Te trago, amor

Te trago. A fumaça me envolve a alma, o cheiro do Marlboro invade o apartamento e esqueço de abrir as janelas. Na realidade não quero que a fumaça saia, ela é minha única companhia. Mais que isso: ela é minha, mesmo que de segundo em segundo se esvaia pelo vento lento que ali respiro.

Te trago, cigarro. Um. Depois outro. E outro. Repetidamente e sem parada. Meu pulmão há muito reclama desse vício que – como defino – faz bem pro espírito e pessimamente mal para a balança (meus 50 quilos distribuídos em 1,68 m não me deixam mentir). Trago pelo vício, e trago vício pro corpo cansado das situações mal-resolvidas e amores deixados de lado, das mensagens não respondidas, ligações não atendidas, e-mails não visualizados. Das notificações que desde sempre me incomodaram e agora fazem números gritantes na tela inicial do celular.

Te trago. Te trago, cigarro, olhando praquela foto velha, meio amarelada, do amor que tive e perdi pra mim mesma por não acreditar que devia/podia/queria; por não acreditar nele e viver, hoje, trazendo apenas cigarros pra dentro de casa. Nem mais amor, nem um único perfume masculino, nem uma única cueca. Não trago amor, mas trago cigarros.

Eles, com as garrafas de vinho, as músicas lentas da vitrola de agulha torta e as caixas de pizza me acompanham pelas leituras dos romances que não vivi porque nãos quis, porque fechei portas (e janelas, pelo que parece), porque não deixei fumaças dos fogos antigos apagarem e não permiti novos fogos acenderem; por não ter vivido o que falei que viveria, por não ter trazido nada mais que migalhas desonestas pra mim.

Te trago, amor. Te trago olhando a foto amarelada de 2001 e soltando as fumaças entre tosses tímidas. Te trago, amor, queimando os pulmões e não acolchoando mais a alma, que escorre junto às lágrimas nada sutis. Te trago agora, amor, pois naquele tempo não trazia nada mais que muitos nãos acompanhados de dúvidas e sins a tantos outros que não mereciam minhas certezas.

Te trago, cigarro, pois a ti não me resta nada a não ser te acabar em curtas e rápidas tragadas, assim como a mim é o que me faz. Me acaba, derrete, esfumaça… E apaga.

Marina Bufon Nunes

Marina é linguista e bailarina, dança nas palavras e escreve seus passos. Gosta de linhas tortas, sentimentos verdadeiros (e expressados) e bichinhos (vivos). Do interior de São Paulo, o sotaque permanece nos erres e a voz canta alto nos estádios de futebol, esporte que ama desde a época dos dentes de leite.

  • Ademir

    Ele lembra os textos de Dostóievski devido à procura da auto destruição. Também lembra Kafka de quem Dostóievski foi um dos seus inspiradores. Sei lá ….