Preguiça de você

Acordei e ainda estava escuro. Olhei o relógio que marcava 4:00 da manhã e me virei na cama para voltar a dormir, mas o sono havia me abandonado sem piedade. Deitada na cama quente ouvindo o barulho do ventilador numa madrugada chuvosa e inesperadamente fria no meio do verão carioca, pensei em você. Claro que pensei em você, se não estou extremamente ocupada com qualquer coisa, minha mente se transporta rapidamente pra você. Confesso que já foi pior, mais intenso e mais doloroso. Já foi muito bom também, sem dúvidas. Pensar em você já foi um parênteses de alívio em meio à confusão. Isso quando estávamos na nossa melhor fase e eu acordava horas antes do despertador com o coração acelerado por saber que te encontraria logo de manhã. Ria sozinha das nossas piadas e planejava tudo que iria te contar sobre meu dia quando você viesse me buscar pra jantar. Eu costumava sorrir só de pensar em como nos divertiríamos com os acontecimentos inusitados que dividiríamos com muito humor e como eu amava seus comentários! Tão interessados, divertidos, sarcásticos e inteligentes; sempre melhoravam qualquer história.

Com exceção daquele dia. Qual dia? Vai dizer que não se lembra? Aquele fatídico almoço, aquele no qual você estava estranho, apareceu meio barbado e com um olhar frio. Não segurou minha mão, não fez muita piada e me deu a desculpa do trabalho pra justificar o evidente fim. Estava sempre cansado, gripado e covarde pra assumir o que realmente estava acontecendo. Você havia sido tão corajoso meses antes ao enviar uma mensagem para a desconhecida que eu era “Uma vizinha com bom gosto musical. Tudo bem?” O que aconteceu com essa coragem na hora de se despedir? O que aconteceu com essa coragem na hora de dizer que já não queria mais ou que havia encontrado outra pessoa? A corajosa fui eu, querido. Eu que te encarei naquele almoço nebuloso e pedi pra você me dizer o que estava acontecendo. Eu que disse que estava tudo diferente e preferia mais ou nada. Eu que deixei claro que não gosto de meio termo. E você disse em voz baixa que iria mudar, que tinha interesse. Eu, corajosa, decidida e crédula, sorri mais uma vez com você. A última vez.

Depois daquele dia veio seu sumiço. O silêncio pesado que me imobilizou por dias e me encheu de dúvidas e tristeza e medo e ausência. Nenhuma palavra, nenhuma explicação. Apenas a promessa de mudança e o fato de você estar se mudando de mim. Tentei rir disso, até consegui fazer outras pessoas rirem disso. Você me conhece e sabe que eu não aceito tragédias que não tenham um viés cômico. Sabe como eu me divirto com minhas desventuras, mas dessa vez eu não consegui. Minhas tentativas vazias de achar alguma graça nisso tudo não surtiam efeito em mim. Mas chorar, eu chorei e chorei muito, chorei diariamente, sozinha, no banho, no carro, no quarto e no banheiro público. Chorei correndo na esteira e caminhando na rua. Chorei o choro da incompreensão, do abandono, da minha ingenuidade e, muito especialmente, chorei pelo que poderia ter sido e não foi. Eu tinha saudades de você e dos nossos dias, mas, querido, tinha muita nostalgia pelo que ainda não tinha acontecido. Sonhos frustrados se transformam nos piores pesadelos. Pensei muito em você. Pensei em como você estaria, no que estaria fazendo, se conseguia dormir e se pensava em mim. Imaginei você querendo me contar o que estava acontecendo, imaginei você escolhendo as melhores palavras ou se martirizando por não conseguir falar. Nessa fase, pensar em você me machucava demais e era uma constante nos meus dias. Era sentir dor crônica. Eu merecia aposentadoria por invalidez, sinceramente.

Hoje eu ainda penso em você, especialmente na madrugada, mas é diferente. Hoje eu penso em como você foi impessoal me explicando por mensagem que havia conhecido outra pessoa. Como foi irritante receber sua justificativa pífia por não ter dito nada antes, pois não sabia como falar. Como foi cruel me deixar um mês no escuro, apenas com a lanterna da sua promessa. Apaguei nossas conversas, seu número e qualquer possibilidade de entrar em contato com você, mas guardo os prints dessas últimas mensagens como souvenir. Voltei a eles essa madrugada. Senti a necessidade de reler suas palavras tão diretas e calculadas, palavras essas que surpreendentemente não me machucam mais. Foi como calçar um sapato que já feriu tanto o pé que formou um calo. Sabe aqueles calos que mostram como a gente se cura e pode calçar o pior dos sapatos que não vai machucar mais? Foi isso. Ler sua mensagem me mostrou que estou calejada. Não vou mentir. Claro que fiquei buscando alguma pista do dia em que você se interessou pela outra pessoa. Repassei suas palavras e domingos de partidas intermináveis de futebol. Claro que também pensei em como seria bom te encontrar e mostrar pra você que já passou. Abrir meu melhor sorriso e te cumprimentar educadamente, com minha melhor roupa, bem maquiada, com aquele perfume que você adorava e um acompanhante mais alto, mais lindo e mais novo que você. Está aí uma cena que me faz rir hoje, rir tão intensamente quanto eu ria das nossas piadas. Mas eu sei como é a vida e sei que provavelmente vou te encontrar saindo da academia, suada, descabelada e vou te evitar. A vida não permite vingancinhas infantis. Ela permite recuperação de verdade, e isso é coisa de adulto. Pra ter uma revanchezinha dessas de novela, a gente tem que manipular as coisas, programar e, querido, eu não tenho energia pra isso. Não com você. Não agora. Hoje eu tenho preguiça de você, preguiça de lembrar, preguiça de sorrir pra você. É tanta preguiça que voltei a dormir em berço esplêndido. Você é como um filme ruim. Tortura-me por horas, mas, por fim, dá um sono danado que cura qualquer insônia.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

1 comment

  1. Oi Luisa,
    olha, tirando algumas coisas ( claro, cada caso é um caso) esse texto fala muito por mim. Exatamente isso. Exatamente assim.
    um dom lindo você tem.
    beijos

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