Alma errante

Foto por Irina Gache
Foto por Irina Gache

Ela sempre tinha ideias mirabolantes e planos infalíveis. Entrava em todos os convites que pareciam significar vida à flor da pele, ou um resgate do que realmente vale a pena. Queria morar numa Kombi, passa um ano meditando em silêncio, fazer música na praia, plantar num pedaço de terra, andar o mundo, escrever um livro de poemas…

Feito caracol, ela andava com seu próprio ninho nas costas, sem querer, havia se tornado mestre em destruir castelos, em abandonar redutos com energia estagnada e prisões encantadas. Por mais canseira nos pés que sentisse, sua alma selvagem não aceitava ser controlada pelo comodismo, pelos medos, pelos apegos. Ela saia andando, deixando, despindo, levando tudo o que fica em nós nos processos de decantação de sentimentos, e isso sempre cabe em alguma célula do corpo.

Tinha um coração como uma cartola mágica, de onde pessoas poderiam sacar, dependendo do peso das mãos, borboletas ou elefantes.

Ela andava pela vida se encantando e se desencantando, entrando em sonhos, rompendo realidades, quebrando a cara, rindo de si mesma, esfolando os joelhos, chorando muito e dando muita risada. Deixando pedaços de si na poeira da estrada e vendo sempre novos horizontes. Achava por aí pessoas, lugares, sentimentos que nunca foram parar em nenhum mapa do tesouro, mas deviam.

Ela tinha uma alma errante que nunca achava o bastante caber em uma única versão de si.

Na fila do pão, a alma vazia

Photo via kafkalog

Parado em frente à bancada, não me lembro mais quantos pães tenho que pedir.

– “Senhor?”

– “Apenas dois”.

Por mais que seja só para mim, sempre multiplico por dois para não ter perigo de faltar, sou meio guloso. Se sobrar, faço torrada.

Depois que perdi minha companheira há um ano, meu rumo se foi com ela e, em seu túmulo, nem o “dedicada esposa” foi escrito; não fui seu marido. Também lá não estava “amável mãe”, pois não lhe proporcionei filhos. Por que ela estava comigo não sei, talvez pelas notas não atingidas da voz do cantor que não fui, ou das letras perdidas do compositor que não me tornei, como havia lhe prometido em 89. Aquele roqueiro amor e a droga do amor suicida me alucinavam e eu disse tanta coisa que, passados os anos não cumpri, que não sei mais o que foi verdade e o que foi overdose.

Pelas pessoas prometidas que não fui, não entendo por que Beth permaneceu. O motivo de sua doença ainda é desconhecido; disseram ser depressão, mas ninguém morre disso. Acho que ela morreu porque em 89 eu matei os seus sonhos, ela só sobreviveu até o ano passado para mostrar que eu era nada daquilo que parecia ser.

– “Pensando bem, me vê apenas um pão” – sempre pensei só em mim mesmo.

Saí dali sem nada, apenas com um saco de um pão… E a alma vazia.

Minha alma não tem CPF

Arte por Jen Mann
Arte por Jen Mann

Me pedem o nome completo, CPF, endereço, salário, estado civil, gênero, nacionalidade, senha do cartão de crédito…

Eu falo, eu completo, eu sigo as instruções de acesso, mas não é isso que sou. Sou o indefinível, o ‘não sei’, o sentido do momento, o amor, o choro, o nervo. A dúvida, o silêncio e a falas soltas ao vento.

Me perguntam minha profissão, posição política, religião, opinião, planos de vida, minha comida preferida…

E eu sou a paixão pela doçura agora e amanhã o mergulho de cabeça no apimentado. Longe da prisão dos números e dos nomes que me dão, eu sou a liberdade e a imperfeição. Eu sou a que fica em cima do muro, sentada na encruzilhada, observando as setas dos caminhos e me possibilitando estar um pouco no ‘ainda não vou fazer escolha alguma’. Às vezes eu sou a inação porque nenhum sentido me interessa. Eu fico no limbo, eu fico sem pressa.

Perguntam das minhas verdades e eu sou o medo estampado. Perguntam dos meus grandes saltos e eu sou o sonho desenraizado.

Por dentro eu sinto esse espaço indefinido, um sem juízo, uma alma sem filtro. Mas a vida de fora é uma coisa que se organiza de tal forma que para dar um passo eu preciso muito mais do que simplesmente existir no espaço. As burocracias me enlaçam.

Engraçado…

Minha alma não tem CPF, meu abraço não tem gênero, meu sentimento não tem idioma, por vezes nem verbete. Minha motivação de vida não se ampara numa posição, numa profissão. Meu endereço não é meu lar, meu cartão de crédito furado diz muito menos do que o meu olhar.

E para me conhecer um pouco é melhor tirar os sapatos, acender um cigarro e dizer alto ‘imagina se…’

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