Relacionamento Fast-Food

Nos conhecemos numa festa aleatória num lugar apertado que mal dava pra andar sem esbarrar nas pessoas. Ele era conhecido de uma amiga minha. Achei bonitinho. Me interessei. Conversamos amenidades num lugar onde não dava para conversar amenidades. A caixa de som gigantesca atrás da gente pulsava uma música irreconhecível por causa do grave que latejava na minha cabeça. Vamos sair daqui, não tô escutando nada. Fomos para um canto que não era canto e tinha espaço de sobra. Conversamos sobre coisas que nem me lembro mais. Aliás, não me lembro de várias coisas. Dali a duas horas eu já tava pensando em como ele era a pessoa mais interessante que eu conheci nos últimos tempos. Uma da manhã eu já tava planejando o nosso primeiro encontro num lugar bem diferente fazendo um programa que nunca fiz com ninguém. Ele ia me achar muito interessante e imprevisível e ia falar sobre como eu pensava diferente e como isso era surpreendente. Duas da manhã eu já tava pensando como seria apresentar ele pros meus amigos e todos nós sairmos pra uma balada juntos, pra depois eles me contarem sobre como a gente combina e como eles o amaram. Três da manhã, enquanto a gente dançava desajeitado ao som de um música brasileira dessas que todo mundo conhece, eu já tava prevendo a nossa primeira briga depois de meses enrolando sem decidir nada sobre o nosso “relacionamento”. Ia ser uma briguinha boba, dessas que no meio a gente já nem lembra porque começou e ia servir pra gente perceber o quanto a gente se gosta. Até nas minhas fantasias os relacionamentos são complicados. Quatro da manhã e eu já tava pensando nos próximos aniversários de amigas que tenho marcados na agenda e de como eu ia poder levar ele e apresentá-lo pros namorados delas pra eles conversarem amenidades enquanto a gente fofoca sobre alguma coisa nova que as Kardashians fizeram. Cinco da manhã e eu já tô achando tudo incrível. Ele é a pessoa mais interessante do mundo. Como que eu não conheci ele antes? Vou fazer o mapa astral dele quando chegar em casa. Era sagitário com o que mesmo? Ele tem uma lua, ascendente, planeta ou satélite em comum comigo. A gente tem tudo a ver. Eu não quero ir embora. Quero ficar mais. Seis da manhã e não tem mais ninguém na festa. Tá na hora da gente ir embora. Seis e quarenta e cinco a gente já tá no Uber e eu já tô em êxtase pensando em como fomos felizes nesses meses de relacionamento que eu já vivi na minha cabeça. A gente se despede, eu entro em casa e durmo abraçando o travesseiro imaginando que é ele. No outro dia acordo e o êxtase passou. Tá mais com cara de ressaca. O travesseiro era só o travesseiro, sem personificações. Ele nem era tão interessante assim. Acho que ele tem cara de quem faria aquela coisa que me irrita. A gente não ia dar certo, ele demora pra responder mensagem de propósito. Eu não lembro muito bem se ele era tão bonito assim. A camisa dele tava ao contrário.

Levanto, faço um suco verde e vou perguntar pras minhas amigas o que eu perdi enquanto namorava por todos esses meses numa única noite. A gente terminou. Vida que segue.

Isabela Lima

Faz faculdade de design gráfico e não sabe escrever mini autobiografias. De vez em quando inventa de escrever uns textos nada a ver. Ama comer e come qualquer coisa. A não ser que tenha coentro. Odeia coentro.

  • lipe

    mulheres… amei!

  • Esse tipo de visão realmente faz a gente olhar as coisas com outra perspectiva.