Uber Pool – Primeiras impressões

Outro dia eu tava no meu quarto, refletindo sobre a vida – pra variar- , e percebi que algumas coisas não estavam se encaixando. Eu precisava repensar minha rotina, meu estilo de vida, meu saldo bancário, minhas noites boêmias (ou a falta delas), e muitas dessas questões não cabiam mais só a mim. Eu definitivamente precisava de de uma ajuda externa, vinda dos céus. Então decidi fazer uma oração:

“Querido Deus, primeiramente admiro muito o seu trabalho. Olha, sem querer tomar muito do seu tempo, mas já tomando, gostaria que me ajudasse numa questão muitíssimo importante na minha vida: preciso de uma forma para sair mais pro rolêzinho sem passar por tantas tretas de locomoção. Minha casa é muito longe do centro, o metrô fecha cedo, ônibus é perigoso a noite, eu não posso dirigir bêbada, e não tenho dinheiro pra táxi. Não sei bem como funcionaria um pedido de orçamento pro 100-ôr, mas aguardo seu retorno com alguma solução criativa, inovadora e fora-da-caixa, atenciosamente Ju Batah.”

Alguns dias depois, recebi uma resposta por email: “O Uber Pool começará a funcionar amanhã em São Paulo”. Pra quem não acredita em Deus: ISSO é conexão divina.

O Uber Pool é uma ferramenta dentro do app Uber, que permite que você divida o carro com outros passageiros. Isso deixa a corrida mais barata do que se você pegasse um Uber individual – que já seria bem mais barato que um táxi.

Mas claro, quando falamos em dividir um carro com pessoas que você não conhece, estamos falando em comportamento humano e estamos falando em constrangimento. No metrô, a gente fica grudadinhos uns nos outros, mas é um espaço maior e fica cada um na sua. No carro, é misteriosamente diferente. É um espaço íntimo, com a presença da tão temida INTERAÇÃO.

Tem conversas, nas quais você precisa participar ou então será vista como alguém muito antipática ou sem nenhuma opinião. Tem discussões sobre o trânsito, sobre a política, tem casal que entra se pegando do seu lado, tem amiguinhos mais bêbados que você que estão prestes a chamar o Hugo, o Raul e o Juca – e no carro não vai ter lugar pra todo mundo -, tem dupla de migas falando do casório da outra miga, tem gente descolada que entra falando no celular e esfregando na sua cara uma vida muito mais interessante do que a sua.

Tem gente que tá do seu lado, já aproveita o clima aconchegante e dá em cima? Tem gente que faz isso, sim. Também tem gente que entra reclamando que tá atrasada e do fato de ter que pegar outras pessoas, mas isso é o Uber Pool né minha gente? Não chama o Pool se estiver atrasada. Às vezes também rola uma piada, você dá risada e quando começa a pensar “que pessoa legal essa, poderíamos ser amigonas” aí a corrida acaba. Ela se despede e desce. E você nunca mais vai vê-la de novo.

E acho esse o lance mais engraçado do carro compartilhado. Você fica alí, 20 ou 30 minutinhos, convivendo intensamente com pessoas vindas de lugares diferentes e no fim das contas vocês nunca mais vão se ver. É o reflexo da vida contemporânea. A convivência sem aprofundamento, rápida, prática, divertida e indolor. Será que o Uber Pool veio pra ajudar ou pra atrapalhar as relações, tornando todas elas ainda mais efêmeras?

Sinto que ainda teremos episódios curiosos provindos desse aplicativo, vamos comentando por aqui. Mas por enquanto o que posso garantir é que tá mais interessante que o Tinder.

Vamos pra Vênus

Juh Batah é a criadora do do blog Vamos pra Vênus, designer, ilustradora e webwriter.

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