Um dia o amor bateu na minha porta e eu não abri

Arte por Federica Bordoni

Mentira, eu abri sim. Mas confesso que fazer isso foi bem difícil e tem sido um dos maiores aprendizados até agora. Há um processo longo pela frente pra eu conseguir me olhar de frente e dizer “tudo bem, você pode ser feliz com alguém”. Eu nunca achei que isso seria possível.

É meio louco, mas indo contra a corrente, desde muito nova comecei a me blindar pro amor. Achava que eu era boa demais para passar pelos perrengues de um relacionamento Seria muito mais simples viver a vida sem me envolver demais com ninguém e, assim, estaria protegida de ser enganada ou sofrer por coisas desnecessárias.

Isso vem desde lá de cedo, da separação dos meus pais. Quando eles se separaram, minha mãe, que usava só roupas largas e escuras e passava o dia reclamando, se transformou em um mulherão independente, com roupas descoladas. Ela estava sempre com amigos, namorados e enfim, muito feliz. E essa sementinha foi plantada na minha cabeça. Uma mulher sem um homem é muito melhor, a equação fechava.

É claro que eu só fui descobrir essa influência depois de muita terapia, mas na adolescência me lembro de ver todo mundo namorando e não me identificar nem um pouco com aquele modelo. E cá pra nós, o modelo de relacionamento proposto pela nossa sociedade, de maneira geral, é machista e doentio. Com muita possessão, pouco diálogo, desrespeito e viradinha de olhos sem paciência.

Eu me envolvi com muita gente, porque era isso que eu queria, muitos casinhos, mas nada sério. Eu queria me entregar intensamente, e nossa! Como eu fazia isso… Me apaixonava desesperadamente, queria sugar todo aquele amor momentâneo porque eu sabia que ia passar. E passava. Na mesma velocidade que eu me apaixonava, eu me desapaixonava e eu amava isso. Amava me apaixonar mesmo sem ser correspondida e isso é lindo também. Valia a pena só pra sentir aquelas borboletas no estômago. Eu aprendi que todos os relacionamentos, por mais que durem um segundo, valem a pena serem vividos com vontade.

Até que um dia, um desses casinhos durou mais e quando vi que isso podia dar em algo sério, dei um jeito de acabar logo com tudo. Depois eu achei que o modelo ideal de relacionamento pra mim seria um namoro aberto. Vivi essa história também.  Deu certo durante o tempo de durou. Terminou por causa dos deslocamentos da vida e não por ser aberto. Eu queria mais.

A questão não era poder ficar com quem eu quisesse e sim saber que eu estava livre de ter que encarar um amor de verdade. Não poder me desapaixonar a qualquer momento me deixava louca. Eu achava que amar era sinônimo de fraqueza, porque  me sentia vulnerável. E como disse Sun Tzu, autor da Arte da Guerra: quem não tem nada a perder é invencível.

E era isso que eu queria ser, invencível. Planejei minha vida pra nunca amar ninguém de verdade. Igual ao filme “Da Magia à Sedução”, que a personagem cria um feitiço para si mesma para nunca se apaixonar por ninguém, só por um homem muito específico, que seria impossível de encontrar. Acontece que esse homem apareceu na vida dela e apareceu na minha também.

Ele tirou a minha base e destruiu todas as minhas certezas, mas plantou algo que eu nunca imaginei que sentiria, a felicidade compartilhada. O amor, aquele que acontece quando duas pessoas completas se somam e conquistam o mundo.

E eu comecei a viver um relacionamento incrível, até que eu reparei que eu estava realmente feliz, mais feliz do que eu era antes até. Eu sempre achei que fosse impossível. Então, comecei a me sabotar de todas as formas possíveis, tentando me convencer de que eu estava entrando em uma furada, que amor assim não existe e que, enfim, eu não poderia ser feliz assim. Como assim você tá feliz com um cara? Não, você não planejou ser feliz assim, volte duas casas.

Hoje, é óbvio pra mim que era apenas medo de descobrir que é totalmente possível ser feliz com alguém. Uma teoria de vida inteira sendo jogada no lixo. Não podia ser.

Mas amadurecer é isso, descobrir que certezas são ideias estagnadas fantasiadas de confiança. E viver sem ter certeza é que é o grande barato. É descobrir, descobrir e descobrir. Arriscar a viver uma vida a dois, ainda me dá frio na barriga, mas é o que mais me faz feliz agora. E amadurecer também é descobrir que não existe jeito certo de viver nada, a única coisa que faz sentido é ser feliz e não importa como. Essa é a única coisa que a gente tem que buscar, ser feliz sem que ninguém e nem você mesmo te diga o contrário.

