Você tá comendo amor cru?

Essa semana fui jantar com um amigo bacaninha num restaurante bacaninha pra comer comida de bacaninha e pagar uma conta nada bacaninha. Sou fã inveterada de churrasquinho de rua, de barraquinha de cachorro quente, de barzinho onde tenha pastel de queijo e linguiça e de onde tenha gente como a gente, mas confesso que não mata ninguém ir a um lugar mais almofadinha de vez em quando e comer pouco de coisa muito boa. Chegamos lá, nos sentamos, conversamos um pouco e começou o procedimento padrão de lugares onde você não pode chamar o garçom pelo nome, nem de “amigão” ou “meu querido”.

Depois da troca do pratinho a cada elemento do antepasto, chegaram nossos pratos principais. Pedimos um risotto cada um e eu já estava achando o cheiro do meu maravilhoso antes mesmo do prato aparecer na minha frente. Dei a primeira garfada e ia soltar os cachorros, passar por de baixo da mesa e pedir quentinha quando olho pro meu amigo e vejo a frustração dele. Perguntei se ele não tinha gostado ao que ele responde: “Impossível comer isso. Está cru.” Cru? O meu estava incrível! Ele, então, provou o meu e disse que estava tão cru quanto o dele e seco. Mas eu tinha gostado tanto… Como podia estar ruim? Como podia ter coisa melhor? Como meu amigo tinha percebido rapidamente os problemas do prato enquanto eu nem pensava que poderia ter problema ali?

A questão é que o meu amigo entende de comida. Ele estuda gastronomia, faz workshops temáticos, experimenta receitas em casa, aperfeiçoa, prova de tudo em todos os lugares, é filho de uma exímia cozinheira e sabe o que é bom. Ele já provou risottos maravilhosos, médios e ruins e ficou exigente, não podendo mais aceitar um risotto meio cru ou pouco cremoso.  E não é que a gente é Marcelo às vezes?  Existem situações que nos fazem estabelecer padrões altos, o que nos impede de aceitar tudo o que passe de baixo da cordinha. Chico Buarque canta que “todo mundo tem um primeiro namorado, só a bailarina que não tem”. Chico Buarque e Marcelo sabem que quando a gente está no início de um trajeto, não conhecemos muita coisa e não sabemos diferenciar o bom do ruim, aceitando e amando qualquer coisa. Entretanto, quando vamos abrindo nossos horizontes e conhecendo coisas melhores, percebemos, assim, que o pouco não é pra gente.

É muito ruim e por vezes traumático terminar um relacionamento maravilhoso, por exemplo, mas você aprende a não aceitar o mais ou menos. Pode ficar mais tempo sozinha, sem encontrar ninguém que te encante e isso é muito bom. Isso significa que você tem um filtro mais fino que te poupa de pedregulhos e outros elementos não lapidados. A fase de testes já passou e você já sabe o que não funciona, você se conhece, conhece o que gosta e o que te faz bem. Pra quem não conhece de risotto, qualquer arrozinho cru satisfaz, mas pra quem já é experiente no assunto, só se paga bem pelo melhor. Vamos parar de aceitar o que colocam na nossa frente se a gente sabe que pode ser melhor e precisa ser melhor. Não é porque foi servido em louça bonita que tem que ser bom. Nossos critérios são mais altos que isso, pode devolver esse prato, por favor.

Continuo sem entender de risotto, mas a diferença do novo prato foi brutal. Como eu tinha amado o prato anterior? É sempre bom olhar pra trás e ver como a gente refinou nosso gosto e pode refinar ainda mais. Sempre vai ter um chef que se esmera, combina sabores nos quais nunca havíamos pensado e surpreende. Pode demorar, pode matar a gente de fome, mas vale a pena procurar o que é bom de verdade, bom pros nossos padrões. Fast food  pode até ser gostosinho, mas faz mal e enjoa. Se você já conhece comida de verdade, seja fiel às suas preferências, se respeite e pare de pedir a promoção número 1 que vai fazer você se arrepender amargamente depois. Agora, se você ainda acha que arroz cru é a melhor coisa do mundo, vou te apresentar ao Marcelo. Ele é ótimo pra mudar seu paladar e, quem sabe, abrir seus olhos.

Luisa Mote

Carioca que ama São Paulo, estudante de medicina e formada em letras porque a vida pode ter muitos espectros. Não me peça conselhos nem opiniões, mas me convide pra uma xícara de café, algum gluten, alguma lactose, alguma gordura e uma conversa bem humorada. Isso é tudo que a gente precisa, meu bem.

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