Na fila do pão, a alma vazia

Photo via kafkalog

Parado em frente à bancada, não me lembro mais quantos pães tenho que pedir.

– “Senhor?”

– “Apenas dois”.

Por mais que seja só para mim, sempre multiplico por dois para não ter perigo de faltar, sou meio guloso. Se sobrar, faço torrada.

Depois que perdi minha companheira há um ano, meu rumo se foi com ela e, em seu túmulo, nem o “dedicada esposa” foi escrito; não fui seu marido. Também lá não estava “amável mãe”, pois não lhe proporcionei filhos. Por que ela estava comigo não sei, talvez pelas notas não atingidas da voz do cantor que não fui, ou das letras perdidas do compositor que não me tornei, como havia lhe prometido em 89. Aquele roqueiro amor e a droga do amor suicida me alucinavam e eu disse tanta coisa que, passados os anos não cumpri, que não sei mais o que foi verdade e o que foi overdose.

Pelas pessoas prometidas que não fui, não entendo por que Beth permaneceu. O motivo de sua doença ainda é desconhecido; disseram ser depressão, mas ninguém morre disso. Acho que ela morreu porque em 89 eu matei os seus sonhos, ela só sobreviveu até o ano passado para mostrar que eu era nada daquilo que parecia ser.

– “Pensando bem, me vê apenas um pão” – sempre pensei só em mim mesmo.

Saí dali sem nada, apenas com um saco de um pão… E a alma vazia.

Wikilivro #PARTE 1

Arte por Beth Hoeckel
Arte por Beth Hoeckel

Desde que Lela recebeu a notícia ontem, não conseguiu dormir, nem comer, nem falar, nem escrever. Pegava qualquer coisa pra ler, mas as palavras chegavam só até a retina e não eram decifradas pelo cérebro. Pra não dizer que não comeu nada, pegou um yogurte de gosto duvidoso na geladeira e foi para o trabalho, sem precisar pensar no caminho que já conhecia. Sabia que a partir daquilo, tudo ia mudar. Chegou no centro da cidade com ansiedade para ver como as pessoas reagiriam ou se pelo menos sabiam de alguma coisa. Na TV não falaram nada. Nas redes sociais ninguém teve coragem de tocar no assunto. Olhou pra cima e sentiu o tempo fechando. As nuvens se juntaram bem rápido em cima dos prédios. Dava pra ver pela fresta, que fica quando você olha pra cima e vê um corredor destorcido de azul entre o topo dos prédios, mas agora a cor era cinza carregado. A manhã ficou com cara de entardecer. Escuro, escuro. Os postes se acenderam. Ventava muito e os papéis, as folhas secas de árvores e o lixo jogado pelos cidadãos sem esperança se misturavam numa dança circular que intimidava os transeuntes.

Lela entrou rápido no prédio, prendeu um cabelo num meio rabo de cavalo e entrou no elevador aliviada por subir até o 15º andar sozinha. Cumprimentou o recepcionista, que lixava as unhas distraído, e foi direto na copa pegar um café. Sentou na sua mesa e sentiu que um clima estranho pairava no ar. Será que todo mundo já sabia da notícia? Amanda chegou de luvas de inverno, o que atraiu os olhares de todas as baias do escritório, mas ninguém falou nada. Em dias normais a zoação teria chegado aos grupos de Whatasapp, mas hoje não. Lá fora estava escuro quase como se estivesse de noite, mas não chovia, como se a chuva estivesse esperando um sinal para descer. E se nunca mais parasse de chover quando começasse?

Lela foi olhar pela janela e tomou um susto quando viu uma projeção no prédio da frente que explicava sobre a nova descoberta das ondas gravitacionais. A imagem de dois buracos negros se unindo naquele mar de brilhantes fez com que os olhos se enchessem de lágrimas. Amanda chegou do seu lado e falou ” é incrível isso, né?”. E era. Mas essa descoberta tinha acarretado um monte de movimentações que muita gente não fazia ideia. Lela roía as unhas de nervoso, talvez por saber mais do que deveria, mesmo sabendo que a notícia tinha se espalhado de forma silenciosa. Mesmo assim, resolveu encarar a situação de frente. Não dava pra continuar fingindo que nada aconteceu

– Amanda, o que houve com suas mãos?

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