Eu sempre achei que as pessoas fodas eram aquelas impenetráveis, independentes e que não se envolviam com ninguém. Mas quem é foda é quem se joga e se arrisca com medo mesmo, ainda que seja no amor. E o amor era um abismo escuro pra mim, até conseguir me jogar e descobrir que eu estava voando.

Se for pra namorar, que seja pra mergulhar um no outro

Diante da vastidão do universo e da relatividade do tempo, do big bang, da física e da química, da extinção dos dinossauros e da probabilidade da vida humana acontecer, eu aceito por completo que foi uma sorte imensa ter te encontrado. Ou, como dizem os novos entendidos sobre acaso, nós temos toda a responsabilidade quântica de termos nos encontrado. De uma maneira ou de outra, pra mim não importa. Tanta coisa podia ter dado errado pelo caminho e mesmo assim aconteceu.  A gente se encontrou, se apaixonou e pela primeira vez na vida eu entendi o que dizem nos filmes de amor.

E eu vejo tanta gente por aí querendo namorar só pra não ficar sozinho, só pra ter companhia. Mas se for só pra ter companhia, eu prefiro a minha. Se for pra namorar, que seja pra mergulhar um no outro. Se for pra namorar, eu só quero que seja que nem a gente.

Que seja pra sentir o coração acelerando quando eu ouço o barulho na chave entrando na fechadura quando você chega. Que seja pra ter vontade de te agarrar quando você passa no corredor. Que seja pra ter vontade de te levar pra qualquer lugar que eu vá, mesmo sabendo que eu preciso dos meus momentos solitários de vez em quanto. Que seja pra ter vontade de viver um no outro, entrar um no outro e virar um ser com duas mentes e um corpo. Que seja pra sentir suas conquistas e derrotas como se fossem minhas. Que seja pra acordar todo dia e sorrir só por você estar lá. Que seja pra ter essa ajuda mútua e motivação pra tudo novo que eu inventar de fazer.

Que seja pra fazer miojo quando a gente chega bêbado de madrugada. Que seja pra gente ter nossa liberdade, que é o que nos prende. Que seja pra gente sair à noite pra lugares diferentes e chegar em casa morrendo de saudade. Que seja para as nóias e os monstrinhos da minha cabeça hibernarem quando eu te ligar e ouvir que tá tudo bem. Que não seja um relacionamento com certezas ou dúvidas, mas com descobertas. Que seja exagerado mesmo. Que não precise existir a expectativa do futuro, porque a gente se basta agora e isso é o suficiente. Que a gente jure amor eterno, sabendo que ele não existe, mas achando que nós somos seres especiais e vamos viver o amor eterno, sim.

Que seja essa conexão de pensamentos e ideias. Que seja pra viver a telepatia humana. Que todas as camadas de uma conversa sejam entendidas e o outro saiba exatamente do que se trata. Que eu respire e você saiba que tem algo diferente no meu humor. Que seja pra experimentar outros níveis de consciência juntos. Que seja pra inspirar o outro e não para podar ideias. Que seja pra enlouquecer junto. Pra se divertir junto. Pra chorar junto. Pra levantar junto. Mudar junto. Que seja pra fazer tudo junto, mesmo em pensamento. Que seja pra estar sempre junto, mesmo separados, mesmo vivendo as rotinas individualmente, mesmo correndo atrás dos nossos sonhos por nós mesmos. Que seja pra eu querer ser o melhor de mim pra aflorar o melhor que tem em você.

Que nossas vidas continuem sendo vidas individuais, mas compartilhadas. Que você continue tendo seus segredos e eu os meus. Que tenha sempre alguma coisinha pra te surpreender.  Que cada um seja responsável pelas próprias escolhas, mas sabendo que vai sempre existir o impulso do outro pra toda escada que surgir e uma mola no fundo do penhasco quando o outro cair. Que seja pra diminuir o medo de arriscar. Que seja pra se jogar. Que seja pra ser feliz.

O triste fim do romantismo

Foto por Roman Filippov
Foto por Roman Filippov

Não sei bem quando, como ou por que ele foi exterminado. Ex-ter-mi-na-do, palavra que por si só tem o poder da sua ação. Não poderia escolher outra, menos forte, para anunciar o iminente fim desse estado de espírito capaz de produzir as mais belas frases de amor, paixão, loucura e tristeza: o romantismo.

Exterminado do jornalismo, das escolas, das amizades e, principalmente, dos relacionamentos amorosos.

