Uma cultura na qual a saia curta é mais culpada que o vizinho que vigia as meninas na piscina com um binóculo. É a cultura do estupro que nos desumaniza a cada dia.

Quando eu era criança, minha mãe me falava para eu gritar caso percebesse algum homem me assediando. Hoje é necessário que todos gritemos a plenos pulmões para rompermos o silêncio da cultura do estupro. Não dá mais para apenas observarmos. É hora de rompermos esse ciclo com gestos claros e definitivos desde a base para que eu não veja meu rosto estampado entre os 30 estupradores. Essa semana foi trágica para uma mulher. Para todas as mulheres. Para todos os seres humanos.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

  • Fabiana Sinis

    Perfeita colocação!

  • Marcia Souza das Chagas

    Perfeito.

  • Ana de Ava

    Coisas simples. Grandes significados.
    Grata pelo texto