Quando a lembrança dá os ares da graça

Eu estava lá, onde exatamente não me recordo, mas me lembro do carro em movimento. Da risada de minhas amigas no banco da frente. O vidro meio aberto, o vento batendo em meu rosto, os cabelos, fio por fio, voando em diferentes posições, ora batendo em meu rosto. Mas a lembrança, a que desejo rememorar, está dentro desta outra. A verdadeira lembrança foi aquela da qual recordei olhando para a cidade iluminada pelas luzes da noite, as pessoas nos bares passando como borrões, a cidade em movimento, uma agitação que, por algum momento, me fez recordar da selva de pedra, e enquanto as amigas riam no banco da frente, eu me lembrava no banco de trás.

Eu tinha olhado pela janela. O gelado sol americano, como haviam me dito, emanava sua luz por entre os galhos da árvore que ficava em frente a grande janela de vidro do meu quarto. Eu sabia que não estava quente, apesar do sol brilhar intensamente, lá fora não seria possível sentir o calor. Coloquei os tênis e peguei meu moletom branco da faculdade para colocar por cima da blusa de manga comprida que já havia vestido. Olhei-me no pequeno espelho do quarto, peguei as chaves de casa, o iPod e sai para a rua. A brisa gélida veio de encontro ao meu rosto, cortando as bochechas sensíveis ao frio que ainda me era desconhecido.

Sai sem rumo, queria apenas aquele momento, aqueles instantes na qual eu poderia carregar na memória para sempre. Queria decorar a cor do restaurante chinês que ficava de esquina e as placas dos carros estacionados. Lembro-me daquelas placas, para cada Estado diferente existia um lema próprio. O lema da cidade na qual perteci por aqueles poucos meses era The Empire State.

Subi a rua enquanto colocava os fones no ouvido. Queria sentir a dureza do chão de concreto por onde passava, me lembrar das raças dos cachorros que passavam por mim com seus donos e suas vidas naquela cidade.

Segui em linha reta a avenida por onde passavam tantos carros, e ônibus, e motos, e pessoas atravessando as ruas, e a fumaça saindo de bueiros, e máquinas consertando ruas e prédios, era o som daquela cidade e mesmo assim, mesmo com carros buzinando e máquinas funcionando, como em qualquer outro lugar, lá o som era diferente, a cidade era única.

Afastando-me da turbulenta avenida e pegando um caminho por entre as casas mais afastadas, as árvores começavam a tomar conta da paisagem. Não queria esquecer as infinitas tonalidades de cores que as folhas conseguiam atingir em um espaço tão curto de tempo. Ao som de Matthew Barber, “it´s one little part of my love you can’t take” (esta pequena parte do meu amor você não pode tomar), eu observo toda a composição da paisagem a minha frente enquanto dou passo por passo. As árvores, os carros, os restaurantes, as folhas, as casas, os cachorros, as pessoas, a cidade.

Meus pés me levam até uma antiga faculdade, onde os bosques parecem mágicos, daqueles retirados de contos infantis, onde fadas podem ser encontradas. Fico ali até ver as últimas folhas caírem de uma árvore e se juntarem as outras no chão, formando um lago de folhas em volta da árvore seca, com várias tonalidades de marrom, vermelho e laranja.

Volto pelo mesmo caminho. Decoro as casas, as ruas, os carros, os cachorros, os restaurantes, as árvores, os bosques e as finas gotas de chuva. Enquanto caminho por entre as folhas caídas no chão, enquanto passo por gramas que antes eram tão verdinhas, enquanto sinto o vento frio cortar minhas bochechas e as gotas de chuva respingarem em meu rosto.

Decoro o gosto do ar, as cores do concreto e a textura das árvores. Decoro as sensações que eu sentia enquanto vivenciava aquela cidade, a liberdade de caminhar sem rumo, os fones no ouvido e as mãos nos bolsos do moletom.

Desci a rua. Entrei em casa. Fechei a porta do quarto. Olhei o céu mais uma vez por entre os galhos daquela árvore. O gelado sol americano ainda estava lá, assim como as malas já feitas encostadas em uma das paredes do quarto. Era meu último dia naquela cidade, eu iria voltar para casa, mas deixaria meu lar ali na cidade que nunca dorme.

Um vento forte de brisa quente bateu em meu rosto conforme o carro pegava velocidade novamente e voltei a estar presente naquele momento. Aquele vento não cortava minhas bochechas, nem a lembrança doía. E enquanto pensava em uma lembrança, talvez tivesse pensado nesta não para recordá-la, mas sim para que eu soubesse que ainda não a esqueci.

Roh Dover

Jornalista, estudante de Letras e autora do livro Antes que o Verão Acabe. Se acha fotógrafa. Consumista literária e viciada em seriados, filmes e redes sociais. Sua palavra favorita é wanderlust. Troca chocolate por pipoca. E só tieta se for com Benedict Cumberbatch.

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