Isso mesmo, não somente dos amorosos. Passei a adolescência escrevendo e recebendo cartas das minhas amigas, com declarações de amizade e elogios. Eram muito bem decoradas, com letras em várias cores, adesivos e beijos de batom – tão afetivas! Vocês, que viveram isso, se lembram da sensação? Às vezes chorávamos de emoção.

O jornalismo literário era puro romantismo, até nas tragédias. Bons tempos de Nelson Rodrigues, que não foi meu tempo, mas eu li muito. Certa vez, ele teve que escrever sobre um incêndio. Ninguém se feriu, nada muito relevante aconteceu, seria uma nota qualquer. Porém, estamos falando de um jornalista romântico. Nelson inventou um passarinho, que havia ficado preso e teve um resgate emocionante. Depois, vários leitores escreveram ao jornal para saber mais detalhes do tal passarinho, todos comovidos pela história e apaixonados pelo seu personagem. “Danem-se os fatos.”, às vezes ele dizia e levava a sério – Obrigada!

Quanto ao romantismo nas relações amorosas, também preciso citar Nelson Rodrigues. Ele é o principal responsável pelo meu romantismo. Li suas crônicas durante toda a minha adolescência, além do livro “Não Se Pode Amar E Ser Feliz Ao Mesmo Tempo”, assinado pelo seu heterônimo, a conselheira sentimental Myrna. “Sofrer pela criatura amada – não é um mal, é quase um bem. Você conhece tristezas mais lindas, mais inspiradoras, do que as tristezas do amor?” – é uma das minhas frases preferidas do livro. Pois é, agora calculem o quanto eu sou romântica.

Sobre o romantismo na escola, na minha época o dia dos namorados era um evento. Os meninos, anônimos, deixavam presentes para as suas paqueras (hoje crushs). Eles chegavam mais cedo na sala de aula pra isso, vocês têm noção? Os dias que antecediam eram tensos, as meninas confabulavam nas aulas e no recreio sobre os possíveis admiradores secretos. Chegado o dia, o burburinho era ainda maior. O coração acelerava quando víamos um embrulho em cima da nossa mesa. Depois, todas reunidas, cada uma se gabava do seu presente e palpitava sobre os alheios. Quando me lembrei dessa tradição romântica, fui perguntar à uma amiga da época se as suas irmãs, ambas com 14 anos e que estudam em escolas diferentes, vivenciaram o mesmo. As respostas:

“Não, só se for de fato namoro.”

“Não, eu acho o dia dos namorados uma data ridícula, para a indústria lucrar com o amor. E os meninos que eu conheço pensam isso também.”

Nããããão… Nããããão moçada! Aonde vamos parar sendo assim tão racionais?!!

Com o imediatismo da Internet, acabamos trocando muitas palavras… vazias. Valorizamos mais as nossas próprias cobranças e inseguranças do que o amor que damos e recebemos – como deve ser – gratuitamente. Estamos mais preocupados com o status online do que com o relacionamento propriamente dito.

A ausência dá espaço ao imaginário. Antes da Internet, nós tínhamos tempo de romantizar mentalmente, por dias, meses e anos. Uma troca de olhar e poucas palavras, na padaria ou na locadora de filmes, eram suficientes para semear um romance imaginário de meses. Hoje, não tem locadora de filmes e tem Tinder. Não trocamos olhares, apenas pelo reflexo de nós mesmos na tela do celular, ou na selfie.

Passamos tempo de mais no feed.

Antes da Internet, tinha saudade. Hoje tem Skype, FaceTime, What’s App… Antes tinha carta, a gente escrevia e escolhia as palavras com carinho. Hoje não conseguimos nem enviar um parágrafo por mensagem, cada pequena frase é separada por um send. A saudade alimentava o nosso imaginário, nosso romantismo.

Ah, se essa juventude soubesse do prazer em escolher belas palavras e presenteá-las a quem se ama… E se não forem palavras, que sejam olhares, flores, desenhos…

“Viver é desenhar sem borracha.”, disse Millôr Fernandes. Podemos ficar desenhando cubos ou nos arriscar em traços mais belos, que nem sempre sairão firmes ou corretos. Mas o que é correto tratando-se de algo tão abstrato como a vida? Arrisquemos mais em desenhar com alma.

O que é isso senão o romantismo?

