Querer ficar em casa é crime?

A maquiagem demora, o rolê é longe, mas o mais difícil é ter que explicar pros amigos por que você não quer ir. É que poucos seres humanos entendem as delícias de ficar em casa e que às vezes nem um show da Madonna é o suficiente pra te tirar do conforto do seu sofá. Mas se você se arrisca a lançar qualquer tentativa de desculpa pra não ir, eles já arregalam o olho com um “COMASSIM VOCÊ NÃO VAI??” – sua creammynósa!

É longe! “Eu te busco!” Mas tô sem grana. “Eu pago pra você!” É que tô cansada. “Pára, vai! Você tem 25 anos!” É que não tô afim, mesmo. “Chegando lá você vai ver, vai adorar!”

E aí você acaba indo. Afim de manter a saúde da sua amizade com aquelas pessoas e a integridade da sua juventude que supostamente não combina com aquela maratona de House of Cards embaixo das cobertas, você acaba indo. Acaba tendo que colocar um salto porque o rolê é nos Jardins, acaba tendo que beber vários drinks pra não sentir que seu mindinho está em carne viva, e acaba pagando a conta inteira porque seus amigos ficaram bêbados e foram cada um pra um lado com uma turma diferente.

-Aquele dia foi loco.

E aí a ideia de sair, que no início da noite já parecia meio errada, agora ganhou um combo de arrependimento + tortura com batata grande – sim, sua batata da perna ficou inchada.

Não é que você não gosta de sair, você adora. Mas tem dias e dias.

Tem dias que uma boa bebedeira vai dar aquela endireitada nas suas costas e na sua vida, mas tem dias que você sabe que nada vai te recompensar mais do que ficar horas lendo um livro sem ver o tempo passar.

Tem dias que nada vai te trazer mais alegria do que assistir 5 filmes comendo fandangos & todas as tranqueiras do mundo, hibernando no sofá.

Tem dias que dançar a noite toda não vai fazer seus pés mais felizes do que ficar passando eles entre o lençol e o edredom depois de um banho quente.

Tem dias que qualquer conversa de bar pode não ser tão interessante quanto aquele podcast cheio de diálogos que vai te abrir a cabeça e que você vai ouvir recostadinha na cama entre uma taça de vinho e outra.

Tem dias que o cheirinho daquele café ou chá no fim da tarde vai ser muito mais gostoso do que qualquer cangote de Hugo Boss.

Tem dias que a gente quer ficar só.

E eu tenho muitos dias assim – na verdade até mais do que seria permitido por lei na minha idade. Momentos em que só quero fazer minhas coisas e me conectar com o meu interior. Que simplesmente não quero fazer nada, apenas ficar à toa  me hidratando, me abastecendo de mim mesma e tirando aquelas pelinhas de bolha que ficaram no pé por conta de noitadas passadas. E claro, assistindo os diálogos mais incríveis do cinema pra depois jogar por cima de algumas conversas da vida real e rir quando me acham poética.

Esse texto é do site “Vamos pra Vênus“, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Vamos pra Vênus aqui! <3 

Vamos pra Vênus

Juh Batah é a criadora do do blog Vamos pra Vênus, designer, ilustradora e webwriter.

  • Mara do Carmo B Maciel

    Excelente. Sensível percepção das pressões para ser como a “turma”. Parabéns!

  • Priscila

    Aquele momento que o texto surge 5 minutos depois de ter dito “vou” às amigas, mesmo com o desejo certo de fazer maratona de Gilmore Girls (com brigadeiro).