A pequenez dos dramas humanos

Observo enquanto ela tenta, frustradamente, fazer a impressora funcionar. Os longos cabelos cacheados estão emaranhados em um ninho de rato. Resultado de frustrações de uma noite anterior. Lambo minhas patas e relaxo no sofá, olho esta cena tragicômica.

Humana boba…

Não sabe ela que, assim como os animais que sentem o nervosismo das pessoas, as impressoras sentem quando você está com pressa?

Me impressiona o quanto Carolina se estressa por tudo. Pelo trânsito que pegou no dia. Pela mãe que, novamente, lhe criticava a aparência. Comigo porque deixei um passarinho morto em frente a porta do quarto.

Era apenas um presente…

Começo a tomar o meu banho. Lambo lentamente os meus longos pêlos brancos, enquanto Carolina digladia com a impressora. Batalha sangrenta. Ouso dizer que não houve vencedores.

Ela senta no chão e começa a chorar.

Lágrimas se misturam com a tinta dos ferimentos da impressora. No fim, os líquidos saem de ferimentos comuns. De Carolina na impressora. Da impressora no emocional de Carolina.

Agora pare. Eu sei o que você pensa. Sim, você! Que sou apenas um gato egoísta. Que me divirto com a pequenez dos dramas humanos, enquanto tomo um banho no sofá.

Pois saiba que sou, sim, egoísta. Talvez ela tivesse que aprender um pouco mais comigo, a seguir a vida com leveza felina.

Mas a minha humana é tão boba… Passa tanto tempo dando importância ao que os outros pensam dela.

Interrompo o meu banho e sento no colo de Carolina, frio e úmido em decorrência das lágrimas. Ela para de chorar. Sente o meu calor e começa a me fazer carinho.

Ainda não posso afirmar que Carolina aprendeu a viver como um gato, mas por ora a deixo pegar emprestado um pouco da minha despreocupação.

Talvez ela até me perdoe pelo lance do passarinho…

Giovanna Ghersel

Giovanna Ghersel tem 23 anos, é estudante de direito e comunicação. Viciada em séries, viagens e desventuras amorosas. Considera ler e escrever terapêutico além de claro: desabafos em mesas de bar, cantar evidências no karaokê ou fazer uma maratona de netflix e pipoca. Atualmente está tentando escrever um livro e descobrir o que fazer da vida. Enquanto isso vai recolhendo experiências e usando-as de inspiração para os textos, afinal não existe nada mais extraordinário do que a vida.

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