Sobre visões nada a ver e ser solteira

Esses dias li uma frase que achei bem legal e me fez pensar em algumas coisas. Ela dizia: “Você chega em casa, faz um café, senta na sua poltrona favorita e não tem ninguém…Você decide se isso é solidão ou liberdade”. Esse texto podia ser sobre perspectivas e formas de se encarar determinadas coisas, mas não é. Esse texto é sobre relacionamentos, ou melhor, a falta de relacionamentos (amorosos, no caso). Eu não sei se é errado falar isso e, sinceramente, eu não sei nem se me sinto confortável em dizer, principalmente porque geralmente quando uma pessoa fica reafirmando uma coisa demais, na verdade ela acaba falando o contrário. Mas, para fins, digamos, de consistência textual, acho que vale a pena arriscar — Eu sempre achei que ser solteira tinha lá suas grandes vantagens. E sempre achei que não ter ninguém atrelado à você te abre um leque bem legal de possibilidades. Resumindo, ser sozinha tem um quê libertador que acho necessário pra qualquer pessoa, pelo menos em algum momento da vida. Só que no meu caso não é só um momento, ou pelo menos é um momento que busco prolongar muitas vezes. Não, eu não to desiludida com a vida ou com ninguém pra tá escrevendo esse texto e não, eu não sou revoltada-contra-casais-e-relacionamentos-só-porque-não-tenho-um. E também isso não quer dizer que quero morrer solteira e não quero me relacionar com ninguém nunca mais. Calma. Vamos por partes.

Conversando com uma amiga um dia desses sobre relacionamentos — e acho que vale a pena dizer que essa minha amiga pensa que nem eu e, sim, é solteira também, nós acabamos comentando sobre um conhecido que praticamente emendava um relacionamento no outro (quem não tem um(a) conhecido(a) assim que atire a primeira pedra). Mas o que mais encucava a gente é que esse conhecido pratica o que considero o fenômeno-da-pessoa-que-namora-pelo-simples-ato-de-namorar. As pessoas que aderem a esse fenômeno não namoram porque encontraram uma pessoa bacana e têm vontade de partilhar a vida com ela, mas sim porque simplesmente: 1. “chegou a hora” ou 2.“não aguentam ser solteiros” (tem também o 3. “estamos ficando há muito tempo e acho que temos que começar a namorar”, mas esse eu prefiro não comentar. Regras de etiqueta relacionamentais nunca foram muito o meu forte). Não vou me estender muito no motivo número 1 porque eu não tenho muito o que argumentar sobre isso além de não entender como se dá essa epifania da hora exata que se deve namorar, mesmo que seja com a primeira pessoa que surgir pela frente. Será que temos um timing biológico embutido tipo o do mito da idade certa pra engravidar só que pra relacionamentos? Que meio que nos avisa qual a hora certa pra largar as baladas hétero que tocam Oração? Ou será que o valor do saldo da conta corrente é diretamente proporcional à tomada dessa decisão? Fica o questionamento.

Mas é o motivo 2 que acho que me intriga mais. É que eu nunca entendi muito bem esse negócio de não aguentar ou sustentar uma vida de solteiro(a). E eu já ouvi isso de muita gente. Eu e minha amiga chegamos à conclusão que na verdade o que exatamente não se consegue sustentar é apenas uma pequena parte que as pessoas encaram como um todo. Ir pra balada todo final de semana, pegar todo mundo, despirocar geral e acordar de ressaca todo domingo podem fazer sim parte da sua vida de solteiro, mas ela não precisa se resumir a isso. Nós não somos uma seita que só aceita gente baladeira e despirocada e que caso você queira ficar em casa de boa vai levar advertência. E eu acho que é isso que muita gente não entende. E acha que pra poder ficar em casa, ir no cinema, comer umas coisas gostosas, fazer “coisas de casal”, você, necessariamente, tem que ser, bom… um casal. Porque se você é solteiro você não pode fazer essas coisas. Você tem que ir na balada que todo mundo tá indo. Você tem que postar a música Oração no snapchat (parei). Você tem que bombar seu insta. Você tem que dar pt quase todo mês. E você, principalmente, tem que pegar uma ou várias pessoas nesse meio tempo. E, realmente, se for pra ser assim, acho que ninguém sustenta. E eu digo ninguém mesmo.

Parece que recebemos um manual de instruções sociais que restringe o que você pode ou não fazer quando solteiro ou namorando. Só que não é assim. Ser solteiro também pode ser ficar em casa sozinha(o) vendo besteira na internet, vendo um filme/série debaixo do cobertor. Ser solteiro também é ir no cinema, é comer pizza no domingo, é ficar de boa. Você não precisa namorar pra fazer essas coisas. Assim como você também não precisa ser solteiro pra ir pra balada e beber todas.

