Tenho ranço do caminho

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Cresci ouvindo minha mãe dizer que ela “tem ranço de algumas coisas”. Não sei se isso é uma expressão exclusivamente norte-fluminense, de onde ela é, mas acho uma descrição fantástica pro sentimento de repulsa e preguiça que temos de algumas coisas. É aquela imagem exata da manteiga que ficou velha e rançosa (meio talhada, meio oleosa) e você, além de automaticamente fazer cara de nojo ainda pensa que vai ter que jogar aquela manteiga fora e lavar a manteigueira engordurada. Isso é ranço e eu tenho certeza que você, assim como eu, tem ranço de alguma coisa.

Tem gente que tem ranço de música dos anos 80, tem gente que tem ranço de atraso, tem gente que tem ranço de lerdeza, tem gente que tem ranço de alegria matinal, tem até gente que tem ranço de quem que posta fotos de cachorros abandonados e nessa pluralidade de ranços, eu tenho ranço é de trajetos. Só de pensar no caminho que eu tenho que percorrer de um ponto A até um ponto B da cidade já me joguei no chão e fiz uma pirraça que envergonharia qualquer adulto. Talvez isso explique meu encantamento com o metrô. Ou o fato de eu morar na zona oeste do Rio e metrô ser algo muito distante da minha realidade, não sei, mas o fato é que metrô resolveria a minha vida. Deixar uma estação, entrar num túnel escuro por alguns minutos e sair no seu destino é quase teletransporte. Um teletransporte apertado, de fato, sem lugar pra sentar e às vezes abafado, mas o trajeto, ah, esse passa em branco, ou melhor, em preto.

Se eu pudesse, transformaria a vida inteira numa viagem de metrô. Acabou essa fase? Tem que mudar? Não está bom aqui? Você até queria ficar, mas não dá? Entre nesse metrô maravilhoso e saia em outro lugar, em outro momento ou em outro ano, sem precisar do ranço do trajeto. É entrar quieto, passar uns momentos no túnel escuro e descortinar o outro lado. Mas a vida não é um metrô. A vida é uma viagem longa de ônibus e não importa se você está na janela ou no corredor, vai ter que acompanhar a estrada.

Guerreiro mesmo é o que acompanha a viagem de olhos abertos e vê os carros ao redor, o trânsito parado, a antipatia da moça do pedágio, crianças reclamando, o rapaz de trás enjoando, a senhora da frente com dificuldade de achar a palavra “céu” na cruzadinha, a mudança da paisagem, o tempo fechando, a chuva na estrada, a ultrapassagem perigosa e , enfim, os portões de entrada do seu destino. Não tem refresco pra quem acompanha o tempo passar minuto a minuto até o final da viagem. Tenha você saído do seu ponto de partida por vontade própria ou porque foi empurrado de lá sem chance de protesto, o trajeto nunca é indolor. Noites em claro, choro, raiva, mágoa, náuseas, falta de apetite, apetite em excesso, detalhamento de erros, medo de não chegar nunca no destino e todos os tipos de infortúnio acometem o viajante que está no entrelugar.

No entanto, é preciso estar desperto para ver a paisagem mudar durante o trajeto e se dar conta de que a viagem está evoluindo. Perceber que já pode pegar a bagagem e desembarcar, é ter a certeza que você não está mais no local de onde saiu, sobreviveu ao trajeto e chegou, mesmo cansado e jurando que nunca mais viaja novamente, você finalmente chegou. Apesar dos percalços e da ansiedade pela chegada, o trajeto tem sua beleza. Quem nunca viu um arco-íris depois de uma chuva na estrada? Quem nunca contemplou pedaços lindos da natureza enquanto olha pela janela? Temos a chance de fazer ótimas leituras na viagem, ouvimos músicas que acalmam o coração, conhecemos pessoas novas e temos tempo para conversas longas, dessas que organizam a mente, estreitam os laços e nos mostram que outras pessoas também sofrem o trajeto.

Há pessoas que roubam no jogo, tomam um comprimidinho e apagam. Essas pessoas também chegam no destino, certo? Olha, até chegam, mas para elas a viagem só começa depois do desembarque. Quando todo mundo vai dormir exausto, elas sobram acordadas porque dormiram na hora errada. Essas pessoas levam tempo para se acostumar com o novo lugar, com o novo clima e, por vezes, carregam uma dor danada no pescoço porque o sono do trajeto nunca é confortável, por mais alta que seja a dose do Rivotril. Encarar o trajeto de olhos abertos é uma forma de manter a sanidade, de saber exatamente por onde passou.

Como uma boa carioca, não tenho muitas esperanças na expansão rápida do metrô do Rio, então, aqui eu vivo e aqui encaro trajetos de ida e volta, todos os dias, mesmo com ranço. O jeito é pegar um detergente e curtir a viagem. Mas é melhor assim. Depois de conhecer tão bem todos esses trajetos, tenho certeza que um dia não vou mais ser passageira. Um dia, quem vai dirigir esse ônibus sou eu.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

1 comment

  1. Sensacional

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