Eu tenho uma amiga que namora há muitos anos e tem um relacionamento ótimo, e ela diz pra mim que ela precisa ter um me time pra fazer as coisas dela, ver Kardashians sozinha sem ninguém julgar etc. E eu acho que ser solteiro é ter me time 24h. Seja na balada ou em casa. Seja maquiada de salto 15 ou de pijama com a meia furada. É maravilhoso ser solteiro quando você entende que não é nada além de simplesmente ser você e fazer o que você quer. É maravilhoso namorar quando você entende a mesma coisa. Os dois podem ser ótimos, desde que aconteçam naturalmente, sem planejamento nem data e hora marcada pra fazer x ou y. Sem regras implícitas que você inventou na sua cabeça e acha que é o normal. E parar de deixar isso reger sua vida, como se seu estado civil determinasse todas as decisões e experiências que você deve ter. Calma, é só um rótulo pra organizar a galera. Você quem decide se é solidão ou se é liberdade.

Relacionamento Fast-Food

Nos conhecemos numa festa aleatória num lugar apertado que mal dava pra andar sem esbarrar nas pessoas. Ele era conhecido de uma amiga minha. Achei bonitinho. Me interessei. Conversamos amenidades num lugar onde não dava para conversar amenidades. A caixa de som gigantesca atrás da gente pulsava uma música irreconhecível por causa do grave que latejava na minha cabeça. Vamos sair daqui, não tô escutando nada. Fomos para um canto que não era canto e tinha espaço de sobra. Conversamos sobre coisas que nem me lembro mais. Aliás, não me lembro de várias coisas. Dali a duas horas eu já tava pensando em como ele era a pessoa mais interessante que eu conheci nos últimos tempos. Uma da manhã eu já tava planejando o nosso primeiro encontro num lugar bem diferente fazendo um programa que nunca fiz com ninguém. Ele ia me achar muito interessante e imprevisível e ia falar sobre como eu pensava diferente e como isso era surpreendente. Duas da manhã eu já tava pensando como seria apresentar ele pros meus amigos e todos nós sairmos pra uma balada juntos, pra depois eles me contarem sobre como a gente combina e como eles o amaram. Três da manhã, enquanto a gente dançava desajeitado ao som de um música brasileira dessas que todo mundo conhece, eu já tava prevendo a nossa primeira briga depois de meses enrolando sem decidir nada sobre o nosso “relacionamento”. Ia ser uma briguinha boba, dessas que no meio a gente já nem lembra porque começou e ia servir pra gente perceber o quanto a gente se gosta. Até nas minhas fantasias os relacionamentos são complicados. Quatro da manhã e eu já tava pensando nos próximos aniversários de amigas que tenho marcados na agenda e de como eu ia poder levar ele e apresentá-lo pros namorados delas pra eles conversarem amenidades enquanto a gente fofoca sobre alguma coisa nova que as Kardashians fizeram. Cinco da manhã e eu já tô achando tudo incrível. Ele é a pessoa mais interessante do mundo. Como que eu não conheci ele antes? Vou fazer o mapa astral dele quando chegar em casa. Era sagitário com o que mesmo? Ele tem uma lua, ascendente, planeta ou satélite em comum comigo. A gente tem tudo a ver. Eu não quero ir embora. Quero ficar mais. Seis da manhã e não tem mais ninguém na festa. Tá na hora da gente ir embora. Seis e quarenta e cinco a gente já tá no Uber e eu já tô em êxtase pensando em como fomos felizes nesses meses de relacionamento que eu já vivi na minha cabeça. A gente se despede, eu entro em casa e durmo abraçando o travesseiro imaginando que é ele. No outro dia acordo e o êxtase passou. Tá mais com cara de ressaca. O travesseiro era só o travesseiro, sem personificações. Ele nem era tão interessante assim. Acho que ele tem cara de quem faria aquela coisa que me irrita. A gente não ia dar certo, ele demora pra responder mensagem de propósito. Eu não lembro muito bem se ele era tão bonito assim. A camisa dele tava ao contrário.

Levanto, faço um suco verde e vou perguntar pras minhas amigas o que eu perdi enquanto namorava por todos esses meses numa única noite. A gente terminou. Vida que segue.

Temos 20 e poucos anos

Acordamos mais cedo do que queríamos. Nos abastecemos com café. Líquido sagrado dos deuses. Tão necessário que existe até café de R$15,00. O café gourmet é muito caro para o orçamento universitário. Quando finalmente conseguimos comprar um, tiramos fotos para colocar no nosso Instagram e fingir que somos hipsters. Não sabemos se ser hipster ainda está na moda.

Temos 20 e poucos anos.

Entramos na faculdade. Vamos para todos os happy hours. Competição de beer pong. O drink está caro. Vamos comprar catuaba. Bumbum granada. Tá tranquilo. Tá favorável. A idade chega. Começamos a ter ressacas homéricas. Trocamos o happy hour da faculdade, a festinha que dá pra entrar de graça até a meia-noite por um vinho com os amigos em casa ou um jantarzinho tranquilo. Temos que fazer programas mais adultos, afinal. Não aguentamos mais o jantarzinho. Balada no dia seguinte. Ressaca homérica. Nunca mais vamos beber na vida. Semana seguinte tem jantarzinho. Tem a balada pós jantarzinho também.

Temos 20 e poucos anos.

Passamos a faculdade toda na pressa. É correria no dia a dia. Faculdade. Estágio. Academia. Queremos nos parecer com a Gabriela Pugliesi. Vamos ao nutricionista. Fazemos dieta por um mês. Esse mês a gente bebe menos. Ficamos de saco cheio da dieta. A gente não vive pra estudar e além disso ser gostoso de qualquer forma. Vamos ao barzinho depois, afinal malhamos tanto que merecemos uma cervejinha. Ficamos com vergonha porque saímos da dieta. Nunca mais voltamos ao nutricionista.

Temos 20 e poucos anos.

Chega a semana de provas na faculdade. Insônia. Nervosismo. Refluxo. Gastrite. Toma café. Mais gastrite. Omeprazol. Pega prova do semestre passado. Meu Deus essa prova não faz sentido nenhum. Passamos a madrugada estudando o que deveríamos ter estudado o semestre todo. Hora de fazer uma amizade sincera com a menina que anota tudo da aula. Posso pegar seu caderno emprestado? Obrigada. Qual a resposta da questão 1? Não queremos colar na prova. Olhamos para prova. Não entendemos nada. Chuta D de Deus que dá certo.

Temos 20 e poucos anos.
Terminamos a faculdade. Graças a Deus. Colação de grau. Bora no barzinho comemorar com os amigos. Um jantar com a família. Estamos comemorando. Estamos formados. Desempregados também. Mandamos currículo para mil empresas. Precisa ter experiência para poder trabalhar, mas como criar experiência se ninguém está contratando? Nossos pais começam a ficar agoniados. “Na sua idade eu já trabalhava e tinha dois filhos”. Prosseguimos desempregados. Começamos o cursinho para passar em um concurso público.

Temos 20 e poucos anos.

Sonhamos com o amor das nossas vidas. Essa aí eu tenho certeza de que é a pessoa certa. Passou um mês. Enjoamos. Na verdade não queremos nada sério. Tem muita gente por aí. Saímos com uma galera. Pegamos geral. Carência. Enjoamos. Encontramos uma pessoa legal na balada. Essa aí eu tenho certeza de que é a pessoa certa. Passou um mês. A pessoa não é exatamente como eu pensava que o amor da minha vida ia ser sabe. É legal. Mas não tem aquela química. Tem aquela química. Mas é meio babaca. Ah vamos continuar solteiros mesmo. Vamos dar um like numa foto de 2005 do novo alvo. Será que vai entender a indireta? O like é retribuído. Coração dispara. Essa aí eu tenho certeza de que é a pessoa certa.

Temos 20 e poucos anos.

Estamos assustados. Largados no mundo. Não somos adultos. Não somos crianças. Podemos fazer algumas cagadas. Outras já estão fora de questão. As fazemos da mesma forma. O mundo é gigante. É minúsculo. É aterrorizante. O mundo é lindo. As pessoas são estranhas. As pessoas são incríveis. São os piores anos das nossas vidas. São os melhores anos da nossas vidas.

Temos 20 e poucos anos.

Distante próxima

São sete da manhã.

O frio do inverno chegou e nos enlaça cuidadosamente. Ele faz parte de nós, nos envolvendo constantemente em sua atmosfera gélida.

Me levanto da cama em busca de uma xícara de café. Algo para me esquentar, para trazer o calor que você tanto nega, a ardência que tanto busco em seus braços, mas que me é repelida com tanta veemência. O vapor do café atinge meu rosto. Finalmente me permite uma sensação de aconchego que falsamente acalma meu apertado coração.

Read Article

A breve história da fossa

Vou receber a notícia como um baque, uma dor no coração. Vou me sentir idiota, achando que idealizei demais, que fui trouxa de novo. Vou recusar a me sentir mal por você não me querer mais, afinal não tenho direito de gostar de alguém com quem fiquei tão pouco tempo…que burra. Vou tentar negar o sentimento de todo o jeito.

Vou perceber que não consigo parar de pensar em você. Vou a uma festa e beber pra te esquecer. Vou te encontrar na festa e ficar pior ainda. Vou beber demais e acabar ficando triste. Vou beijar alguma outra pessoa pra tentar te substituir. Vou ficar chateada porque eu queria estar beijando você e não ele e vou voltar pra casa.Vou te ligar de madrugada te pedindo pra me ver e você vai recusar. Vou dormir sozinha me sentindo de novo a pessoa mais trouxa do mundo.

Vou acordar arrependida de tudo que fiz, mistura de ressaca física e moral. Vou me trancar em casa durante uma semana, só assistir netflix e comer chocolate durante esse tempo. Vou parar de te seguir nas redes sociais porque não consigo ver sua foto e não sentir meu coração se contorcendo por dentro. Vou decidir que preciso me afastar do mundo e concentrar em mim mesma.

Vou focar no que eu gosto e no meu trabalho. Vou me dedicar às minhas obrigações pra não pensar em você. Vou malhar feito doida pra me sentir bem comigo mesma. Vou começar a fazer novas amizades.

Vou prometer a mim mesma que não vou beijar mais ninguém até te superar. Vou voltar a ir em festas. Vou poder voltar a beber sem dar problema, sem ficar mal. Vou dançar até o sol raiar, me divertindo como nunca e vou começar a conseguir passar noites sem pensar em você.

Vou começar a ser bem sucedida. Vou perceber que esse tempo que tirei pra mim mesma está dando retorno, vou alcançar meus objetivos.Vou ir atrás das minhas paixões. Vou me sentir mais feliz, mais amada. Vou ser mais presente no momento, vou parar de pensar no que eu fiz de errado, vou focar nas novas pessoas que conheço.

Vou te encontrar em outra festa. Vou ver você beijando outra garota. Vou pensar que nessa hora meu coração vai parar e vai doer muito. Vou realizar que na verdade não doeu nada. Vou me tocar que agora consigo te ver e não ficar mal, consigo estar sem você e me sentir bem mesmo assim. Vou atrás das minhas amigas e vou me divertir até não poder mais. Vou perceber que não preciso de você pra ser feliz porque eu estava sendo esse tempo todo de qualquer forma.

Vou te ver na festa andando por ai. Vou te cumprimentar quando você vier falar comigo. Vou conversar com você, vou ser simpática. Vou te desejar tudo de melhor, porque eu desejo mesmo. Vou te dizer que adorei o tempo que fiquei contigo, porque eu adorei mesmo. Vou te abraçar e te dar tchau e você vai tentar me beijar. Vou me afastar de você porque não te olho mais daquele jeito. Vou perceber que eu parei de gostar de você.

Vou embora da festa. Vou dirigir até a minha casa, escutando música alta e cantando sem parar. Vou estar feliz. Vou estar superada.

Vou chegar em casa. Vou abrir meu computador às 3h30 da manhã e vou escrever esse texto sobre você.

Deixa ele pra lá

Arte por Phazed
Arte por Phazed

Sexta-feira, 21:15h. Sapato, bolsa, documento, chaves. Eu já tava saindo de casa quando meu celular me chamou, pedindo pra eu olhar aquela mensagem acabada de chegar.

“Oi, hum. Desculpa, não vou conseguir ir hoje… Um amigo apareceu aqui, e fiquei enrolado.”

Um amigo apareceu aqui e fiquei enrolado. Um parente veio do interior e vai ter um jantar de família surpresa que ninguém sabia. Meu melhor amigo levou um fora da namorada e precisa sair pra conversar. Queria que as campanhas de cerveja aqui no Brasil, tivessem esse nível de criatividade.

Sorte que não passei rímel, pensei. Se eu tivesse passado, o desfecho dessa história seria um pouco mais agressivo. Sim, porque o rímel é a cereja do bolo na produção e depois que o pincel acaricia suavemente os seus cílios, te fazendo subir todos os degraus da escada do glamour, é bem brochante ter que tirá-lo logo em seguida pra… dormir. É um tombo, um tapa na cabeça. A não ser que você queira deixar sua fronha manchada e seus olhos vermelhos. Mas nada disso vem ao caso.

Não era a primeira vez que ele fazia isso, e eu sabia que também não seria a última. Há um certo tempo, já percebia que eu dava mais importância pra nossa história, do que ele. Mas eu não conseguia me desprender de nossos encontros, porque eu gostava dele e quando ele vinha pedir desculpas e me chamar pra sair de novo ele conseguia ser tão fofo. Sim, ele é meio quieto e misterioso, mas é o jeito dele. Eu gosto assim.

Vesti um pijama e entre dormir ou ligar o Netflix, decidi comprar uma garrafa de vinho e chamar minhas duas amigas-irmãs para darmos risada de todos os caras que furam em cima da hora e mandam mensagem no dia seguinte pedindo “nudes”, como se nada tivesse acontecido. Frustração pouca é bobagem.

Mas tem o tempo né, ele sempre passa.
E faz a gente pensar em algumas coisas que antes não pensava.

Cheguei na festa de aniversário de uma amiga algumas semanas depois, e ele tava lá. Era um amigo em comum. Acho que dos amigos dela. Bem, você entendeu. Logo que ele me viu seus olhos brilharam e ele acenou com a cabeça. Respondi com um sorriso, até que verdadeiro. Cumprimentei algumas pessoas que se encontravam perto de mim na entrada, pedi uma cerveja no bar, não circulei pelo ambiente como costumo fazer. Não fui até ele.

Olhei para trás, percebi que ele tava sozinho. E olhando pra mim. Com um sorriso frouxo, aquela cara de cão sem dona que ele adora fazer. Eu iria lá. Eu daria um beijo no canto da boca dele e faria uma piadinha boba com a nossa história efêmera, só pra ele achar que eu não me importo tanto assim com os furos que ele dá. Pra ele achar que eu sou leve e que topo esse nosso esquema moderninho de sair só quando dá na telha, só quando é conveniente pranós. Ruim? Não, jamais poderia ser. Ele me abraçaria como fez das outras vezes, me beijaria, me esquentaria, me levaria pra casa, e eu me sentiria tão… tão, é…

Tão o quê?

Calma, se eu me esforçar consigo explicar. Ah, esquece… com a cerveja subindo, jamais conseguiria. Quer saber? Acho que tô de boa. Deu preguiça de tentar entender, preguiça de tentar explicar o que sinto quando estamos juntos. Muito mais preguiça de ir até lá falar com ele, interpretar uma personagem que eu não sou, encher meu coração com uma alegria de R$1,99 que duraria só até o próximo perdido dele e acordar esse gigante que já tá aqui quase caindo numa sonequinha boa.

“Ju, estamos indo embora. Quer vir com a gente, ou vai mais tarde?” – uma amiga chamou. Entrei no carro dela, ele ainda me olhava de dentro do bar, agora com um ponto de interrogação no lugar do rosto. Ah, moço… Eu adoraria ficar mais um tempinho com você, mas bateu essa preguiça que nem com criatividade de publicitário eu saberia te explicar. Amanhã acordo cedo.

Esse texto é do site “Vamos pra Vênus“, nosso novo parceiro de conteúdo! Isso quer dizer que trocamos textos e vocês podem ler um pouco de De Repente dá Certo lá e um pouco de Vamos pra Vênus aqui! <3 

Eu prometo que passa

No dia que ele pediu que a gente sentasse no sofá para conversar rapidinho, fiquei por duas horas tentando entender por que tinha que terminar. Chega em algum ponto desse tipo de conversa, que você para de enrolar o cérebro para tentar entender o inexplicável e prefere pedir que a pessoa vá logo embora e leve embalado para viagem metade do seu coração. Pedi que ele fosse.

Dias depois, chegou aquele momento que o que estava na minha casa e o que estava no armário dele, precisava ser trocado e entregue. Isso geralmente precede uma mensagem de texto ou duas. “Você pode deixar na portaria?”, “Claro, é só você passar para pegar, avisei o Seu Manoel”. Injusto demais, querer ir embora quando já sabe até o nome do porteiro. Divididos em três sacolas velhas de lojas, vão duas camisetas de dormir, as caneleiras do futebol de sábado e a foto do porta retrato. A separação é sempre clichê como é do meio para o final de uma novela.
Depois disso, a gente fica triste quando olha: para o celular, o canto da sala que ficava o sapato, o comercial do seriado que assistia junto. Nosso olhar fica triste para qualquer coisa. Fechamos os olhos para descansar. Esses dias sem saber são os mais difíceis. Como pôde querer embora quando já se irrita até com o jeito que eu uso e deixo toda espremida a pasta de dente? Injusto demais.

Read Article